O Brasil está preparado para a invasão chinesa?

Fábio Steinberg

Como uma gigantesca avalanche humana, eles estão invadindo todo o planeta. São milhares, com dinheiro na mão, e loucos para conhecer novos lugares. Este movimento não representa perigo para qualquer soberania nacional. Ao contrário: é uma oportunidade única para o turismo, inclusive o Brasil.

 Estamos falando da escalada de chineses que desembarcam em volumes crescentes em todo o mundo. Hoje, já são 65 milhões por ano, número que deve quase dobrar até 2025. Com isto, a China vai se tornar o maior mercado emissor de turistas. Os dados fazem parte de um relatório recente da consultoria Euromonitor Internacional, em conjunto com a WTM Latin America.

Com 115 milhões de viagens previstas para os próximos dez anos, será muito mais que uma imensa mobilização de pessoas. Implica em uma tremenda revolução cultural (sem jogo de palavras com a própria história recente da China).

Diante de hábitos e costumes completamente diferentes, os mercados de turismo ocidentais terão que se adaptar, a toque de caixa, a este público talvez meio esquisito, mas nada desprezível do ponto de vista de negócios. No desespero de captar ao máximo este suculento quinhão, uma histeria parece que tomou conta de todos que fazem parte desta indústria, de agências de viagens a companhias aéreas, de hotéis a comércio, entres tantos outros.
A América Latina também será aquinhoada com uma rebarba desta invasão. A seu favor, pesa o interesse acentuado dos chineses em conhecer lugares cada vez mais distantes. As suas atuais 380 mil viagens anuais à região – 64 mil delas ao Brasil – devem se expandir em três anos para meio milhão.

Diante de hábitos e costumes completamente diferentes, os mercados de turismo ocidentais terão que se adaptar, a toque de caixa, a este público talvez meio esquisito, mas nada desprezível do ponto de vista de negócios.

No entanto, há uma considerável casca de banana no caminho. Trata-se do choque cultural que não só confunde, como impede de aos ocidentais entender facilmente as características do visitante chinês. Os comportamentos ainda são pouco conhecidos, e exigem atenção redobrada para serem atendidos. Exemplos não faltam.

Segundo a Euromonitor, a coisa mais importante para os chineses é fazer compras, principalmente marcas de luxo. Só em 2015 este público gastou 50 bilhões de dólares no comércio internacional. Isto equivale a um terço de suas despesas em viagens, e quase o dobro do que pagaram em hospedagens e atividades.

É exatamente o oposto do que fazem os três principais mercados emissores: os norte-americanos, alemães e ingleses, que priorizam a qualidade das acomodações e boa gastronomia. 

Grandes redes hoteleiras internacionais já entenderam que os chineses quando saem de casa costumam levar a tradição na bagagem. Por isto, disponibilizam nos quartos um tratamento personalizado, que vai de chinelos a chaleiras com água quente para o chá. 

Há ainda a preocupação da hotelaria em oferecer um cardápio com acepipes pátrios, que vão dos tradicionais dumplings, espécie de raviólis com uma variedade de recheios, ao congee, mingau empapado de arroz com carne, peixe ou vegetais no café da manhã. Não faltam a este regabofe oriental condimentos como picles e rousong (carne seca de porco com textura igual a algodão). Oferecem ainda marcas de cerveja mais procuradas, como como Snow e Tsingtao.

Para este público melindroso, é indispensável também contar com intérpretes, atendimento personalizado, e folhetos em mandarim. Como ocorre ao contrário, a maioria dos chineses não domina o inglês ou outro idioma ocidental. Português então, nem pensar.

Há ainda outra pedra no sapato. Pelo pouco traquejo em viagens, os chineses ganharam a fama de campeões em grosseria. O próprio Governo publicou um guia com orientações básicas de como se comportar fora do país. “Não escarre, cuspa chiclete no chão, jogue fora lixo na rua, ou faça xixi ou cocô onde bem entender”, explica um trecho. “Não tussa, espirre ou coloque o dedo no nariz ou nos dentes na frente dos outros”, explica em outra parte deste livreto de 64 páginas. A publicação pede ainda para não se deitar em ambientes públicos, evitar sair à rua com o cabelo desgrenhado e a cara suja, ou mesmo andar descalço. 

Mesmo com todos os desafios, há uma disputa acirrada entre os países para atrair este viajante com grande potencial de consumo e ávido para conhecer novos territórios.

Claro que o Brasil não é exceção. Mas para conquistar os chineses é preciso bem mais do que intenção. É indispensável antes fazer o “dever de casa”. Só que isto, já sabemos, é outra história.

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