O professor José Roberto de Oliveira é pesquisador, escritor e palestrante, com atuação destacada nas áreas de cultura, história e turismo, especialmente no estudo das Missões Jesuítico-Guarani e da formação cultural da América Latina. Confira entrevista concedida ao jornalista Paulo Atzingen, durante sua passagem pela região das Missões Jesuítico-Guarani, no Rio Grande do Sul.
REDAÇÃO DO DIÁRIO (Entrevista e texto: Paulo Atzingen)*

DIÁRIO – O que significou para o povo Guarani e para o Rio Grande do Sul o Tratado de Madri (1750)?
O Tratado de Madri foi um acordo entre Portugal e Espanha para definir fronteiras na América, trocando a Colônia de Sacramento pelos Sete Povos das Missões e outras áreas que hoje compõem parte do Rio Grande do Sul. Para as Missões, esse foi um dos eventos mais desastrosos da história: inicialmente aceito pelos jesuítas e guaranis cristãos, acabou gerando resistência porque ameaçava sua terra e modo de vida.
A interferência de ingleses e franceses incentivou a ruptura, pois queriam enfraquecer o território sob influência jesuítica. Em 1753, Sepé Tiaraju — capitão guarani cristão — se levantou contra a demarcação. Houve batalhas prolongadas: portugueses avançaram pelo centro do RS e espanhóis pela costa do rio Uruguai, mas só ganharam força quando se uniram.
Em 7 de fevereiro de 1756, Sepé foi morto em combate; seu corpo foi queimado e decapitado, conforme relato jesuítico da época. Três dias depois, na Batalha de Caiboaté, cerca de 1.500 guaranis foram mortos por forças europeias com armamento superior. Ao final, os sete povos foram tomados à força conforme os termos do tratado.

DIÁRIO – A importância histórica das Missões é destacada no seu livro Pedido de Perdão ao Triunfo da Humanidade. O que esse episódio representa para o Brasil e para a humanidade?
O título do livro reflete a necessidade de reconhecer e pedir perdão pelo que os europeus fizeram às experiências missioneiras — consideradas entre as maiores em termos de organização comunitária e cristianização. O Tratado de Madri interrompeu uma das ações mais relevantes de transformação social e cultural no continente.
Autores como Voltaire e Montesquieu destacaram a relevância das Missões: como “Triunfo da Humanidade” e “primeiro estado industrial da América”. Experiências comunitárias ali desenvolvidas — com produção coletiva, foco no bem‑estar social e arquitetura econômica avançada — ainda são pouco conhecidas no Brasil, em parte porque o projeto era de base espanhola e depois passou para domínio português.
Clóvis Lugon e outros pensadores apontam que as Missões eram “comunal demais” para o pensamento liberal europeu da época, com um modelo que unia economia, indústria e comunidade de forma única.

DIÁRIO – Visitamos parte da região e percebemos o valor dos sítios arqueológicos. O que é preciso para que este produto turístico seja mais conhecido no Brasil e no exterior?
O principal desafio é colocar os patrimônios missioneiros — incluindo o único sítio cultural mundial da UNESCO no Sul do Brasil — na pauta midiática nacional e internacional. A UNESCO reconheceu o local como palco de uma das mais importantes experiências humanas.
“As Missões representam um modelo onde a comunidade cuidava de todos — viúvas, órfãos, produção coletiva — baseado no que os próprios jesuítas chamaram de cristianismo primitivo, com forte ênfase no amor ao próximo e no coletivismo”.
Para aumentar a visibilidade turística, é preciso fortalecer a mídia, infraestrutura, promoção internacional e o posicionamento de marca, mostrando a profundidade cultural e histórica da região.
DIÁRIO – O termo “cluster” é usado na indústria para descrever agrupamentos de interesses. Existe algo assim na região?
Sim — o chamado Cluster Missioneiro agrupa ações culturais e turísticas ao redor dos sete povos, com iniciativas regionais desde 1938 e reconhecimento como patrimônio nacional desde 1983. No âmbito do MERCOSUL, desde 1995, as Missões são consideradas um produto cultural integrador.
Há produtos como o Circuito Internacional das Missões (ligando Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e o Caminho das Missões — um roteiro de peregrinação de 30 dias por patrimônios da UNESCO e aldeias guaranis.
Entretanto, sem um plano estratégico forte e investimento robusto, especialmente em mídia e promoção, ainda há muito a fazer para ocupar um lugar de destaque no mercado turístico global.

DIÁRIO – Como o senhor vê o interesse de governos, terceiro setor e imprensa na preservação da memória e na expansão da consciência missioneira?
A cultura local, regional e nacional se formou ao longo de séculos e isso influencia fortemente como valorizamos a nossa história. Nas fronteiras do MERCOSUL, as tradições agropastoris e o ritmo mais lento de difusão cultural dificultam a disseminação dessa narrativa histórica.
“Vejo um despertar em torno dos 400 anos das Missões, mas ainda há necessidade de acelerar o posicionamento de imagem e captação de investimentos. Contamos com uma história que poderia encantar o mundo — inclusive com recursos como filmes, eventos e grandes campanhas — mas ainda falta apoio governamental consistente, tanto fiscal quanto midiático”.
Por exemplo, o jesuíta Antônio Sepp, um músico de destaque da Áustria no final do século XVII, deixou uma vida estabelecida para desenvolver siderurgia, música e outras formas de arte entre os guaranis — um legado rico que ainda espera reconhecimento e divulgação mundial.

José Roberto de Oliveira é mestre em Desenvolvimento pela Unijuí –
Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, com especialização em Administração e graduação em Engenharia de Operação Civil, construiu uma trajetória acadêmica voltada à gestão, às políticas de desenvolvimento e à valorização do patrimônio histórico-cultural. Autor de obras de referência sobre as Missões, a Guerra Guaranítica e o desenvolvimento humano e social, José Roberto de Oliveira também atua como palestrante em encontros nacionais e internacionais, contribuindo para o debate sobre turismo cultural, memória histórica e identidade latino-americana.
*O jornalista Paulo Atzingen viajou a convite da Agência Caminho das Missões com o apoio da Pousada das Missões (São Miguel) e Ritter Hotéis (Porto Alegre).




