Pipa renasce para o turismo como a ave anuncia a chuva no sertão

“Seja gentil”; “Faça amor, não faça a guerra”; “Deixe pegadas e leve seu lixo”; “A vida é melhor na praia”. Essas são algumas das frases pintadas nas placas e avisos de Pipa (RN), penduradas pelas ruelas comerciais, ou fincadas antes de desembocarmos em alguma de suas praias: a dos Golfinhos, a do Madeiro, a do Centro e a do Amor.

Por Paulo Atzingen, de Pipa (RN)*

A vibração aqui é outra e a provocação das placas serve para nos lembrar de que o destino  do Rio Grande do Norte amadureceu. Essas prainhas, pérolas de um colar litorâneo na curva do Brasil, sua comunidade e sua economia subiram de um estágio colonial – quando jovenzinhos vinham se drogar para curtir as dunas e as falésias na década de 70 e 80, quando campistas de um dia faziam suas fogueiras e deixavam seu lixo nos anos 90 – para um patamar de turismo profissional. Hoje Pipa já se tornou uma grife reconhecida do turismo nacional e internacional.

É evidente que a economia da vilazinha se virou nos trinta nos duros e longos meses de pandemia em 2020 e 2021, mas agora renasce forte, vibrante, não como a ave fênix que ressurgiu das cinzas no mito grego, mas como o  caboré**, ave nordestina, que canta anunciando a chuva no sertão, devastado pelo sol.

Em Pipa tem tudo, é outra civilização, digo eu, parafraseando Manuel Bandeira, em seu Pasárgada. No topo das falésias, Pipa tem os ares e as cores vibrantes de uma organização social diferente em um mundo fora à parte – No lugar de política se conversa sobre o horário do pôr do sol, a produção industrial e em série da cidade grande é substituída por peças autorais e artesanais vendidas pelos artistas e no lugar do asfalto e dos semáforos pisamos em paralelepípedos e, por fim, nosso tempo é orientado pelas marés.

Pipa tem os ares e as cores vibrantes de uma organização social diferente em um mundo fora à parte (Crédito: Paulo Atzingen)

Não é fotografável

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Em Pipa, as falésias falam por si. São mais que cinematográficas, são mais que monumentais, são tridimensionais e seu recorte definiu como a civilização pipense ordenaria suas casas no topo do acidente natural. Definiu e afrontou pois as falésias, sem se mexer, enfiam no saco qualquer foto ou fotógrafo que queira enquadrá-la ou tirar dela todo o seu significado.

Isto é explicado por Wanderson Borges, dono da pousada Xamã, na praia do Amor: “Nenhuma foto, nenhum vídeo, nada consegue traduzir esse sentimento de estar aqui agora. Você ouve a brisa? Ela é não é fotografável”, pergunta e responde o hoteleiro que chegou à Pipa no ano 2000, arrendou um hotel, apaixonou-se pelo lugar e fincou bandeiras.

Borges explica que o objetivo da associação é que seus integrantes gerem emprego de carteira assinada

Borges, que também encabeça a associação de hoteleiros de Pipa -o Preserve Pipa – de cara me diz que o objetivo da associação é que seus associados gerem emprego de carteira assinada e que isto ele chama de sustentabilidade social. “Temos 52 hotéis e pousadas regulares que recolhem a TIT – Taxa de Incentivo ao Turismo – Taxa essa que ajuda muito na preservação dos valores e do ambiente de Pipa”, afirma o hoteleiro. Borges lembra, no entanto, que existem muitas outras pousadas (e até hotéis) desassociadas e independentes que não se integram por comodidade, desleixo ou falta de visão: “Muitas querem abrir apenas três dias na semana e não contratam ninguém. Esses fazem o mesmo trabalho do Airbnb que também não contrata ninguém. Assim é fácil”, critica o empreendedor.

Há quatro anos na associação, Wanderson demonstra ser proativo na busca soluções para a comunidade de hoteleiros e não apenas para seu hotel.  “A TIT – Taxa de Incentivo ao Turismo de R$ 3 cobrada por quarto/noite é totalmente revertida para ações no turismo, seja em projetos ambientais, promoção do destino e participação em feiras”, enumera.

O “Preserve Pipa” é o nome comercial da ASHETEP – Associação dos Hoteleiros de Tibau do Sul e Pipa.

