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Depois de 25 anos, um acordo histórico e um setor em alerta

Depois de mais de 25 anos de negociações, a União Europeia está prestes a assinar um acordo histórico com o Mercosul, que em seguida seguirá para aprovação nos parlamentos dos países envolvidos. Trata-se de um acordo que sempre foi temido e cuidadosamente contido entre dois blocos conhecidos por altos níveis de proteção, sobretudo do lado europeu.

A abertura que agora se desenha é significativa. Ambos os lados passam a ter acesso a um mercado vasto, diverso e cheio de assimetrias. Mas é justamente aí que começa o verdadeiro desafio: como se preparar para uma abertura gradual, sabendo que alguns setores ganharão tração enquanto outros inevitavelmente sentirão o impacto.

Cabe agora às indústrias do Mercosul e também às europeias compreenderem que este não é apenas um acordo comercial, mas um reposicionamento estratégico. Produtos europeus entrarão gradualmente na América do Sul, assim como produtos sul americanos buscarão espaço na Europa. Nem todos vencerão. Alguns mercados serão pressionados, outros privilegiados.

O vinho entra fortemente nesse cenário. E há um ponto que, pessoalmente, chama muito a minha atenção: a forma como os países do Mercosul se posicionaram em relação à proteção de suas indicações geográficas no setor vitivinícola.

Os números falam por si.

Brasil: conta com apenas 6 indicações protegidas no setor do vinho, revelando uma estratégia extremamente restritiva e conservadora.

Uruguai: apresenta 54 indicações, adotando uma proteção territorial ampla, inclusive para regiões pouco conhecidas.

Argentina: registra 106 indicações, refletindo uma política claramente agressiva de blindagem de nomes.

Acordo entre União Europeia e Mercosul pode redefinir o comércio de vinhos e a proteção de indicações geográficas entre os blocos - Crédito: Canva
Acordo entre União Europeia e Mercosul pode redefinir o comércio de vinhos e a proteção de indicações geográficas entre os blocos – Crédito: Canva

Em termos de política de proteção de origem, o Brasil está muito atrás, inclusive do Uruguai, apesar de possuir uma área vitícola maior, mais diversa e com enorme potencial identitário ainda pouco explorado.

Por outro lado, é preciso ser realista: a entrada dos vinhos do Mercosul na Europa continuará sendo difícil. O mercado europeu é maduro, altamente regulado, competitivo e ao mesmo tempo saturado. Ainda assim, vale lembrar que a Europa vem perdendo mercados importantes nos últimos anos, como Estados Unidos e Rússia, e precisa, queira ou não, conquistar novos destinos comerciais.

Enquanto isso, o consumidor da América do Sul demonstra uma clara carência e curiosidade por produtos europeus. A presença dos vinhos europeus na região ainda é tímida, limitada e muitas vezes concentrada em poucos países, marcas e estilos. Esse desequilíbrio merece atenção, especialmente quando observamos como mercados tradicionais do Mercosul foram historicamente dominados por vinhos do Chile e da Argentina.

Vejo cada vez mais vinícolas europeias interessadas em entrar no Brasil, buscando posicionamento, identidade e reconhecimento. Por outro lado, percebo que a presença de vinícolas brasileiras na Europa ainda é limitada, enquanto produtores da Argentina e do Uruguai fazem esforços consistentes e muitas vezes dispendiosos para estarem presentes no mercado europeu, que para muitos ainda parece distante ou quase inalcançável.

Em alguns países europeus, sobretudo aqueles tradicionalmente consumidores e não produtores, observa se uma forte preferência por vinhos do próprio continente, funcionando na prática como uma forma indireta de proteção. A Europa, nesse sentido, ainda se mostra cautelosa, quase hesitante, em enxergar a América do Sul como um mercado estratégico de longo prazo.

Estamos, portanto, diante de um momento de desafios reais, em que discursos políticos darão lugar à prática. No fim, será a qualidade, aliada à consistência, à identidade e à estratégia, que definirá quem permanecerá relevante.

Dentro do setor vitivinícola brasileiro, um produto em especial pode ganhar destaque nesse novo contexto: o suco de uva, um produto único, bem estruturado, com escala e potencial de crescimento internacional ainda pouco explorado.

Para que este acordo se torne efetivamente funcional, será indispensável rever burocracias que hoje ainda travam o comércio, especialmente nos processos de exportação dos países do Mercosul. Exigências administrativas complexas, lentidão documental, entraves sanitários e falta de harmonização prática entre normas continuam sendo obstáculos reais.

Sem essa revisão, o acordo corre o risco de existir mais no papel do que na prática. Em um cenário como esse, quem for mais ágil, souber interpretar o mercado e adaptar seus processos com rapidez, inevitavelmente sairá na frente.

Uma coisa, porém, é certa: devemos ver, nos próximos anos, uma presença maior não apenas do Brasil, mas também de outros países do Mercosul na Europa. O movimento será gradual, desigual e cheio de ajustes, mas irreversível.

Tempos interessantes se aproximam, em meio a uma convulsão global que ganhou força em 2026. Para quem observa o vinho não apenas como produto, mas como cultura, economia e território, este acordo marca o início de uma nova fase. Ainda assim, tudo indica que se trata de um acordo com potencial para favorecer ambas as regiões, desde que acompanhado de visão estratégica e políticas bem executadas.

Texto de Waleska Schumacher, direto de Haia, Países Baixos

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