Paulo Angeli, Secretário de Turismo de Foz do Iguaçu: “Eu quero deixar um legado ao turismo”

“Ninguém esperava uma pandemia dessa. Nunca passou pela cabeça de nossa geração que passaríamos por isso com toda a tecnologia que envolve a saúde pública”

POR ZAQUEU RODIGUES (Colaboração Especial)


 

Destino turístico consagrado pelas Cataratas do Iguaçu e pelo pujante comércio do Paraguai, a cidade de Foz do Iguaçu (PR) vem se preparando nos últimos anos para dar um salto em sua capacidade de visitantes. Obras de infraestrutura para melhorar os deslocamentos rodoviário e aéreo, demandas antigas do trade local, abriram os horizontes  nos últimos anos para o setor que sustenta 52% do PIB de Foz do Iguaçu.

A expectativa, porém, foi reconfigurada pela pandemia. Hoje, o turismo local opera com capacidade reduzida. “Os atrativos e a hotelaria estão funcionando com 50% da capacidade, e a nossa malha aérea caiu de 30 voos diários para 6”, contextualiza o secretário de Turismo de Foz do Iguaçu Paulo Angeli, empossado em janeiro de 2021.

Em sua gestão, Angeli quer melhorar o ambiente de tomada de decisões do turismo. O caminho para isso, identifica o novo secretário, é investir em pesquisas que retratem a realidade do setor na cidade. “Os dados são fundamentais para embasarem as decisões”, afirma ele ao DIÁRIO DO TURISMO, lembrando que hoje não há informações exatas sobre o número de turistas na cidade. “Eu quero deixar um legado ao turismo”, almeja ele.

Empresário do setor de eventos e idealizador e organizador do Festival das Cataratas, Paulo Angeli é um personagem conhecido na história do turismo de Foz do Iguaçu. “Eu moro na cidade desde os 4 anos de idade. Aqui, fui presidente do Conselho de Turismo de Foz do Iguaçu por sete gestões, presidente do sindicato das empresas de turismo e participei de todas as diretorias do Convention Bureau nos últimos 15 anos”, sublinha o secretário.

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No entanto, Angeli conta que relutou a aceitar o convite do prefeito reeleito de Foz do Iguaçu, Chico Brasileiro, para assumir a secretaria municipal de turismo. “Não é fácil você sair da iniciativa privada para ir para a iniciativa pública sem ter experiência. Confesso que é tudo absolutamente novo para mim. Eu estou tentando fazer o melhor possível”, afirma.

Cataratas do Iguaçu, em Foz do Iguaçu (PR). (Arquivo DT)

O momento para assumir o novo desafio não poderia ser mais desafiador, considera Angeli. “Ninguém esperava uma pandemia dessa. Nunca passou pela cabeça de nossa geração que passaríamos por isso com toda a tecnologia que envolve a saúde pública. Em 2019, o Fórum Internacional de Turismo de Iguassu, maior evento técnico-científico de turismo do Brasil, tomou como base o tema Turismo e Superação. Dos 306 trabalhos científicos apresentados naquela edição, nenhum falava sobre uma pandemia”, lembra.

FLEXIBILIZAÇÃO

Nos primeiros meses no comando da secretaria de Turismo de Foz do Iguaçu, Angeli está promovendo um inventário dos projetos em andamentos e da legislação de incentivo aos empreendimentos de turismo. O tripé da sua gestão, explica ele, conciliará turismo, projetos estratégicos e inovação. “Não dá para pensar em grandes projetos para Foz do Iguaçu sem ter uma visão turística”.

O secretário considera que a legislação de turismo precisa melhorar muito para criar um ambiente favoráveis aos novos empreendimentos. Ele pontua que são raras as legislações que favorecem o turismo. O objetivo é criar condições para atrair à cidade empresas que se conectem com o turismo. A preferência é por empresas das áreas de educação, pesquisa, tecnologia, inovação e logística. “Tem uma série de empreendimentos com aderência ao turismo que podemos, por meio de incentivo, fazer com que venham para Foz do Iguaçu”.

