Centennials pouco se adaptarão ao ‘turismo commodity’ na pós-pandemia, afirma Carla Ricchetti

A sustentabilidade na indústria do turismo e das viagens ganhou corpo e massa cerebral nos últimos anos – embora a pandemia tenha tirado um pouco o foco. Ainda assim, as notícias sobre a mudança climática e os impactos ambientais e sociais dos produtos e serviços da indústria turística têm incomodado pessoas com um senso ético mais profundo, ou no mínimo mais aguçado.

REDAÇÃO DO DIÁRIO


Pesquisas apontam que principalmente a nova geração de viajantes, como os Millennials – que serão o maior grupo de viajantes corporativos a partir de 2024 -, e os Centennials”  serão consumidores mais responsáveis e cientes dos impactos ambientais e sociais dos produtos e serviços que consomem. “São consumidores motivados por um senso ético mais profundo – isso cria e criará um novo sistema de valor para marcas em geral e com certeza para hotéis, restaurantes e o turismo”, afirma Carla Ricchetti official de Investimentos da International Finance Corporation (IFC), em entrevista exclusiva ao DIÁRIO DO TURISMO.

Segundo ela, esses novos consumidores buscam (e buscarão) cada vez mais hotéis e restaurantes (marcas) que têm uma visão (plano estratégico) claros sobre redução de emissão de carbono (descarbonização da economia e das empresas privadas) e impacto social na comunidade e no planeta. Esse e outros assuntos foram abordados por ela na entrevista concedida ao jornalista Paulo Atzingen, editor do DT, confira:

DIÁRIO – Uma boa parte das novas gerações têm se espelhado nas ações preservacionistas da sueca Greta Thunberg. Carla, você poderia descrever o perfil dessa juventude? 

Sim, a sueca Greta Thunberg tem sido uma jovem líder que vem influenciando pessoas de todas as idades no mundo em temas relacionados à mudança climática no planeta.

Nesse sentido, respondendo a sua pergunta, essa nova juventude vem trazendo várias características interessantes e diferenciadas. 

Em primeiro lugar temos consumidores mais responsáveis e cientes dos impactos ambientais e sociais dos produtos e serviços que consomem, querem entender o que está por trás dos produtos ou serviços.

Em segundo lugar temos consumidores motivados por um senso ético mais profundo que acaba criando um novo sistema de valor para marcas e, com certeza, para hotéis, restaurantes e turismo em geral.

 Outro perfil importante desses consumidores é que eles buscam cada vez mais hotéis e restaurantes (marcas) que tenham uma visão (plano estratégico) claros sobre redução de emissão de carbono (o que chamamos de descarbonização da economia e das empresas privadas), bem como o seu impacto social na comunidade/planeta.

E por último, são consumidores que querem passar a contribuir (não só desfrutar) dentro da experiência turística. Querem aprender, revitalizar espaços, participar de projetos de caridade, engajamento com comunidades, por exemplo. Esses novos comportamentos deverão redesenhar o conceito de turismo e experiências de turismo daqui para frente.

DIÁRIO – Ao considerarmos que a revolução digital ainda está em processo (como por exemplo a Internet das Coisas) o que podemos aguardar em termos de serviços e equipamentos para hotelaria , viagens, eventos que devem revolucionar a vida nos próximos 20 anos?

Importante ressaltar que estamos presenciando uma grande convergência tecnológica – muitas tecnologias de ponta como computação quântica, inteligência artificial, banda 5G, biotecnologia e nanotecnologia estão amadurecendo ao mesmo tempo. Esse amadurecimento simultâneo vai desencadear uma grande onda de avanços em vários setores. Um grande salto de inovação. Especialmente a Inteligência Artificial vai transformar a forma como consumidores se relacionam com produtos, serviços e pessoas. Já estamos sentindo essas mudanças, mas esse processo vai se intensificar. 

Em termos de serviços e equipamentos para hotelaria , viagens e eventos, os novos consumidores são muito “tech savvy” e esperam que a tecnologia traga independência, rapidez e, principalmente, personalização. E aqui estou falando de personalização (alimentos, entretenimento, quartos de hotéis, atividades de turismo). A Tecnologia está contribuindo para um compreendimento mais detalhado sobre do hóspede/clientes e tentando desenvolver produtos ou serviços mais focados (idade, gênero, preferências pessoais, etc). 

 DIÁRIO – Dê exemplos práticos de algumas tendências…. 

Já é possível notar check-ins sendo realizados por meio de aplicativos com reconhecimento facial ou mesmo pela autenticação de identidades. Tem-se também a abertura da porta dos quartos permitida por celular, painéis de controle para ar condicionado e televisão sendo ativados por comando de voz ou ainda robôs circulando para esterilizar ambientes e ajudar nos serviços de quarto. Em restaurantes, mudanças para cardápios virtuais já são possíveis com acesso dos clientes por meio de QR codes, isso sem falar nas modalidades de pagamento online e no uso de inteligência artificial para otimizar a cadeia de fornecedores e aplicativos de entregas. Essas tecnologias não são temporárias, vieram para ficar já que proporcionam agilidade operacional e redução de custos. Além disso, Realidade Virtual e Hologramas trarão maior democratização do turismo para grupos que não tem oportunidade financeira ou mobilidade para viajar.

