As campanhas contra o assédio no Carnaval ganharam, nos últimos anos, as redes e as ruas. Em todo o Brasil, há um desfile de slogans, declarações, posts e frases contundentes que alertam que assédio não é legal e que é uma agressão ao “Outro” (na imensa maioria dos casos à “Outra!”). Por outro lado, também existe o bloco daqueles que alegam que é há um excesso de mimimi, que estão querendo aprisionar a alma humana e robotizar as relações. “Assim ninguém mais poderá se conhecer”, alegam muitos.
Segundo nota enviada ao DIÁRIO DO TURISMO, Airton Gontow e Dalton Figueiredo Júnior, que conheceram suas esposas durante a Folia, discordam que as campanhas possam ser inibidoras, dão aqui depoimentos sobre suas próprias histórias e trazem boas reflexões. Nos dois casos, o relacionamento começou com uma “cantada”, mas eles afirmam que há uma clara linha divisória entre o assédio e a cantada. Para os dois entrevistados, se as campanhas existissem na época em que conheceram suas esposas, os relacionamentos teriam começado do mesmo jeito. “Falar que lutar contra o assédio é mimimi não passa de mimimi de quem quer continuar a ser cafajeste e não respeitar as mulheres”, diz Airton Gontow.
Depoimentos
Airton Gontow e Maria Gontow
Airton Gontow, 63 anos, idealizador do site de relacionamento Coroa Metade (casado com Maria Gontow, 61 anos, também sócia no site)
“Conheci minha esposa, Maria, em um baile de Carnaval, no dia 4 de fevereiro de 2008. Foi no Avenida Club, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, no ‘Carnaval à Moda Antiga’, que eu mesmo havia idealizado e criado, só com marchinhas e sambas-enredos, isso muito antes da moda das marchinhas voltar, felizmente, ao Carnaval de São Paulo. Como eu estava trabalhando, fiquei sentado em uma mesa no canto do salão, observando a festa. Uma hora o então proprietário da casa, Telmo Carvalho, apareceu e perguntou-me por que eu não estava dançando. ‘Estou trabalhando’, falei.
Ele disse que eu deveria deixar de ser tolo. ‘Você está separado. O baile é um sucesso. Se ficar aqui sentado o tempo todo não aceitarei fazer o evento novamente no ano que vem’, ameaçou, brincando.

Fui até o salão e logo vi uma mulher linda, ao lado de uma outra moça, no meio do salão. Eram parecidas. Deduzi que eram irmãs. Ela me olhou e pareceu que cutucou a irmã, mostrando-me. Sem prática em paquerar, já que fiquei casado alguns anos, dei uma volta no salão para tomar coragem para chegar para conversar. Durante o percurso supus, mas sem certeza, que os olhos dela procuravam os meus. Ao completar uma volta, fui homem: corajosamente olhei para ela e… dei mais uma volta.
Continuei achando que me olhava. Parei e fui audaz: olhei e comecei uma terceira volta. Pouco depois voltei até a até minha mesa, pedir a ajuda de um amigo cameraman, que estava no local, filmando para uma tv de Guarulhos. ‘Acho que tem uma mulher olhando para mim. Vamos até o salão e você finge que está filmando e aí mostro a guria para você ver se acha que ela está olhando mesmo…’
Fomos até o salão, ele fingindo que filmava e quando perguntou quem era mostrei.

Mas ela estava agora dançando com um homem alto, negro, bonitão, forte, que a jogava para um lado e para o outro. Ele disse, com ironia: ‘Claro, ela está olhando para você. Claro que está!’ Voltei acabrunhado para meu canto. Passada uma hora pensei: ‘será que está mesmo dançando com aquele cara? De repente cansou de esperar-me e aceitou uma única dança com ele. Aí me viu e parou de novo. Vou procurá-la.’ Andei pelo salão. Dei uma volta. Mais uma. Entrei no meio do salão, mas não a vi. Fui em direção ao café, que ficava ao antes do salão de baile, mas também não a vi. De repente olhei para a saída e ela estava deixando o local, já nas escadinhas que davam para a rua. Fui rapidamente.
Ela estava no último degrau, quase na calçada. Aproximei-me e chamei-a. Ela virou e eu disse: ‘Oi’. Ao que ela respondeu ‘oi’. Falei: ‘não sei dançar, mas sou bom de papo. Tu aceitas tomar um café comigo?’ Ela olhou para a irmã e disse: ‘sim!’ Ficamos horas conversando no café e já marcamos um novo encontro. Desde então não nos desgrudamos mais. No último dia 4 de fevereiro, festejamos 16 anos de união.
