Esta é a Pedra Amarela. Espanhola por estar na margem de lá, portuguesa por serem portugueses os olhos que a vêem com maior proveito. (José Saramago)
O outono trouxe alguma chuva e uma brisa que anuncia o fim do verão. Na semana passada, estávamos no norte, foi bem diferente. Privilégio nosso que pudemos, por seis dias, tirar férias de casa para conhecer, na companhia de amigos, o Alto Douro e Trás-os-Montes. É um Portugal rural. Entre montanhas e desfiladeiros, tantos rios, ribeiros e regatos; nos planaltos, outeiros e vales, o cultivo é diverso: ora tudo é verde; ora é dourado; ora é terroso; ora verde, dourado ou terroso com manchas verde-oliva. Passo devagar, admiro o pasto e as vacas, cabras e ovelhas. Do alto, ao longe, vejo as aldeias: Moimenta, França, Montesinho, Aveleda, Varge, Rio de Onor, Gimonde, Babe, Caravela, Milhão, Mazouco… espalhadas a esmo. Nasceram com o vento.

As casas são menos brancas. A maioria de granito ou xisto; e tantas abandonadas. Ao caminhar por estradas dessas aldeias, o silêncio – quebrado às vezes por um sino de igreja, um chocalho, um mugido ou pelo vento – amplifica o som do passo sobre o cascalho. Meus sentidos estão no que vem de fora: em perceber o calor que as paredes de pedra dissipam, o frescor à sombra de uma figueira e o perfume que exala das suas folhas. Olho encantado tanta fruta: figos, maçãs, uvas, peras, amoras, framboesas; disfruto delas. Como-as no pé, furto-as na cerca. Seu João viu, podia, mas não zangou-se. Escolheu ele os melhores cachos de uva para oferecer-nos. Enquanto caminho, observo carregados os pés de marmelo e caquis. Carregados também os castanheiros, as oliveiras, as aveleiras, as nogueiras e as amendoeiras, presentes em toda a paisagem. Dão como mato. Ainda é cedo, são frutos que amadurecem ao longo do outono. Protejo-me do sol forte sob um carvalho. Se calhar, D. Nuno Álvares refrescou-se à sombra deste aqui também. Difícil imaginar a idade destas matas. As árvores que eu vejo são centenárias. Um pouco mais, um pouco menos, são da idade daqueles castelos.

Castelos muitos. Bem e malcuidados. A torre de mensagem do castelo de Chaves está preservada, da praça de armas resta bastante e há troços da muralha. Aventuramo-nos por trilha de terra para chegar ao Castelo de Monforte: fechado. Não está em ruínas, não está preservado. O de Bragança, sim, está bonito. Fechada a torre de mensagem quando chegamos, percorremos toda a muralha; andamos pela cidadela, entre o casario, até o pelourinho, a igreja de Santa Maria e o Domus Municipalis. Antes, porém, cruzado Rio de Onor, meia hora Espanha adentro, em Puebla de Sanabria, vila medieval alçada para a defesa de Leão, o castelo e o casco histórico estão impecáveis. De volta a Portugal, em Vinhais, a insensatez: a cidadela dentro do que restou das muralhas do castelo em ruínas, já muito descaracterizada, continua a receber novas construções. Também em ruínas o castelo de Miranda do Douro onde, bem diferente desse último, vimos escavações, pesquisa e restauração. A vila, terra do mirandês, a segunda língua de Portugal, baluarte na defesa do reino, mais modesta que a sua congênere espanhola, está bastante preservada. Atrás da Antiga Sé, do início do séc. XVII, o Douro metido entre espigões, e, na outra margem, a Pedra Amarela.
Para contemplar o rio, que ainda rasga a montanha e forma desfiladeiros de até 800 metros, e separa os dois países, por isso Douro Internacional, desde São João das Arribas, um pouco acima de Miranda do Douro, até Penedo Durão, abaixo de Freixo de Espada à Cinta, há uma dúzia de miradouros. Para percorrê-los todos, com pressa, são necessários dois dias. No Miradouro de Picões, depois de Peredo da Bemposta, foi preciso deixar o carro e caminhar uns 500 metros entre olivais e vinhas; crescidos na areia. No caminho, videiras velhas, abandonadas, e oliveiras de mil anos – posso apostar! O prazer de andar por esta encosta é tão intenso quanto o de sentar-me na pedra e admirar o rio, as suas paredes e o horizonte, acima das serras, todo em terras de Espanha. Aves de rapina pairam soberanas ao vento, sob o céu azul, e tomam a minha atenção.

Depois do último miradouro, de volta a Lisboa, o prazer da viagem não é menor. Do Penedo Durão, saímos por uma estrada estreita, íngreme e sinuosa, em direção a Poiares. A vista é de tirar o fôlego. Depois, já na N221, próximo à Barca de Alva, deixamos a divisa com a Espanha. O Douro, agora todo português, segue para oeste, para Foz Côa e Peso da Régua, no Alto Douro Vinhateiro, Patrimônio da Humanidade, onde é ainda mais bonito. Nós seguimos para o sul, sem paradas, por Castelo Rodrigo, Guarda e Santarém, até chegar em casa. Aqui, de olho no Tejo, divido com você as lembranças de um outro rio, numa outra terra, que também é Portugal.