Em meio à onda de protestos no Chile, 41º Congresso Achet tem atividades canceladas

Manifestantes bloquearam principais vias de acesso de Castro, cidade sede do evento, e obrigou a organização a cancelar o coquetel de inauguração e atividades de seminários; cancelamentos de voos também impediram a chegada de profissionais

 POR ZAQUEU RODRIGUES

                                   

CHILE – De 19 a 22 de outubro, o pequeno município de Castro, localizado ao sul do Chile, na belíssima Ilha de Chiloé, foi palco da 41ª edição do Congresso Anual da Associação Chilena de Empresas de Turismo (ACHET), considerado o evento mais importante da indústria de turismo do Chile.

A edição deste ano, no entanto, não escapou aos efeitos da onda de manifestações que se avolumam no país desde a última sexta 18. O primeiro impacto foi no sábado 19. O coquetel de inauguração do Congresso, preparado em Rilán – a 30 min de Castro – foi cancelado pela organização após a estrada de acesso ser bloqueada por manifestantes.

Minutos antes, durante a cerimônia de abertura, no Centro Cultural de Castro, as autoridades haviam lamentado a violência que começava a crescer nas manifestações, com incêndios e depredações. “Trata-se de um grupo minoritário que tem usado todas as formas de violência”, classificou a subsecretária de turismo do Chile Mónica Zalaquett, que encurtou a sua participação no Congresso em função da grave situação vivida pelo país.

Em suas falas na cerimônia inaugural, o Presidente da Associação Chilena de Empresas de Turismo (ACHET), Guilhermo Correa, e o Alcalde (prefeito) de Castro, Juan Eduardo Vera, também condenaram a violência. “É gente que não representa o país”, disse Guilhermo Correa. “A maioria silenciosa da população não irá permitir que o populismo se instale”, completou Vera.

Na segunda-feira 21, terceiro dia do Congresso Achet, a organização encerrou mais cedo as atividades de Seminários no hotel Enjoy de Castro após novas manifestações ocuparem as vias de acesso. Em sua maioria jovens, os manifestantes gritavam palavras de ordem contra o presidente Sebastián Piñera, batiam panelas e empunhavam cartazes com frases em defesa da democracia. Em um dos cartazes lia-se: “Ditadura nunca mais”.

Ao Diário do Turismo, o presidente da Associação Chilena de Empresas de Turismo (ACHET), Guilhermo Correa, afirmou que ainda não possível calcular a dimensão do prejuízo para o turismo chileno com os conflitos. “Ainda não temos esse dado. Esperamos que essa situação encontre uma resolução o mais rápido possível, pois prejudica a todos”, declarou ele, reforçando o compromisso da Achet com o desenvolvimento do país.

Apesar da gravíssima situação instaurada em território chileno, o 42º Congresso Achet proporcionou momentos inspiradores aos cerca de 200 profissionais do mercado de turismo nacionais e estrangeiros. Um dos pontos altos desta edição foi a Aula Aberta em San Javier, no município de Curaco de Velez, na Ilha Quincao. Em meio a um paisagem deslumbrante, com vista para o mar, os moradores locais apresentam a cultura de Chiloé por meio da gastronomia, músicas, danças, lendas e artesanatos.

Moradores de Chiloé apresentam suas riquezas: gastronomia, artesanatos, danças, músicas, lendas…

O Congresso Achet 2020 terá como sede Tarapacá, no Norte do Chile

Os Protestos

Os protestos ganharam as ruas no começo da semana passada contra o aumento na tarifa de metrô e despontaram na sexta 18. De lá para cá 18 pessoas morreram nos conflitos e mais de 2.600 foram presas.

Em meio à onda de manifestações que toma o país inteiro, Piñera decretou Estado de Emergência e toque de recolher. Muitos serviços públicos como metrô e particulares como supermercados operam com horários reduzidos.

Pelas ruas de Osorno, na região de Los Lagos, a reportagem do Diário do Turismo cruzou com caminhões do exército fazendo ronda pelas ruas. O Ministério do Interior já anunciou que convocará militares da reserva para aturem no Estado de Emergência, em vigor desde o sábado passado, 19.

A repressão aos protestos tem repercutido mundo afora. Ao fim da audiência geral na Praça de São Pedro, o Papa Francisco afirmou estar preocupado com a situação do Chile. ONU irá investigar violações.

Por meio de carta ao governo, o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) do Chile também expôs preocupação com violações aos direitos dos manifestantes. Pelas redes sociais, chilenos compartilham vídeos de abusos de Carabineros e militares.

De acordo com moradores de Santiago, Osorno, Puerto Varas e Castro, os protestos catalizam anos de insatisfação com a política. “O aumento [desfeito] na tarifa de transporte público foi apenas o estopim de uma série de abusos contra a população mais pobre”, diz uma moradora de Puerto Varas que não quis ser identificada na reportagem.

Para seguir viagem, jornalistas precisaram pegar um Salvo Conduto num posto de Carabineros (Foto: Zaqueu Rodrigues)

“Assim como no Brasil, a desigualdade é muito gritante no Chile. A população pobre vai à uma farmácia e não consegue comprar um remédio porque é muito caro; os serviços públicos não atendem às necessidades; a população se sente abandonada pelos políticos”, conta um jornalista chileno que também prefere não se identificar.

Nesta quinta-feira 24, Piñera foi à TV para anunciar novas medidas para conter a escalada de protestos e controlar a crise no país. Entre outras propostas que irá apresentar ao Congresso chileno estão a diminuição na conta de luz e aumento das pensões.

Enquanto não há uma solução concreta para a profunda crise que começa a abater o governo, o clima nas ruas é de tensão e busca por informações. “A população chegou ao seu limite, aguentou por anos até onde conseguiu, e agora explodiu”, sintetiza o jornalismo chileno.

Redação
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