Bienal de Veneza – Crônica de Osvaldo Alvarenga*

Li algumas críticas dizendo que não valia a pena. Quando perguntei ao artista, pareceu-me pouco entusiasmado. O publicitário veio e compartilhou fotos e reflexões inspiradoras. A Iêda e eu viemos em 2015, mas foi corrido. Combinamos de voltar em 2017, mas não cumprimos. Ainda assim a decisão estava tomada: viríamos à Veneza exclusivamente para a Bienal de Arte. Pena teria sido não ter vindo esse ano.

 

Veneza, toda a gente o sabe, é uma das cidades mais visitadas no mundo. São 118 ilhas. As ilhas ligadas por pontes. Os canais formam as ruas e avenidas onde circulam as famosas gôndolas, os vaporetos, as lanchas, algum iate e os navios de cruzeiro. Talvez você não saiba, vivem na cidade histórica apenas 55 mil pessoas e passam por aqui anualmente entre 25 e 30 milhões de turistas. Dois terços chegam em cruzeiros; circulam por aí umas tantas horas e partem.

 

Ver os navios passarem causa admiração. Numa pequena distância dos palácios históricos, atravessam condomínios flutuantes, às vezes com altura de prédios de quinze ou mais andares. A cidade sobre ilhas resiste num frágil equilíbrio, o deslocamento de água que esses grandalhões promovem é imenso. Impacta em tudo. Depois são as multidões dispersas sobre as pontes, em cada monumento, em cada praça, nos táxis lancha, aliás, belos barcos, que levam e trazem gente sem fim a custa de muito combustível. Andar nas principais vias é um exercício de paciência. E mais o lixo, e toneladas de garrafas pet deixadas para trás. Veneza é menos para os venezianos; transformou-se num parque de diversões para nós turistas. Cidade convertida em caricatura da cidade que foi um dia, agora cobra ingresso de quem entra.

Veneza é menos para os venezianos; transformou-se num parque de diversões para nós turistas

A Bienal de Arte de Veneza começou em 1895. Há quatro décadas deixou de lado os temas políticos. Voltou nesta década: May you live in interesting times é o título desta 58ª edição da Bienal que vai até 24 de novembro. A expressão inglesa faz alusão a uma maldição – li que chinesa, li que não. Diz-se do infortúnio de viver em tempos “interessantes” em contradição ao privilégio de viver em tempos “desinteresses”, quando há calmaria e prosperidade. É essa ironia que a Bienal quer retratar. Vivemos hoje tempos interessantes em que prevalecem a retórica sobre o fato, o radicalismo sobre o bom senso, a intolerância, a dicotomia e o paradoxo. Vivemos tempos em que as notícias falsas causam efeitos reais.

 

“Barca Nostra” é um barco naufragado na costa da Líbia em 2015. Nele 800 pessoas morreram ao fugir da guerra e da miséria (Crédito do Autor)

A exposição está dividida em duas áreas principais, Arsenale e Giardini. São 80 artistas com obras nas duas grandes áreas. O Arsenale é um antigo complexo de estaleiros do século XII. O Giardini, como o nome já o diz, um enorme parque onde foram montados vários pavilhões; remete a Inhotim. Por fim, há também obras espalhadas em exposições nacionais nos prédios, palacetes e igrejas em pontos diversos da cidade.

 

Pegamos dias de nevoeiro; comum em Veneza nessa época do ano. Mas o dia estava limpo quando chegamos ao Giardinii e, logo à entrada do pavilhão principal, o nevoeiro cobria o prédio e envolvia as pessoas. Verdadeiro ou falso? É obra da artista Lara Favaretto. Prédio adentro, num túnel muito branco, com lâmpadas fluorescentes muito fortes, a retina ressente e a vista falha. Logo depois, na sala totalmente escura, outra vez os olhos não veem. Bem-vindo à Bienal.

 

“For, in your tongue, I cannot fit” é a impressionante instalação da artista Shilpa Gupta. Nela 100 microfones suspensos sobre 100 poemas impressos em folhas brancas presas por estacas, preenchem uma sala a meia luz. São textos de poetas presos por perseguições políticas ao longo dos séculos. Também preenchem a sala os sons e a leitura de um poema transmitido no microfone acima da folha. Os demais microfones fazem coro ao primeiro, repetem partes ou palavras soltas do que está sendo recitado. Muda o poema, muda a língua, muda o microfone, mudam os sons.

 

Teresa Margolles trouxe duas obras impactantes: “Muro Ciudad Juaréz”, um muro com arame farpado, auto explicativo; e “La Búsqueda”, uma instalação com três painéis de vidro, neles fotos de mulheres vítimas do narcotráfico. De quando em quando os painéis vibram à passagem do trem pela Cuidad Juaréz. Sinto a miséria daquelas vidas.