Dizem que Amor de Carnaval não dura mais do que a Folia. Apesar de tê-la conhecido no Carnaval, não posso desmentir o dito popular. Havia, desde que a conheci meu coração se encontra em permanente estado de folia. Hoje, quando olho para trás, tenho orgulho do modo como cheguei para conversar com o amor da minha vida. Só fui conversar quando tive certeza de que ela estava interessada.
Aquele instante, aquela cantada, mudou nossas vidas. Hoje temos um site de relacionamento para pessoas maduras, o Coroa Metade, que criamos juntos, e vivemos uma relação de amor, cumplicidade e respeito; respeito que começou com a abordagem correta. Lutar contra o assédio não é mimimi. Assédio é crime! O mimimi é de quem quer continuar a ter atitudes cafajestes e não respeitar as mulheres.”
Dalton e Alexandrina
Dalton Figueiredo Júnior, 59 anos, radialista (casado com Alexandrina Almeida de Figueiredo, 60 anos, gestora pública)
“Meu nome é Dalton Figueiredo Júnior, mas todo mundo me conhece como Figueiredo Júnior. Sou radialista. Conheci minha esposa em 1983, em um Carnaval. Alugamos uma casa e fomos em quatro amigos e cinco amigas. Acabei conhecendo a Alexandrina e logo nos apaixonamos. Uma semana depois já estávamos firmes e fomos assistir a um filme, musical, chamado ‘Anne’. Ficamos noivos no Carnaval seguinte e nos casamos no outro.
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Estamos juntos há 42 anos, e agora estamos celebrando 40 anos de casados. O Carnaval marca muito a minha vida. Foi em um Carnaval que me mudei em 1987 de Campos dos Goytacazes para São Paulo. Também no Carnaval tivemos uma tragédia em nossas vidas. Perdemos um filho. Eu estava narrando um carnaval, na avenida, quando veio a notícia de que nosso bebê, Matheus, havia falecido de meningite.
Hoje temos a Nathália com 34 anos e o Pedro com 26 e decidimos comemorar e pular o Carnaval todos os anos, para lembrar de nosso filho com alegria e não com tristeza. É um pacto que fizemos. E se o assunto é o assédio, somos – eu e a Alexandrina – completamente favoráveis a essa campanha. O Carnaval é lindo. O assédio não. Essas campanhas vieram para ajudar a tornar as festas mais seguras e com mais respeito a todos, especialmente em relação às mulheres.”
Conheça algumas das campanhas no País para o Carnaval de 2025
“Não é não. Respeite a Decisão”, novo slogan da Secretaria da Mulher do Governo do Estado do Rio de Janeiro;
“Deixe Ela Quieta”, campanha promovida pelo Governo de Alagoas pelo terceiro consecutivo;
“Não é não – Carnaval sem Assédio”, campanha da Secretaria Municipal de Assistência Social de Poços de Caldas, em parceria com a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, Polícia Militar de Minas Gerais e Conselho Municipal dos Direitos da Mulher;
“Pedi Pra Parar, Parou! Depois do não, tudo é importunação”, campanha promovida no Distrito Federal pela Procuradoria Distrital dos Direitos do Cidadão (PDDC), Ouvidoria das Mulheres do MPDFT e Núcleo de Gênero (NG);
Bloco “Não é Não!”, organizado pela Secretaria da Mulher de Niterói, pede mais respeito ao público feminino, buscando conscientizar contra o assédio sexual no Carnaval. A música mais tocada será “Uma palavra basta”, composta por Carolina Vergara e Nilze Benedicto, eleita a melhor marchinha em votação popular organizada pela Secretaria da Mulher, em parceria com a Fundação de Arte de Niterói (FAN).
“Respeita as gurias na folia. Juntes por um Carnaval sem Assédio”, campanha da ONG Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, realizada pelo terceiro ano consecutivo em Porto Alegre.
Assédio é crime!
Está em vigor desde 2018 a Lei 13.718, que criminaliza os atos de importunação sexual e divulgação de cenas de estupro, nudez, sexo e pornografia. A pena para as duas condutas é prisão de um a cinco anos. A importunação sexual foi definida em termos legais como a prática de ato libidinoso contra alguém sem a sua anuência “com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiros”.