A retomada do Rio Grande do Sul em busca de um lugar ao sol

por José Justo*


Desde março, quando a hotelaria começou a demitir em massa devido ao quase total
encerramento da atividade nos três meses que se seguiram ao soar do alarme da pandemia planetária, a atividade que era responsável por mais de 50 mil empregos, foi literalmente a nocaute e viveu mais de meio ano no limbo.

Novembro começou com cara de normalidade: estão pousando mais de 40 voos diários no
Aeroporto Salgado Filho, o Festival de Turismo de Gramado vai acontecer de forma real,
física, presencial e os empregos estão retornando na cadeia do acolhimento.

Na hotelaria, as sequelas estão sendo amenizadas (para os que sobreviveram) por dois
fenômenos: a conversão para não-hospedagem e a saída do mercado dos menos resistentes. Nas grandes cidades desapareceram alguns pequenos hotéis antigos e hotéis
tradicionais foram para três nichos distintos: seniorliving, coliving e office. Alguns hotéis ainda não reabriram suas portas, com a notação mais drástica para Porto Alegre, onde 22 de seus 88 endereços ainda estão com as portas lacradas, aguardando dias melhores. Os hotéis populares, aqueles de pernoite abaixo de 30 dólares, são os que estão com menos chance de operação financeiramente saudável.

No turismo, os três Destinos Turísticos do RS, Gramado, Canela e Bento Goncalves, estão
recebendo a maioria de seus visitantes oriundos de dentro do próprio estado

No turismo, os três Destinos Turísticos do RS, Gramado, Canela e Bento Goncalves, estão
recebendo a maioria de seus visitantes oriundos de dentro do próprio estado. Como,
historicamente, o turismo interno sempre foi o forte desta atividade econômica, o movimento ainda se apresenta encolhido em aproximadamente 40%, o que empata com a “bandeira pandêmica”, que limita a carga espacial de hotéis, restaurantes, atrativos e eventos.

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Com a chegada do calor e do sol abaixo do paralelo 28S, as praias passam a representar
um grande movimento de pessoas intra-regional: 5 milhões de mercosulenses se deslocam
pelo território gaúcho em direção à costa leste gaúcha, para períodos de férias e finais de
semana-prolongados. O idioma e os sotaques falados nas praias no período que vai da segunda metade de novembro até o período da páscoa, se reveza entre o “bagual” do
interior gaúcho e o castelhano “de espacito” dos portenhos.

Com isso, os postos de trabalho também ganham algum fôlego, com as recontratações
ocorrendo ainda de forma tímida, porem, já apresentando novas exigências em termos de
qualificação, postura e flexibilidade funcional. O Frontdesk ouviu 5 protagonistas que estão
retomando, juntos, pouco mais de 500 postos de trabalho dentro do RS.

Nunca mais será como antes:

A tecnologia, os processos e a flexibilização das regras, transformaram definitivamente os
indicadores de eficiência da hotelaria e isso aparece com mais ênfase na geração de emprego e nos processos gerenciais: deve surgir, após essa pandemia, um “Novo Hoteleiro”.

Algumas características desse profissional deve chamar a atenção:
– Sem carteira assinada
– Sem Horário fixo
– Sem local de trabalho único
– Com pelo menos dois contratos de trabalho e 10 funções diferentes.

E o hóspede com isso?

O Hóspede, esse “deus” milenar, que tudo tinha ao tempo e à hora, do seu jeito e sem
ressalvas, também rareia se não desaparecer: estará em nichos muito exclusivos, pois, terá de se adaptar às filas de espera nas recepções, aos processos, à frieza da tecnologia, aos protocolos e a ausência de seres humanos em carne-e-osso para lhe sorrir e genuflectir. Ele terá que se virar em sintonizar sua conta de dados para ouvir música, ver esportes, noticias e filmes nos monitores que vão substituir as TVs nos quartos e terá que pagar por cada acesso, através de sua assinatura do fornecedor destes dados, tipo Spotfy, Globo Play, Netflix, Fox Sports ou Amazon Prime. Terá que marcar hora na academia e abastecer seu frigobar no Zuper.

A hotelaria, assim como o turismo, os eventos e os meios de transportes, terá que ser mais
enxuta, eficiente e flexível.


*José Justo é jornalista editor do FrontDesk, boletim informativo com assuntos de interesse da Cadeia Produtiva do Turismo,

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José Justo
JOSÉ JUSTO estudou Engenharia Eletrônica na Universidade Mackenzie, Trabalhou na VARIG (empresa aérea-São Paulo/Rio). Desde 1986 se dedica a trabalhos no setor de turismo e hotelaria, dedicado a sistemas de gestão, produção de planos de negócios e desenvolvimento de destinos turísticos. Participou da implantação de mais de 40 hotéis, três redes hoteleiras, diversos atrativos naturais e artificiais, desenvolvimento de destinos turísticos e criação de eventos. Atualmente vive em Gramado (RS). É diretor de Planejamento Estratégico da Associação dos Hoteis do Rio Grande do Sul e edita o boletim técnico FRONTDESK, com notas e informações da cadeia produtiva do turismo.

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