Placas avisam, alertam, ironizam, ensinam (Crédito: Paulo Atzingen)

Ele mostra a customização de produtos hoteleiros com a marca Preserve Pipa impressos em sabonetes, saches, embalagens para talheres, guardanapos de papel e identificador de malas para viagem (tag). “Virou nossa identidade”, resume.

Pipa secou, mas agora enche de novo

Na pandemia Pipa secou, e no auge da crise sanitária – por cerca de 45 dias – só entrava ou saia moradores da vilazinha o que criou um estrangulamento em sua economia, que vive do turismo. Mas agora, passados 20 meses das grandes restrições que impactaram o mundo todo, com boa parte da população vacinada, Pipa enche-se novamente de gente, alegria e turistas. Marcas de grife estampam o nome de lojinhas, pequenos shoppings disputam espaço com vendedores autônomos, uma travessinha lembra a arquitetura grega e serve de point para um desfile de selfies e a avenida principal, salpicada de restaurantes e sorveterias mantém o lugarejo pulsante e de pé, como a vegetação que protege e mantém ereta as falésias cor de âmbar.

Uma travessinha lembra a arquitetura grega e serve de point para um desfile de selfies

Tocam de raspão

As gerações, os estilos e os modos de viver são por um momento sintetizados em um só ao caminhar na Avenida Baía dos Golfinhos, aqui em Pipa. O hippie vende suas pulseirinhas com missangas, o artesão mostra suas camisas estampadas e os artistas cantam os sucessos de MPB para um público heterogêneo. Nordestinos, sulistas e potiguares de todas as idades caminham sobre os paralelepípedos. Os músicos tocam e cantam o que um dia foi o melhor da Música Popular Brasileira – e tocam de raspão – o coração dos mais velhos e grisalhos que viveram as letras do Legião Urbana, do Paralamas do Sucesso e da Cor do Som. Mas a “vibe” pré e pós adolescente corre solta e a noite nos barzinhos termina por volta das quatro horas da manhã.

Solidariedade embelezada

Em Pipa, comprar uma peça artesanal na praia de um artista como o Jonathas que veio da Baia com a esposa é uma ato de solidariedade não com ele e com a esposa, mas especialmente com o mundo e uma sociedade que tem mudado como um banco de areia. Comprar dos pequenos é ser solidário conosco e com o destino. Mesmo que esse artesanato não vá ser útil ao corpo ou embelezar a casa. Embelezamos o momento.

Jonathas, que veio da Bahia, vende artesanato (Crédito: Paulo Atzingen)

Gravidade puxa todos

Aqui surfistas profissionais trombam com pegadores de onda ocasionais, mas no tamanho do mar todos parecem iguais e caem com a mesma força da lei da gravidade. Na praia dos golfinhos o que se gosta mais são os próprios golfinhos, que se oferecem para serem vistos, amados e se tivermos sorte, fotografados.

Aqui surfistas profissionais trombam com pegadores de onda ocasionais (Crédito: Paulo Atzingen)

Prepare o bolso

Na praia do Madero a vista espetacular de cima das falésias impressiona tanto ou menos que o preço do peixe, da carne de sol lá embaixo, junto à areia. Pagar por um produto ou serviço sem que seja o preço justo depõe mais contra o lugar do que com quem o pratica. Esse talvez seja o único alerta deste breve relato: vem para Pipa e quer almoçar em restaurantes, ou mesmo na praia? Então  prepare o bolso.

Na praia do Madero a vista espetacular de cima das falésias impressiona tanto ou menos que o preço do peixe, da carne de sol lá embaixo, junto à areia (Crédito: Paulo Atzingen)

Encontro Universal

A praia do Centro é a praia mais movimentada da vila por estar mais próxima do miolo comercial. Nela um encontro universal acontece todo dia ao cair da tarde. Os turistas vêm ver o pôr do sol e a rapaziada (moços e moças) se divertem em grupos com a sua majestade, a bola de futebol. Não há competição, a diversão que é importante, não há disputa de quem é o melhor – é o relacionamento com os iguais o que importa.