Todo esse futuro está mais próximo do que pensamos. Muitos desses exemplos já ocorrem, e deverão se amplificar nas próximas décadas.

Empresas em todos os setores estão percebendo a importância da sustentabilidade vis a vis ao riscos de mudança climática que estamos vivenciando no nosso planeta (Crédito: Getty Images)

DIÁRIO – É  possível uma empresa, uma organização privada  nos moldes econômicos atuais ser sustentável e competitiva ao mesmo tempo? 

 Sim, foi-se o tempo onde empresas gastavam mais para serem sustentáveis. Ou usavam a sustentabilidade como marketing em alguns nichos. Hoje o custo de muitas tecnologias limpas baixaram consideravelmente, energia renovável (como solar e eólica) está disponível competitivamente, fora isso, eficiência energética e materiais mais sustentáveis se tornaram uma realidade. 

A mentalidade de que cada um está tentando contribuir com sua parte foi abraçada por consumidores, investidores e líderes de setores. Empresas em todos os setores estão percebendo a importância da sustentabilidade vis-à-vis ao riscos de mudança climática que estamos vivenciando no nosso planeta. Esse processo deverá, sem dúvida, se intensificar daqui para frente.

Quem são os Centennials? É conhecido como Centennials para o setor de mercado, os jovens nascidos entre 1995 e 2010; cujas principais características são seus hábitos de consumo, seu comportamento social e digital, bem como suas filosofias e comportamento.

DIÁRIO – O modelo de turismo defendido pela OMT e pela maioria dos governos ocidentais transforma as viagens em mercadorias, os destinos em objetos de consumo, e até os viajantes em meros  commodities.  Os Centennials conseguirão driblar isso? 

Eu acho que nessa nova era da informação e da inteligência artificial e, especialmente depois dessa experiência de confinamento em razão da Covid-19, muitas coisas vão mudar. Consumidores vão demandar viagens mais personalizadas, vão querer produtos e serviços (hotéis e restaurantes) que permitam maior conexão entre as pessoas, consumidores vão querer contribuir (não só desfrutar) – essa nova geração busca esse novo senso de comunidade e contribuição quando visitam hotéis ou experimentam novos restaurantes. Hotéis, restaurantes e experiências turísticas são pontos para conexão (novas amizades, namoros, networking ou mesmo projetos em comum). Eu acho que parte desse modelo “turismo commodity” que prevaleceu antes da Crise Covid-19 vai dar espaço para muitas novas oportunidades dentro de um novo conceito de ressignificar a experiência do turismo e de adaptação a novos consumidores de demandas mais específicas.


Carla Ricchetti é official de Investimentos da International Finance Corporation (IFC). Além disso, trabalha com tecnologias limpas, energia renovável e tecnologias disruptivas há 14 anos, e já viajou para mais de 95 países; compartilha suas experiências através do perfil de viagens Room & Spoon, no Instagram, que destaca hotéis e restaurantes que prezam por sustentabilidade e tecnologia*.

*Os pontos de vista de Carla Ricchetti não refletem, necessariamente, os pontos de vista da organização a que ela pertence

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6 COMENTÁRIOS

  1. Considerar que Greta Thunberg lidera algo mais do que o próprio marketing ideológico é no mínimo ridículo. Fico feliz que a Carla tenha citado a Greta na primeira frase, da primeira resposta, assim não precisei perder o meu tempo lendo a matéria inteira.

    • Mário, não foi isso que a pergunta expressou, veja: “Uma boa parte das novas gerações têm se espelhado nas ações preservacionistas da sueca Greta Thunberg. Carla, você poderia descrever o perfil dessa juventude?
      E a resposta de Carla não contestou nem acentuou conotação ideológica, veja.
      Sim, a sueca Greta Thunberg tem sido uma jovem líder que vem influenciando pessoas de todas as idades no mundo em temas relacionados à mudança climática no planeta. Obrigado pela participação, Mario.

  2. Acho que o Diario de Turismo perdeu a oportunidade de fazer um bom debate entre ela e um executivo do segmento de agencias de viagens , para discutirem o sucateamento deste segmento , pelo comportamento predador de fornecedores tais como Locadoras de Carros , Cias Aereas , O.T.A.S etc com seus sites voltados para o conceito ” viagem a um click ” o que oóvio não traduz o significado do que é viajar e que tem como estratégia clara para o consumidor , o conceito: aqui ( comprando direto ) você compra mais barato ! Ledo engano

  3. Excelente entrevista, Paulo! Muitíssimo obrigado pelo espaço com a Carla! Estamos à disposição para falar sobre outros temas do setor também!

    Grato,
    Luiz Vieira, assessor de imprensa da executiva Carla Ricchetti.

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