De acordo com Angeli, a retomada do setor passa por uma renovação no modelo de gestão da secretaria, que agora precisa ser dinâmico. “Eu acredito que esse modelo de secretaria já está um pouco ultrapassado. Você tem que dar agilidade nos processos e na execução dos projetos. Turismo é negócio e você não pode deixa-lo dependente da burocracia pública, pois as tomadas de decisões são mais rápidas. A gente está pensando em novas estruturas de gestão”, antecipa ele, sem detalhar como deverão ser essas novas estruturas.

Aeroporto de Foz do Iguaçu (Crédito: DT)

Nesta nova fase da secretaria de turismo de Foz do Iguaçu, a inovação exercerá um papel central, assegura o secretário Angeli. “A implementação de novas tecnologias será prioridade, pois a cidade já tem essa vocação. Nós temos instituições fortes na área de tecnologia e inovação, como o Parque Tecnológico de Itaipu e as universidades como UNILA, UniAmérica, UNIOESTE”, afirma o secretário.

Ele destaca que a cidade foi primeira do Brasil a ter um bairro no conceito Sandbox, que permite testar tecnologias inovadoras. A proposta, diz o secretário, é levar esse modelo de bairro inteligente a outras regiões da cidade paranaense. No quesito inovação, ele também cita o Centro Municipal Tecnológico de Inovação, que está sendo construído na cidade. Agora, a prefeitura busca uma instituição especializada em tecnologia e inovação para fazer a gestão conjunta do espaço e desenvolver projetos direcionados ao setor de turismo.

NOVAS DIRETRIZES

O novo secretário de turismo de Foz do Iguaçu diz ter ficado surpreso com as dificuldades encontradas para a tomada de decisões no poder público. “Eu sou da iniciativa privada, e me angustiei muito no início com algumas coisas que aconteciam e decisões que eu tinha que tomar”, diz.

O motivo, prossegue Angeli, foi a ausência de dados confiáveis sobre a realidade do setor, o que prejudica a tomada de decisão tanto do poder público quanto da iniciática privada. “Nunca tivemos números confiáveis de volume e perfil de turistas. Fazia-se uma pesquisa a cada 10 anos e trabalhava-se com aqueles números, algo irreal”.

A produção de dados é um desafio histórico do turismo brasileiro. De agora em diante Angeli quer estudos criteriosos para fundamentar as decisões e estabelecer as diretrizes para o desenvolvimento do turismo na cidade de Foz do Iguaçu. A dificuldade em relação aos dados está com os dias contados, assegura. “Eu quero mudar isso, quero números confiáveis para torna-los públicos para ajudar empreendedores e turistas”.

Feira do Festival das Cataratas (Crédito: divulgação)

Uma das primeiras medidas adotadas pelo novo secretário de turismo de Foz do Iguaçu foi fechar os postos de informações da cidade e realocar os funcionários para as áreas de marketing e de pesquisa. “O volume de informações passadas não justificava a continuidade desses espaços”, justifica o secretário, que pretende substituir esses postos por um aplicativo contendo informações para profissionais do turismo e turistas. Por enquanto não há uma previsão de quando o aplicativo começará a funcionar.

O secretário observa que essas mudanças já estão surtindo efeitos. “Foi a mudança mais assertiva até agora. Em fevereiro já passamos a ter números mais confiáveis. O objetivo dessas mudanças na metodologia é para identificar melhor o perfil dos turistas, quanto tempo permanecem na cidade… “Estamos fazendo um levantamento diário”, diz.

NÚMEROS

A base para calcular o número de turistas na cidade são os números de visitantes das Cataratas, que recebeu 2 milhões de pessoas em 2019. Tomando esses números como referência, Angeli calcula que a cidade receba em torno de seis milhões de turistas por ano. “Eu sempre digo que, de 10 pessoas que veem à Foz, só uma vai às Catarata. Em 2020, durante a pandemia, as Cataratas receberam 600 mil visitantes. A previsão deste ano é ficar nesse patamar”, projeta Angeli.

