Ao Aconcágua – por Paulo Atzingen*

Foi preciso chegar próximo ao Sentinela de Pedra para o turista compreender um milésimo de seus enigmas. Entender, por exemplo, porque tantos alpinistas perderam a vida ali, ou a caminho de atingir o topo das Américas e ficaram congelados, pendurados em montanhas de gelo eternas. O Aconcágua assusta e fascina. O vôo para Santiago e sobre a Cordilheira dos Andes não permitiu a Iolando distinguir o cume dos cumes da América; teve apenas a leve impressão de que no início dos tempos a cordilheira surgiu e se alastrou da Terra do Fogo ao Canadá, para única e exclusivamente servir de contrapeso para o continente americano se manter flutuando entre os oceanos.

A viagem de Mendoza até o Parque Nacional do Aconcágua, o “Ackon-Cahuac”, ou sentinela de pedra como chamavam os Incas, dura em média três horas. Os vales que antecedem a grande cordilheira abrem-se aos olhos do turista e traduzem as matizes essenciais e complementares do verde, do ocre, do cinza e do amarelo. Trata-se de uma representação à luz do dia e do agora, de milhões de anos de trabalho no grandioso atelier das eras. É fácil agora para Sarges compreender como a alquimia das substâncias estéreis como a areia, e a argila proporcionou aos olhos (com o auxílio do sol e do ar) uma evolução simétrica de matizes e, proporcionais à sua grandeza. Estamos falando de barrancos colossais, falésias infinitas, paredões gigantescos, que estão assim hoje porque foram ganhando camadas de suco orgânico durante eras e eras. A viagem do turista ao encontro do Aconcágua é uma verdadeira volta ao princípio do mundo. As montanhas mostravam-se compreensíveis em sua construção. Como castelos de areia que são construídos à beira mar. De dois em dois milhões de anos, imagina Sarges, uma cor diferente. Nos primeiros dois milhões de anos uma lama espessa na cor ocre do enxofre, nos dois milhões de anos posteriores o creme avermelhado do magma ejaculado por um, dois três vulcões raivosos, e nos quatro milhões de anos seguintes sedimentos amarelos e verdes trazidos pela força titânica dos tsunamis semanais do Pacífico. E estava pronta a montanha. No meio, a estrada e o micro-ônibus e o turista tagarelando sobre a crosta das coisas.

O Sentinela de Pedra está ali, ao alcance da mão de Sarges e das máquinas fotográficas. O dia limpo e um sol diagonal oferecia-lhe um presente: observá-lo, observá-lo, observá-lo. Envolto em um véu de neve, da cabeça do gigante hermafrodito emanava um bafo gelado de petrificar os ossos. O enigma de morada dos deuses permanecerá ainda por muitas e muitas eras, principalmente para aqueles que preferem, como o turista, uma praia ao invés da montanha, uma caipirinha de cachaça, ao invés de um Malbec.

* O Turista Encarnado –  pg. 76 – Editora Meca – SP – 2007

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