Cristiane Santos, consultora de viagem da Brafrika Viagens; Guilherme Soares Dias, jornalista e fundador do Guia Negro; Nilzete dos Santos, fundadora da Afrotours Bahia; e Heitor Salatiel, Produtor cultural, fotógrafo e cofundador do Guia Negro explicaram o que os agentes de viagens precisam saber sobre Afroturismo
POR ZAQUEU RODRIGUES
O trade turístico teve uma aula sobre afroturismo no segundo dia de WTM Latin America. O Explore Transformation Theatre, um dos três espaços de conteúdos desta edição da principal feira de turismo da América Latina, recebeu em seu palco Cristiane Santos, Guilherme Soares Dias, Nilzete dos Santos e Heitor Salatiel para comandarem o painel O Afroturismo e o agente de viagens: o que eu preciso saber e aprender?
Os palestrantes, referências do afroturismo brasileiro, apontaram que o setor tem muito a avançar na devida compreensão do que é afroturismo e como ser mais inclusivo e respeitoso com o tema urgente para o setor. Guilherme Soares Dias explicou que, numa definição mais técnica, o afroturismo é uma vertente do turismo cultural e pode ser realizada em todas as regiões do país.
“É um turismo de experiência feito por guias negros em lugares de história e cultura negra”, fundamentou o fundador do Guia Negro, lembrando que qualquer pessoa pode fazer Afroturismo. “Qualquer um de nós pode ir a Palmares, ir a um terreiro, fazer um passeio ligado a cultura e história negra. Quem pode ser o condutor desse passeio? As pessoas negras. Quem precisa ganhar dinheiro com afroturismo? As pessoas negras”.
Nilzete Santos, fundadora da Afrotours Bahia, primeira agência de afroturismo do país, explicou que o afroturismo é também um movimento. “É um movimento que não começou agora. O primeiro viajante que chegou até a Bahia, escreveu: ‘Tudo o que sobe é negro, tudo o que desce é negro, tudo o que corre é negro, toda a cultura é negra’. Ele era um alemão que chegou para visitar Salvador e, quando fotografou, era tudo negro”.
A especialista apontou que, desde esse aquele momento se institui um movimento de pessoas que vão em busca disso. E avisou: “O cliente de vocês estão em busca disso. O agente de viagem, sem perceber, envia os clientes para roteiros que eles não têm interesse. Quando eles chegam a Salvador, e agora também pelas redes sociais, eles nos encontram. O cliente das grandes operadoras chegam em Salvador, conhecem a Afrotours e se tornam meus clientes”.
Em uma fala inspiradora e didática, a fundadora da Afrotours Bahia explicou que que o afroturismo é um segmento conecta pessoas e a verdadeira história da cidade. “Salvador, por exemplo, conta com 85% da população negra. Vocês acham que as pessoas vão a Salvador só para ver praias? Não”, alertou ela. Nilzete disse que o afroturismo é para todas as pessoas que têm interesse por uma experiência real e que querem entender a história das pessoas daquele lugar.
A especialista também ensinou que o afroturismo é um movimento pedagógico. “O que a gente faz é ensinar aos turistas o que eles não aprenderam na sala de aula – a história do povo negro neste país, a história dos indígenas que foram tão excluídos de tudo. É de extrema importância a gente abrir a nossa mente. Hoje já temos uma rede bonita e conectada com muitos empreendedores negros e setor público. O presidente da Embratur disse que vai nos apoiar promovendo o afroturismo internacionalmente”.
Heitor Salatiel sublinhou que o afroturismo é uma urgência do mercado de turismo. “Hoje é muito bonito as empresas falarem sobre diversidade e inclusão, mas não praticam isso no cotidiano. Para além do recorte racializado, é uma urgência do mercado se revolucionar e pensar nesse segmento. A gente tem várias operadoras e agentes de viagens aqui hoje, e a gente trabalha com vários destinos. O afroturismo pode ser incluído em todo destino. Em nossas experiências trazemos personagens essenciais para compreendermos a nossa história. Todo mundo passa por exemplo, nas avenidas An-dré Rebouças e Theodoro Sampaio, e não sabe que eram engenheiros negros”.
Cristiane Santos complementou: “O fomento do empreendedorismo negro local é um aspecto estruturante do afroturismo. Na Brafrika Viagens, fazemos uma curadoria em todos os nossos destinos justamente para conciliar a viagem e festividades locais para fomentar o empreendedorismo negro”.