O secretário de Turismo de Foz do Iguaçu comemora que o destino começou a receber turistas estrangeiros vacinados. “Nós éramos o terceiro destino mais visitado pelos estrangeiros, que representavam cerca de 15% dos turistas de Foz do Iguaçu. A retomada desses turistas estrangeiros deve demorar mais, avalia ele, ressaltando que a maior demanda da cidade é para atender turistas argentinos, alemães, chineses e japoneses.

De  acordo com a Infraero, a capacidade do Aeroporto Internacional de Foz  do  Iguaçu saltou dos atuais 2,5 milhões para 5 milhões de passageiros ao  ano antes da pandemia (Crédito: Nilton Rolin/Itaipu Binacional.)

Outra prioridade neste momento tem sido amparar os profissionais mais prejudicados pela pandemia. O secretário afirma que, nesse sentido, a cidade de Foz do Iguaçu mantém, desde janeiro de 2021, o projeto de turismo Foz Conhecendo Foz. “A população de Foz é convidada a conhecer gratuitamente os atrativos da cidade com acompanhamentos de guias de turismo profissionais e com transporte, tudo bancado pela prefeitura municipal”.

Idealizado pela vereadora Anice Gazzonoui, o programa virou projeto de lei (PL nº 96/2020) e foi aprovado em agosto de 2020. Os passeios começaram em janeiro de 2021. “Mais de 4 mil moradores de Foz do Iguaçu já participaram da iniciativa. É um programa inovador que está favorecendo as pessoas que trabalham como freelancer. Tinha habitante que, com 40 anos de idade, ainda não conhecia as Cataratas”, conta o secretário.

A RETOMADA

A recuperação do setor depende da vacinação, ressalta o secretário de Turismo. “Estamos na expectativa de que aumente o volume de vacinas para que o turismo comece o retorno à normalidade”, explica Angeli, que diz não acreditar na existência do chamado “novo normal”.

Ele projeta uma nova etapa para o setor nas férias escolares, uma espécie de início da retomada. “Eu acredito que, no mês de julho, já vamos ter uma movimentação interessante. Os brasileiros estão ansiosos para viajar, e não vão viajar ao exterior. Eles vão conhecer o Brasil, e Foz do Iguaçu está entre os destinos mais desejados”.

De acordo com a sua análise, o setor trabalhará de forma mais tranquila em meados de novembro, com os números controlados de contaminações e a maioria da população vacinada. “Essa é a grande esperança”, sintetiza o secretário, que aguarda a reabertura da fronteira com a Argentina, prevista para acontecer em meados de outubro.

Paulo Angeli, secretário de Turismo de Foz do Iguaçu. (Crédito: arquivo DT)

Mesmo com as dificuldades imposta pela pandemia, Angeli ressalta que os investimentos na estrutura turística não pararam em Foz do Iguaçu. “Há poucos dias foi anunciado R$ 100 milhões de reais na construção do aquário de água doce, novo atrativo turístico da cidade. Temos hotéis sendo construídos e outros reformados”, relaciona o secretário.

A logística de Foz do Iguaçu será revigorada com a chegada da ferrovia. O governo estadual realizará a licitação da ferrovia em maio de 2021. Antes da pandemia, o porto seco de Foz do Iguaçu recebia 190 mil caminhões por ano. Com a inauguração da ponte entre Brasil e Paraguai, a demanda crescerá. “A partir do próximo ano vamos surpreender muita gente”, avisa o secretário de Turismo de Foz do Iguaçu.

“A cidade de Foz do Iguaçu está aberta para receber os turistas, mas com muita responsabilidade. Neste momento não podemos apoiar um turismo de massa. É uma responsabilidade nossa com o próprio turista. Temos que oferecer segurança”.

Agora, ressalta o secretário, o mais importante para a recuperação do setor é ter responsabilidade com os turistas e com os profissionais que constituem o mercado de viagem. E conclui: “A cidade de Foz do Iguaçu está aberta para receber os turistas, mas com muita responsabilidade. Neste momento não podemos apoiar um turismo de massa. É uma responsabilidade nossa com o próprio turista. Temos que oferecer segurança”.

 

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