Caminho das Missões Jesuíticas: uma travessia histórica e espiritual no Rio Grande do Sul
Pus o pé na estrada às seis horas da manhã e não esperei o café da Pousada das Missões ser servido. Levei duas bananas e duas barras de chocolate, além do cantil modernamente chamado de squeezy. Passei em frente ao Santuário São Miguel Arcanjo e fiz mais uma sequência de fotos. Não resisti e entrei para me despedir daquele monumento vermelho, que me nego chamar de ruínas.
Por Paulo Atzingen, de Santo Ângelo (Texto, fotos e vídeos)*
Finalmente colocava em ação o meu plano de peregrino, assimilando de corpo, mas ainda não em alma, a saga dos Guarani e dos apóstolos que por aqui andaram a pé e montados em animais, no início do século XVII, ou seja, 1600 e alguma coisa.
Cada passo que dou ao lado da igreja de São Miguel Arcanjo, sinto uma liberdade sempre experimentada nas estradas, no processo de sair de um ponto e ir a outro, uma liberdade totalmente diferente àquela buscada pelos Guarani, pela grande nação Guarani que por essa região viveu. Experimento, aliás, o reverso do sentimento de escravidão que por aqui reinou quando centenas, milhares de Guarani foram levados como presas para o mercado escravagista, incluindo São Paulo.

São Miguel, local que agora deixo, foi a antiga capital dos Sete Povos das Missões. O professor José Roberto Oliveira, em Santo Ângelo, dois dias depois, explicou-me que São Miguel foi a segunda redução* fundada, em 13 de junho de 1632. Os jesuítas Pedro Romero, Cristóvão de Mendonça e Paulo Benavides selecionaram este lugar para a construção do magnífico templo que agora me afasto. A jornada é uma busca pelas origens, uma procura por valores que permanecem. Encontro-me no coração do Rio Grande do Sul, caminhando por terras onde os jesuítas católicos catequizaram milhares de guarani, transmitindo-lhes, apesar de controvérsias, a fé cristã.

No coração do Rio Grande
Estou no coração do Rio Grande e sigo em direção ao sítio arqueológico de São João Batista. A estrada de terra vermelha é margeada por extensas plantações de soja, intercaladas por linhas de girassol prontos para colheita. Caminho horas e tenho a companhia de bandos de periquitos, aqui chamados de caturritas alegrando meu caminho. Penso sobre o papel dos jesuítas e, em especial, o de Antônio Sepp, considerado o gênio das missões.
Por esta estrada caminhou Sepp. Por esta estrada, o jesuíta foi criar a nova colônia São João Batista, porque a de São Miguel já não comportava tantos guarani. Por esta estrada foram levadas sementes de algodão, mudas de erva mate, de tabaco e de toda espécie, para serem plantadas na nova colônia. Por esta estrada caminharam centenas, milhares de Guarani para a construção de uma nova comunidade, talvez um novo reino.
Às vezes, quando a mochila pesa-me às costas, penso que sou um indígena moderno, caminhando em direção à minha redenção. Às vezes, quando bate-me a sede e sento sobre uma pedra para descansar, penso que sou um jesuíta setecentista, que já entendeu o significado da alma e da água viva, mas devo obrigações à coroa e ao rei da Espanha.
Às vezes sinto-me um bugre na cidade me dando por civilizado, desconhecendo a história que me abriu caminhos até aqui.
Veja a galeria de imagens:

Indígena moderno
Ouço trovões e me assusto. Estou sendo perseguido por grandes nuvens de chumbo que vêm distribuindo flashes sobre o mundo. Se o flash encontra seu alvo, o objeto iluminado será revelado, lá em cima, no laboratório de Deus, penso. Onde me abrigarei dessa água anunciada? Sou cercado, à direita e à esquerda por plantações de soja e capim. Lembro do Evangelho de Mateus, versículo 7, que diz mais ou menos assim: “aquele que bate à porta, a porta será aberta; aquele que pede, o pedido será dado”. Então pedi: “Meu Deus, não me abandone neste pasto…”. Após uma curva na estrada, surge empoeirado e, em meio ao capim, um abrigo. Era a resposta! E ali fiquei, por vinte minutos, os flashes cessaram. A chuva não veio, mas o recado tinha vindo do céu. “Seu indígena moderno, cara pálida de medos, creia em mim, que te protejo!. Siga!…”. E segui.

São João Batista, Entre Ijuis
Chego ao sítio arqueológico São João Batista, já no município de Entre Ijuis, após cinco horas de caminhada e sou recebido pelo guia Eloi Pereira que me apresenta o atrativo, Patrimônio Histórico Artístico Nacional.

“Com o crescimento de São Miguel Arcanjo, os jesuítas decidiram dividir sua população e encarregaram o padre Antonio Sepp de escolher um local. E ele escolheu aqui”, me fala Eloi. Segundo ele, junto aos caciques guarani, por volta de 1680, escolheram uma área perto do rio Ijuí onde prepararam a terra para semear e começaram a constuir casas para 150 famílias. “A redução de São João Batista se desenvolveu e em 1707 possuía mais de 3 mil habitantes”, resume Eloi.


Exausto, mas iluminado pela história do lugar, sou recebido pela família de João e Marli, amigos que recebem peregrinos abrindo a casa e o coração para viajantes como eu. Ali jantei e dormi. (Confira na próxima matéria)
TEXTO COMPLEMENTAR:
As missões Jesuíticas dos Guarani
Durante a conquista e colonização espanhola na América foi criada, em 1607, a Província Jesuítica do Paraguai, abrangendo parte do Paraguai, da Argentina, do Brasil e do Uruguai. Neste amplo território, por cerca de 150 anos, padres jesuítas e indígenas Guarani criaram povoados chamados reduções, dos quais 30 prosperaram.
Com um sistema social cooperativo entre os povoados, os missioneiros desenvolveram as ciências, as artes e os ofícios e tinham uma economia baseada na criação do gado e na extração da erva-mate.

Reduções Jesuíticas
As Reduções Jesuíticas foram aldeamentos indígenas organizados e administrados pelos padres jesuítas no Novo Mundo, como parte de sua obra de cunho civilizador e evangelizador. O objetivo principal das Reduções foi criar uma sociedade com os benefícios e qualidades da sociedade cristã europeia, mas isenta dos seus vícios e maldades.
As Reduções Jesuíticas são consideradas uma das mais notáveis utopias da história, pois refletem o ideal organizador dos jesuítas e a tentativa de criar uma sociedade civilizada e cristã entre os povos indígenas

*O jornalista viajou a convite da Agência Caminho das Missões com o apoio da Pousada das Missões (São Miguel) e Ritter Hotéis (Porto Alegre).
Serviço:
Agência Caminho das Missões
Fone: (55) 9978-2631
Email: caminho@caminhodasmissoes.com.br
Site: http://www.caminhodasmissoes.com.br