 

Mari Katayama é uma garota atraente, que sofre de uma doença congênita. Amputou o pé esquerdo e metade da perna direita, também teve a mão direita transformada numa espécie de pinça, como a de um crustáceo. Faz roupas e adereços próprios, peças bonitas e extravagantes, bordados com conchinhas e pérolas. Faz luvas que reproduzem mãos e que reproduzem pinças e faz pernas de madeira e de tecido. Despida ou vestida desses acessórios posa para fotos; às vezes cruas, às vezes sensuais. Quem é ela, artista ou obra?

Despida ou vestida desses acessórios posa para fotos; às vezes cruas, às vezes sensuais. Quem é Mari, artista ou obra?

O Leão de Ouro para a melhor participação foi concedido a Arthur Jaga, pelo filme “The White Álbum”. Ele usa material de arquivo e clipes tirados da internet para falar de racismo. É forte.

 

“Escrito pela Água” é uma instalação de Marco Godinho: vários cadernos brancos, agora secos, retorcidos e amassados pela água, expostos numa rampa. Foram mergulhados no Mediterrâneo, desde Marselha à Lampedusa, por Gibraltar, Nápoles, Nice, Palermo e Tunísia. São as marcas das águas por onde passaram e morreram incontáveis refugiados. Quer evocar também a Odisseia de Homero. Gosto menos das explicações e mais do resultado estético. É bonita e sensível.

 

Os refugiados também estão em Veneza. Nas pontes ou nalguma viela estreita, de mãos estendidas, vivendo de trocados. “Barca Nostra” é um barco naufragado na costa da Líbia em 2015. Nele 800 pessoas morreram ao fugir da guerra e da miséria. Feito readymade pelo artista Christoph Buchel nos remete ao drama de cada um dos migrantes que cruzamos todos os dias, seja em Veneza, Lisboa ou São Paulo.

 

Aprisionado numa sala de acrílico, um braço mecânico puxa constantemente para perto de si um líquido vermelho (sangue?), que escorre não sei de onde (dele mesmo?). O robô tem programados mais de 30 movimentos, alguns sugerem expressões humanas. Tive a impressão de que, às vezes, aquela máquina pedia ajuda, ou reclamava a própria sorte, presa na caixa, coberta de sangue que insiste em escorrer. É a impressionante “I can’t help myself”, da dupla Sun Yuan e Peng Yu que está no Giardini.

 

A instalação “The Death of James Lee Byars”, de James Lee Byars e Zad Moultaka, exposta na Chiesa di Santa Maria della Visitazione, foi talvez a obra que mais me emocionou. Quando vi não entendi nada, mas minha ignorância não comprometeu meu contentamento ali naquela igreja. Fiquei parado à frente da grande câmara mortuária dourada ouvindo os sons (quase música) que vinham dos alto-falantes dispostos na nave e no altar. Li depois sobre a obra para conhecer sua história e perceber seu sentido. Gostei ainda mais.

Tive a impressão de que, às vezes, aquela máquina pedia ajuda, ou reclamava a própria sorte, presa na caixa, coberta de sangue que insiste em escorrer (Crédito do autor)

Vimos tantas coisas instigantes, eloquentes leituras desses tempos que vivemos, que eu poderia passar horas descrevendo obras e mais obras. E não vimos tudo. E foram tantos os filmes que vimos pequenos trechos. E propostas que não entendi. E outras tantas que percebi o sentido, mas não fui tocado. Certamente fui injusto ao escolher essas poucas obras que tentei descrever. Deixo para você um pouco do que gostaria compartilhar com as pessoas que gosto. São imagens nada conclusivas.

 

Uma Bienal sobre o caos numa cidade que vive no caos. Uma Bienal para reforçar a função social da arte. A mim importa mais a emoção e a estranheza que as obras causam e que sejam contraditórias, indefinidas, incômodas, provocativas e perturbadoras. Foram três dias intensos em Veneza. Será preciso tempo para decantar.

Sobre o articulista: 

Osvaldo Alvarenga, tem 54 anos, reside em Lisboa e escreve para os blogs: Flerte, sobre lugares e pessoas e Se conselho fosse bom…, sobre vida corporativa e carreira. Atuou por 25 anos no mercado de informações para marketing e risco de crédito, tendo sido presidente, diretor comercial e diretor de operações da Equifax do Brasil. Foi empresário, sócio das empresas mapaBRASIL, Braspop Corretora e Motirô e co-realizador do DMC Latam – Data Management Conference. Foi diretor da DAMA do Brasil e do Instituto Brasileiro de Database Marketing – IDBM e conselheiro da Associação Brasileira de Marketing Direto – ABEMD, dos Doutores da Alegria e, na Fecomercio SP, membro do Conselho de Criatividade e Inovação.

Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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