Contágio Bastardo – Crônica de Osvaldo Alvarenga*

Um mês depois do primeiro diagnóstico de COVID-19, Portugal entrou na fase de mitigação. É o nível de alerta mais alto, avisou a Senhora Ministra da Saúde. Isso quer dizer que o contágio passou a ser comunitário; quando as cadeias de transmissão são diversas e já não é possível rastrear a origem. Alguém chamou de “contágio bastardo”. Achei bonito. O que isso muda a nossa vida? A dos profissionais de saúde muda muito, é o início da subida para o pico de contágio, quando mais e mais pessoas irão buscar cuidados nos hospitais. Para nós, heróis na resiliência, não muda nada. Resistiremos em casa. Logo essa onda passa e a vida voltará ao normal. Ou quase.

Um normal diferente. Li que será, talvez, um mundo novo na forma como trabalhamos, como aprendemos e como ocupamos o nosso tempo livre. Provavelmente assistiremos ao crescimento rápido do trabalho em casa, das aulas virtuais, das live streaming; a propagação de plataformas de difusão de conhecimento à distância, o uso mais frequente dos assistentes virtuais e das redes sociais; e, interagindo cada vez mais num emaranhado tecnológico que mistura gente e algoritmos, mudaremos também os nossos hábitos de compras, ampliando o consumo on-line. Dizem, mais isolados e com menos deslocamentos, vamos usar o tempo livre para cuidar da nossa saúde mental, para desenvolver novas habilidades, para investir no que nos dá prazer, em hobbies, para descobrir o que gostamos de fazer em casa; e mais ainda: é possível que mudemos os nossos hábitos de higiene pessoal e que tenhamos mais atenção ao asseio dos espaços públicos. São tendências segundo o que andei lendo por aí.

Ameaçados por um mal que sequer podemos ver, obrigados a nos isolar de todos sem saber ao certo por quanto tempo, é natural que pensemos sobre as nossas vulnerabilidades. Estamos mais angustiados, as incertezas são ainda maiores: sobre a nossa condição, a economia, o meio-ambiente, a política. Escaparemos ilesos dessa crise? Preocupa-nos a saúde; a nossa e a das pessoas que amamos. Preocupa-nos o bolso. Preocupa-nos se estamos seguros. Sentimo-nos frágeis e impotentes. Numa crise assim, somos reféns do julgamento das autoridades, dos políticos e, apesar do pouco ou nada que podemos fazer para interferir, as decisões que eles tomam agora, assim de supetão, nessa emergência que estamos todos, moldarão as nossas vidas daqui para a frente. Florescem as mais variadas e exóticas teorias. Nalguns países avançam as soluções que ofendem a liberdade e invadem a privacidade dos cidadãos. Questões éticas estão em jogo. Diante de tão intempestiva crise, nos resta confiar naqueles que nos governam e esperar que estejam preparados, bem assessorados e saibam fazer as melhores escolhas possíveis com tão pouca informação e em tão curto tempo. Não estou seguro quanto a isso. Não estou tranquilo, confesso.

Estamos mais angustiados, as incertezas são ainda maiores: sobre a nossa condição, a economia, o meio-ambiente, a política.

A Iêda e eu voluntariamente entramos em quarentena antes do país. Estamos há mais de trinta dias em confinamento; com duas saídas para o supermercado e duas exclusivas para deitar fora o lixo nos contentores – ficam a 300 metros de casa. Não estamos doente, não se preocupe. Nem, ao que saibamos, fomos infectados. Não fazemos ideia por quanto tempo ainda vamos ficar isolados em casa. Se olho para trás, não foi tão difícil assim. Tenho boa companhia. Os dias correm tranquilos. Leio sobre a evolução do Coronavírus pelo mundo, as consequências para a economia e, no Brasil, o desassossego ainda maior com quem vive nas comunidades carentes. Cozinho com um prazer diferente, uma atenção maior. Às vezes meditamos e, reclusos dentro do apartamento, estamos totalmente sedentários. Youtube, Netflix e HBO adiam o nosso sono. Dormimos e acordamos tarde. Estudo e escrevo alguma coisa; a Iêda escreve e produz muito mais. Com o tempo, mais pessoas entraram em confinamento – aqui e no Brasil –, os grupos de Whatsapp estão mais ativos e as conferences calls mais frequentes. Incrementamos o contato com os amigos e familiares. Os dias passam devagar.

É início de primavera. Toda a natureza renasce, há brotos e devem haver flores por toda a cidade, nos parques, nos jardins e nas beiras das estradas, flor de laranja, as margaridas, as bougainvilleas, as tulipas, as hortênsias… Logo, não demoram, vêm as andorinhas. Essas eu verei da minha janela. Em tempos como este em que vivemos, é natural que as pessoas – todos nós – busquem relações verdadeiras, reencontrem prazer nos eventos cotidianos e valorizem as coisas simples ao seu entorno. Hoje, um dia de sol de primavera, eu queria mesmo é poder andar por aí vendo e cheirando flores.


*Osvaldo reside em Lisboa e escreve para os blogs: Flerte, sobre lugares e pessoas e Se conselho fosse bom…, sobre vida corporativa e carreira. Atuou por 25 anos no mercado de informações para marketing e risco de crédito, tendo sido presidente, diretor comercial e diretor de operações da Equifax do Brasil. Foi empresário, sócio das empresas mapaBRASIL, Braspop Corretora e Motirô e co-realizador do DMC Latam – Data Management Conference. Foi diretor da DAMA do Brasil e do Instituto Brasileiro de Database Marketing – IDBM e conselheiro da Associação Brasileira de Marketing Direto – ABEMD, dos Doutores da Alegria e, na Fecomercio SP, membro do Conselho de Criatividade e Inovação.

 

Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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