Digressões sobre o Champagne e o monopólio do nome

Em fevereiro de 2011 uma matéria no Diário del Vino do México informava ter sido em Limoux no Languedoc-Rousillon, sul da França, o nascimento do PRIMEIRO espumante produzido naquele país.

Por Werner Schumacher*


Perto de CEM anos antes, Don Perignon, em 1531, com as MONJAS beneditinas da Abadía de Saint Hilaire, elaboravam um espumante denominado Blanquette de Limoux, com a uva Mauzac. À época, não dei muita importância, mas ficou registrado.

Agora, procurando aprimorar meus conhecimentos sobre champagne e, ao mesmo tempo, entender a importância das indicações geográficas, deparei-me com as seguintes informações:

Confirma-se que o Blanquette de Limoux, da abadia de Saint Hilare, perto de Carcassonne, ao sul da França, é o mais antigo vinho espumante registrado, datado de 1531. Há também provas documentais de que o champagne foi intencionalmente produzido por um inglês, Christopher Merrett, antes de 1662. O povo de Limoux afirma que Don Perignon passou por lá antes de ir para Champagne!

O Blanquette de Limoux, da abadia de Saint Hilare, perto de Carcassonne (foto), no sul da França, é o mais antigo vinho espumante registrado, datado de 1531

Termo latino

Pode-se ainda argumentar que o francês não deveria ter o monopólio do uso da palavra champagne em primeiro lugar. A palavra deriva do latim “campania”, vejam bem, que significa PAÍS ABERTO. O termo latino é também a fonte da palavra inglesa campanha, aí já não sei se é a (campanha) eleitoral ou a nossa (campanha) gaúcha da fronteira oeste.

Um autor, mais alterado, afirma que o próprio nome champagne foi ROUBADO da Campania de origem latina, e se a denominação fosse submetida a um minucioso escrutínio internacional, os franceses podem muito bem estar defendendo um argumento de que a palavra, em última análise, pertence aos italianos.

De fato, Campania é uma grande região do sul da Itália, da qual Nápoles é a capital, onde o vinho era cultivado pelos colonos gregos já no século VII a.C. e onde a vinicultura experimentou um ressurgimento moderno.

O costume de cultivar e fermentar as uvas em Champagne veio dos romanos.

Há também uma cidade de Campania, no Vale do Rio Carvão da Tasmânia, localizada no centro de uma das principais regiões produtoras de vinho da Tasmânia.

Uma pequena vila, chamada de Champagne no Cantão de Vaud (foto), na Suíça, onde desde 1657 é feito um vinho que ainda leva esse nome

Champagne no Cantão de Vaud

Mas os franceses estão em luta com uma pequena vila, chamada de Champagne no Cantão de Vaud, na Suíça, onde desde 1657 é feito um vinho que ainda leva esse nome. Esta pequena aldeia, ao norte do Lago Neuchâtel, tem sido chamada de Champagne desde 885 a/C.

Um exemplo real desse argumento/LUTA é a disputa em curso entre Champagne e seu homônimo da aldeia suíça. Nos últimos 20 anos ou mais, estão envolvidos em uma intensa disputa com o Comitê Interprofessionnel du Vin de Champagne (CIVC), a organização comercial estatutária da indústria francesa do champagne.

A disputa dizia respeito a dois tipos de produtos que originalmente eram comercializados sob a marca Champagne. A primeira categoria de produtos era uma série de biscoitos doces e salgados fabricados pela padaria Cornu, que depois de uma longa série de batalhas judiciais, em 2011 as partes chegaram a um acordo. O fabricante dos biscoitos não mais usaria champanhe como marca, mas seria permitido usar o nome na descrição da origem do produto.

Como um consumidor poderia ser enganado ou confundido entre um biscoito suíço e um espumante francês?

Como um consumidor poderia ser enganado ou confundido entre um biscoito suíço e um espumante francês?

Permanece inexplicável. No Brasil, creio que ainda seguem chamando o biscoito como champagmne, mas o guaraná da Antarctica deixou de ser champagne, creio.

Devemos lembrar que a vinícola Peterlongo é uma das que podem continuar a usar a denominação Champanhe.

De acordo com outro autor, a aplicação da AOC (Appellation d’Origine Contrôlée) pelo CIVC (Comitê Interprofissional do Vinho de Champanhe), neste caso, é uma impressão de sangramento por parte dos franceses.

O segundo produto que foi objeto da disputa é um vinho tranquilo feito na aldeia suíça desde 1657 e é comercializado sob o rótulo vin de Champagne. Está no centro de uma disputa contínua com o seu mais famoso homônimo francês.

O nome Champagne culmina no intenso orgulho e senso de identidade cultural dentro da região de Champagne

A rica história do champagne e da região de Champagne, com importantes avanços na produção do que um dia foi chamado de vinho do diabo (le vin du diable), culmina no intenso orgulho e senso de identidade cultural dentro da região de Champagne.

Orgulho francês! Exagero?


*Werner Schumacher estudou Economia na PUC/RS e é um dos responsáveis pela profissionalização da vitivinicultura no Brasil.

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