Dark Tourism – crônica de Osvaldo Alvarenga*

Há, descobri ontem, a indústria do turismo sombrio ou macabro. São viagens programadas para lugares onde aconteceram grandes tragédias e mortes: Auschwitz, Chernobyl, Sarajevo, os túneis de Củ Chi, nos arredores de Ho Chi Minh, e por aí vai.

O gosto por conhecer lugares sombrios não é novo e geralmente está associado a fatos históricos e culturais de interesse geral, mas ganhou relevância, parece, depois que a Netflix lançou, em 2018, a série Dark Tourist. Não vi nenhum episódio, li, e agora vendo como comprei: a série documenta as visitas do protagonista, um jornalista neozelandês, a vários lugares bizarros mundo afora. Não é o tipo de programa que eu gosto. Não tenho essa curiosidade. Mas cada um é como é. A série fez sucesso e, agora, muitas pessoas saem por aí à procura de lugares sombrios.
A Iêda e eu gostamos de viajar. Nunca buscamos esse tipo de atração, mas às vezes é inevitável. Há poucos dias contei aqui o que sentimos na visita que fizemos ao Memorial aos Defensores de Dubrovnik na Guerra da Pátria (dos Bálcãs para nós). Aconteceu de entrarmos e vermos aquela homenagem que nos tocou profundamente. Há pouco menos de um ano, em Ho Chi Minh, fomos ao Museu de Memória da Guerra (do Vietnã). A cidade não oferece tantas atrações turísticas assim para preencher os três dias inteiros que passamos por lá. Sobrou tempo. Depois de perambular bastante, conhecer prédios históricos, o centro e o mercado antigo, o centro financeiro e seus prédios modernos, andar até à margem do rio Saigon, passear pelas ruas cheias de lojas de grife, nos parques, visitar algum templo e desviar das motos – não passou pela cabeça ir aos túneis vietcongues –, fomos aos museus: um dedicado às mulheres e o outro à história da guerra, contada segundo a ótica dos vietnamitas.

Tantas vezes, ao deixar esses lugares, me dá um desânimo tão grande que prefiro não ter que sair em seguida vendo isso e aquilo

Nesses tempos em que a história contada nos livros tem recebido tantas críticas, em que derrotados, colonizados e minorias requerem o direito às próprias vozes, reivindicam narrativas alternativas e mais luz sobre outros pontos de vista – reclamam, no mínimo, por um bocado de empatia –, foi bom ter ido ao museu. É um lugar simples: algumas fotos, alguns recortes de jornais, cartazes e textos separados por salas temáticas para contar o que foi, na visão do povo do Vietnã, aquela guerra. São relatos tristes, falam de atrocidades e covardia, uma vergonha. Coisa absurda, aconteceu ontem. Tantas vezes, ao deixar esses lugares, me dá um desânimo tão grande que prefiro não ter que sair em seguida vendo isso e aquilo. A vontade é de ficar quieto, absorver um pouco do que vi, para depois seguir. Por isso, muitas vezes, evito ir. Prefiro assim para não estragar o passeio de quem está comigo.

Cemitério da Consolação, em São Paulo (Crédito: arquivo pessoal)

Acontece com alguma frequência de, ao final, passado o tempo necessário, eu gostar da experiência. Lembro que em Berlim, o Memorial do Holocausto, aconteceu assim também. A Iêda e eu, estávamos passeando, sabíamos que alguma hora teríamos que ir lá, calhou de ser naquele momento. Coisa impressionante. Aqueles blocos de concreto cinza escuro; blocos quase pretos, sóbrios e frios. Remetem a um cemitério impessoal, a túmulos sem nomes esculpidos na pedra, às vezes baixos, outras vezes muito altos. Andar entre eles gera aflição e desconforto. Depois, embaixo, o salão com a documentação de tantos crimes… Da mesma forma, o Memorial ao 11 de Setembro, às vítimas do World Trade Center, em Nova York. Outra vez o concreto frio e negro nas bordas de uma cascata que segue para um poço sem fundo; água que esvai, esvai sem fim. Esvai em silêncio. Lá estão os nomes das vítimas gravados no bronze, nomes sem ordem. Fiquei ali debruçado olhando a água sumir. Não fosse o frio, acho que estaria lá até agora. Mas é preciso ir, e eu vou. Cabisbaixo. Então, esses memoriais não são lugares que eu procure, mas quando vou, às vezes, deixam marcas para sempre.
Suponho que os cemitérios, a maior parte deles pelo menos, entrem na classificação de lugares sombrios. Nesse roteiro que improviso agora, assim de cabeça, entrariam pelo menos dois: o da Recoleta em Buenos Aires e o seu equivalente paulista: o da Consolação. Ambos em bairros nobres, com mausoléus suntuosos, morada final de personalidades e aristocratas, com uns tantos túmulos criados por artistas, um cado de mórbida ostentação, mas sobretudo história. No outro extremo, lembro especialmente de um singelo cemitério que, quase por acaso, encontrei em Istambul. Fiquei tão emocionado. Aquelas sepulturas – não eram tantas, todas simples – com lápides cilíndricas, como os chapéus de lã que os monges Sufi, chamados dervixes, usam na cerimônia do sema. Você já deve ter visto, é aquela cerimônia em que um grupo de homens giram, giram e giram, ao som de uma música própria, vestidos com esse longo chapéu, uma espécie de saia e outros mais detalhes. Há um sentido místico em tudo que vestem e fazem nessa cerimônia. Voltando ao cemitério, ainda estava ali admirando o lugar quando apareceu um senhor para nos tocar de lá. Foi mesmo assim.

