Eu adoro um vinho rose e daí!

por Werner Schumacher*


Minha juventude foi marcada pelo vinho rose ou rosado, era o preferido pelos jovens e achei que seria fácil escrever sobre este produto que eu adoro, mas me deparei com um grande problema, há 50 tons de rosa e aí tudo se complicou.

Entre os anos 1960-80, no auge da minha juventude, dos 15 aos 27, o vinho branco era o mais consumido no Brasil, mas seguido de perto pelo vinho rose e depois vinham os tintos.

O vinho rose ia bem com tudo, refrescante no verão, aquecia no inverno, não tinha nada melhor para harmonizar (carne vermelha e leite) com um strogonoff, na época o must. Era, portanto, um produto versátil e moderno, próprio para os jovens, ambos, provavelmente, rebeldes.

Com o advento do consumo de vinho para a saúde e não mais para o prazer, esta situação em poucos anos se inverteu, isto é, o tinto passou a ser o mais procurado, enquanto o branco e o rose tiveram grandes quedas, perdas essas que foram bem maiores que o ganho dos tintos.

O que mais importava era o teor de resveratrol, travou-se uma enorme batalha pra ver qual vinho tinha o maior teor, não importava se o teor da substância fosse fruto de um mecanismo de defesa da planta a uma adversidade climática. Enfim, o Tannat parece ter saído como vencedor.

Começou então uma campanha difamatória do vinho rose!

“O vinho rose é para mulheres e efeminados”, a mais agressiva, eram outros tempos e creio não haviam surgido ainda os enochatos de plantão.

O vinho rose ia bem com tudo, refrescante no verão, aquecia no inverno

Mistura

Lembro que muitos diziam que o vinho rose não era um vinho sério, que não existia uva rosa, apenas a tinta e a branca (na verdade verde ou amarelo dourado, de acordo com o grau de maturação, etc.). Ainda, que era uma mistura entre vinhos brancos e tintos.

Alguns chegaram até a indicar o criador desta mistura (“assemblage ou blend”), um assador proprietário de uma churrascaria aqui de Bento Gonçalves, ao lado do Hospital Tacchini. Reza a lenda que o dito cujo, ao lhe pedirem um vinho rose, chegava à mesa do cliente com uma jarra grande de vinho branco e outra menor de vinho tinto e pedia: “gostas de um rose clarinho ou mais pra clarete”? Diante da resposta ele servia ao gosto do freguês e era craque na medida a olho e um baita assador, assava um lombinho no espeto que só vendo.

Igual a esta, inúmeras outras histórias se ouvia naquele tempo.

Mateus Rose

O grande símbolo daquela época foi o vinho português Mateus Rose, cuja garrafa vazia servia de candelabro para jantares românticos, graças ao seu formato inspirado num cantil usado durante a 1ª Guerra Mundial.

Para a elaboração do Mateus Rose se empregam cubas próprias para o efeito da cor e sabor do vinho, onde as uvas são deixadas a macerar entre duas a vinte horas, procedendo-se depois à sangria. Um método simples, experimentado há cerca de 80 anos por Fernando Van Zeller Guedes e que fez a diferença entre os vinhos de mesa. Foi assim que nasceu o Mateus Rosé, em 1942, dando origem a um tipo de bebida alcoólica diferente e que agradou desde a primeira prova, e que vende atualmente mais de 20 milhões de garrafas por ano para 120 países.

Em um texto de Mike Vesethin, com o título “O Retorno de Mateus Rose”, publicado no dia 19 de maio deste ano, no The Wine Economist, ele afirma que o vinho foi destinado inicialmente para o MERCADO BRASILEIRO, mas seu domínio de exportação logo chegou ao redor do mundo, incluindo especialmente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha.

Muitos tentaram imitar o estilo do Mateus Rose, inclusive a garrafa em forma de cantil (Crédito: site Mateus Rose)

De acordo ainda com o autor, que o incluiu em seu livro “Uma volta ao Mundo em 80 Vinhos”, o Mateus Rosé é uma parte importante da evolução do mundo do vinho – tão importante que tem sua própria entrada no “Oxford Companion to Wine”. Mateus vendeu 3,5 milhões de caixas em 1978, respondendo por incríveis 40% das exportações portuguesas de vinho.

Chiques & Famosos adoravam o Mateus, entre eles, era um dos preferidos da Rainha Elisabeth e há uma foto de Jimi Hendrix abraçando uma meia-garrafa de Mateus

Muitos tentaram imitar o estilo do Mateus Rose, inclusive a garrafa em forma de cantil, o Costebel da Aurora, que vinha com um mini cadeado ao estilo do diabinho do Casillero del Diablo, o Chateau Duvallier, acredito que até um enólogo português colaborou no projeto do vinho ou pra Granja União onde os vinhos eram elaborados, o Carlos Fateixa, a Garibaldi tinha um Marquês de Borba (creio), enfim, mas firme e forte segue apenas o quase centenário Mateus.

A Sogrape, produtora do Mateus lançou uma versão dry (seco), com 4 g/l de açúcar residual, elaborado com as castas Baga e a Syrah (Baga uma cepa autóctone portuguesa).

Talvez os imitadores de plantão tentem simular o permanente sucesso do Mateus Rose, cuja tonalidade, entre os 50 tons de rosa existentes, não é um problema, mesmo com a predominância do rosa próprio da Provence, na França, o tom que lembra olho de uma perdiz, para os caçadores é fácil identificar.


Santa Lucia do Vale dos Vinhedos em 18.08.2020


*Werner Schumacher estudou Economia na PUC/RS e é um dos responsáveis pela profissionalização da vitivinicultura no Brasil.


 

 

 

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