Estava começando minha caminhada pelas terras missioneiras no Rio Grande do Sul, quando uma tempestade repentina fez mudar os planos do primeiro dia.
Paulo Atzingen, de Santo Ângelo (RS) (Texto, fotos e vídeos)*
O fenômeno aconteceu minutos depois de sair da Pousada das Missões, nos primeiros passos de minha aventura. Essa peregrinação integra o Caminho das Missões, um roteiro pelas antigas estradas missioneiras que ligavam as Reduções (aldeias) Jesuítico-Guarani.
Parti de São Miguel das Missões em direção ao sitio arqueológico São João Batista, num percurso de 23 quilômetros. Retornei mal tinha andado 500 metros. Nuvens mal humoradas soltavam raios e resmungavam em forma de trovão. Aceitei o convite de José Dirceu Dutra, poeta, artista e cantador gaúcho, que me conduziu à sua fazenda, a São José. O tempo abriu lá.


Monumentos das Missões Jesuítica-Guarani
São Miguel das Missões, Rio Grande do Sul, é um município integrante da rota missioneira e onde fica um dos monumentos mais emblemáticos das Missões Jesuítica-Guarani, o sítio histórico de São Miguel Arcanjo onde se destacam a igreja e a cruz missioneira (confira reportagem em edição futura do DIÁRIO).
A fazenda São José tem, segundo José Dirceu, mais de 100 anos e foi iniciada por seu avô e seguirá com seu filho, que tem 12. “Se Deus permitir, seguirá para a quarta geração e será comandada por meu filho José de Almeida Dutra”, disse-me.

Gratidão ao pai
Dirceu me conta que seu pai partiu precocemente, aos 52 anos, mas que foi o grande responsável por tudo que eu via ali. A fazenda não fugia à regra e o plantio de soja cobria parte de sua terra vermelha. “Meu pai foi o homem mais experiente no campo que conheci, exímio laçador e pialador (pessoa que apanha com laço) a cavalo, capaz de contabilizar centenas de animais em rodeios com absoluta precisão. Dedicou-se à pecuária e, posteriormente, em 1973, passou a cultivar a agricultura, impulsionado pela soja, sem jamais abandonar suas raízes”, narra Dutra com emoção.
Após conhecer uma área especialmente preparada para o descanso e o lazer, chamada Paraíso, Dutra me apresenta seu Galpão Crioulo.

Herança, acervo, história
Dirceu trajava as vestimentas tradicionais.do gaúcho com botas, bombacha, chapéu, uma gravata encarnada no peito e possuía profundo conhecimento da vida campeira herdado de seu pai.
“De meu pai e de meu avô paterno, encontro a energia para dar continuidade a este legado que preservamos aqui. Desejo transmitir essa herança, que recebi deles, para as futuras gerações”, acentua.
O gaúcho está inteiro neste homem, revestido de uma espiritualidade sincera, encontrada, principalmente, aqui, no coração do Rio Grande do Sul.
Ele declama um poema retirado lá do fundo de seu acervo poético:
Inundado de recordações
Este galpão está inundado de lembranças afetivas do universo gaúcho, com recordações, fotografias, adornos e objetos relacionados ao trabalho no campo, à atividade agrícola e pecuária, e ao modo de vida do gaúcho no Rio Grande do Sul.


Objetos de uso cotidiano e simbólico
Dirceu Dutra mantém, em seu galpão crioulo, um acervo que reúne mais de 150 anos da história do Rio Grande do Sul. O espaço, segundo ele, foi construído para preservar a memória da família e da cultura rio-grandense. “Aqui é um galpão crioulo onde a gente preserva um século e meio a história do Estado”, afirma. No centro do ambiente está o fogo de chão, em torno do qual se organizam objetos de uso cotidiano e simbólico, como as chaleiras marcadas por três gerações: a do avô, a do pai e a dele próprio. Há também uma pintura feita pela mãe, em 2001, além de registros da vida rural, como a lembrança de um porco que rendeu 16 latas de banha.

Cooperativismo
O acervo inclui fotografias e referências históricas. Dutra aponta a imagem do padre Theodoro Amstad, idealizador do cooperativismo de crédito, e fotos de 1973 e de 1969, em que aparece ao lado do pai, ainda jovem, sobre um pequeno trator. Ao comentar o trabalho no campo, ele recorda a prática coletiva da época. “Naquele tempo o serviço era no mutirão”, diz. “Chegavam 24, 28 tratores para ajudar.” Para Dutra, o galpão funciona como registro material da história familiar e do modo de vida no campo gaúcho.
Visitar a fazenda São José, de José Dirceu Dutra, foi como ultrapassar o portal do mundo gaúcho e me integrar a esse povo e aos seus costumes. Conheci o profundo amor que essa gente tem por sua terra e troquei uma tempestade climática por uma cultural.
*O jornalista viajou a convite da Agência Caminho das Missões com o apoio da Pousada das Missões e Ritter Hotéis (Porto Alegre).
Serviço:
Agência Caminho das Missões
Fone: (55) 9978-2631
Email: caminho@caminhodasmissoes.com.br
Site: http://www.caminhodasmissoes.com.br