Suponho que os cemitérios, a maior parte deles pelo menos, entrem na classificação de lugares sombrios

Não procurava o cemitério e sim o templo Sufi que sabia ficar por ali. Havia lido anotações do Gurdjieff, um guru cuja filosofia me seduz, que costumava hospedar-se no Pera Palace Hotel, que ainda está lá, hoje decadente, quando visitava a cidade; Constantinopla no tempo dele. Como o hotel ficava próximo ao ashram Sufi em Taksim, o bairro, concluí que estava no lugar certo (esse hotel ganhou fama anos depois por ter hospedado a Agatha Christie. Por isso é fácil encontrá-lo. Está em qualquer mapa).
Havia à época, coisa de quinze anos atrás, não sei se ainda é assim, um dia no mês em que o sema era aberto aos leigos; geralmente estrangeiros, mesmo assim pouca gente. Eles não faziam questão de divulgar. O templo era pouco conhecido e não constava em guia algum. Lembro que andamos a perguntar, pouca gente falava inglês, procurávamos os vendedores das lojas de souvenirs na região; eles falavam inglês, talvez pudessem indicar o lugar. Mesmo nas lojas que vendiam badulaques com mote Sufi, imagens de dervixes e coisas assim, não sabiam nos informar. Foi andando pelo bairro, sorrateiros entre portões abertos, ou quase abertos, que vimos o cemitério, até sermos chispados de lá. Sorte que, a pessoa que nos expulsou, era um dervixe. Sem falar inglês, ele percebeu o nosso interesse, deu-nos então um prospecto com informações em inglês de todas as atividades abertas do ashram e o horário do sema. Seria naquele mesmo dia no início da noite. Voltamos na hora marcada. Que emoção.

Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires (Crédito: arquivo DT)

Vejo os ditos lugares sombrios, tornados pontos turísticos ou não, como espaços de reflexão e vínculos. Combina pouco, na verdade combina nada, com selfies e exibições para as redes sociais, com barulho e agitação. Não me importo que instituições religiosas e de estados promovam e cobrem ingressos de quem quer conhecer os rituais, a cultura e mesmo o que há de mais soturno nas suas histórias – muitas vezes faz parte do que os identificam como nação. É, suponho, para a preservar o patrimônio e a memória. E o fato de pagar para entrar nesses espaços, não os tornam menos sagrados para quem professa aquela fé ou é menos penoso para aqueles que viveram, vivem ainda, aqueles dramas. Quando vou por aí, em visitas a templos, cemitérios e monumentos, por educação, ética e em consideração ao outro, procuro demonstrar um mínimo de respeito e algum decoro.
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Sobre o articulista: 

Osvaldo Alvarenga, tem 54 anos, reside em Lisboa e escreve para os blogs: Flerte, sobre lugares e pessoas e Se conselho fosse bom…, sobre vida corporativa e carreira. Atuou por 25 anos no mercado de informações para marketing e risco de crédito, tendo sido presidente, diretor comercial e diretor de operações da Equifax do Brasil. Foi empresário, sócio das empresas mapaBRASIL, Braspop Corretora e Motirô e co-realizador do DMC Latam – Data Management Conference. Foi diretor da DAMA do Brasil e do Instituto Brasileiro de Database Marketing – IDBM e conselheiro da Associação Brasileira de Marketing Direto – ABEMD, dos Doutores da Alegria e, na Fecomercio SP, membro do Conselho de Criatividade e Inovação.

 

Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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