Um encontro universal acontece todo dia ao cair da tarde (Crédito: Paulo Atzingen)

Ser sem ter

Maurício Oliveira era paulista do Bixiga. Vende empadas de frango, palmito, leite condensado e na versão vegana na praia do Amor. Saiu de Sampa há cinco anos e não voltou mais. Aqui encontrou seu destino. Seu destino destino e não temporário como nos acostumamos chamar no turismo. “Não tenho boleto para pagar e nem conta bancária”, afirma já à vontade e falando como se fôssemos amigos à longa data. “Pipa tem todas as vantagens de ser, sem precisar ter”, dispara um clichê de autoajuda, mas sustentado por ótimos argumentos. Maurício elogia o sistema de Saúde Público, que liga semestralmente para ele e o lembra de se apresentar e fazer seu check-up. Sua mulher, formada em Direito e especializada em causas trabalhistas o ajuda, lavando as forminhas. “Ela preferiu não advogar aqui por duas razões: Se ela defender as petições dos empregados, criaria inimigos junto aos patrões. Se ela defender as causas dos patrões daqui, os comerciantes, lojistas e empresários, criaríamos um clima insustentável com os nossos amigos trabalhadores”, explica em seu dialeto paulistano.

Saiu de Sampa há cinco anos e não voltou mais. Aqui encontrou seu destino (Crédito: Paulo Atzingen)

Sim, o clima de Pipa é outro, diferente da civilização. Maurício, que dorme com uma advogada me informa que a criminalidade aqui é quase zero e o ladrãozinho de celular tem o dedo cortado na ponta e obrigado a devolver o aparelho a seu dono. “O temor da humilhação é mais forte por aqui que o temor da Lei e vem funcionando”, diz. Ele vende suas empadas e sai caminhando distribuindo suas ‘mensagens’ e seu mantra de bem-viver.

A Praia do Amor, uma das mais belas do Nordeste

Nos cinco dias em Pipa pude conhecer no mínimo dez pessoas, brasileiros e estrangeiros que trocaram de vida, saíram de seus habitats naturais para, segundo eles, encontrar seu habitat definitivo, que é aqui. Minha companheira ficou tão encantada com o lugar que decidiu – não, ela não mudará para cá – tatuar uma borboleta no ombro direito. Seu significado, ela responde, é que a borboleta tem o formato de sua tireoide, extraída há cinco anos.

Nessa vibe, tatuarei por cima de minha gaivota pálida gravada no braço esquerdo adolescente um outro pássaro, o  caboré, ave nordestina, que canta anunciando a chuva no sertão, devastado pelo sol.

Confira mais imagens:


ONDE COMER?

O Tal do Escondidinho

O restaurante “O tal do escondidinho” valoriza a cultura da região, as delicias da culinária nordestina, tudo isso com música boa e ambiente aconchegante!!! Aqui você conhece a história de Lampião, o Rei do Cangaço e o famoso escondidinho gratinado em

Av. Baia dos Golfinhos , 1130, Praia da Pipa

(84) 994250496

 

Pipa Beach Club

Localizado na praia do centro, o Pipa Beach Cub oferece a melhor estrutura de bar e restaurante à beira mar da PIPA. Espreguiçadeiras, mesas, redes e piscina em uma grande área aberta

Largo São Sebastiao, 277

(84) 32462447

 

El Farolito

Especialidade em carnes a la parrilla. Oferece carnes importadas e cortes argentino. Bife de Chorizo, tiras de assado, molejas, choripan e milanesas compõem o variado cardápio.

Rua da Albacora, 01 –

(84) 32462643

55 84999087634 (whatsapp)

 

Onde ficar?

Pousada Xamã  

Rua dos Cajueiros, 12 –

Telefone: +55 (84) 3246-2267

WhatsApp: +55 (84) 99611-4422

contato@pousadaxama.com.br

 

Hotel Sun Bay

Avenida Baía dos Golfinhos, 125

Fone/Whatsapp +55 (84) 3246-2373

E-mail: reservas@sunbay.com.br


*O jornalista viajou com seguro GTA ficou hospedado no Hotel Sun Bay com receptivo Luck Operadora

**Agradecimento ao jornalista e historiador Thomas Bruno, pela consultoria sobre a ave do nordeste

*** Agradecimentos à Cristina Lira, potiguar de coração, pelas dicas de hotel,  restaurantes e praias

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3 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia, PAULO ATZINGEN tudo bem?!
    Sou Janaína Daher, fotógrafa – moradora da Pipa. Desde já muito grata pela visita, ler seu texto é um prazer.
    Trabalho com Marketing e criei um texto do qual intitulei de – Os dez mandamentos do Turismo Consciente na Pipa/Nordeste. Esse texto tem o intuito de conscientizar essa nova etapa de retorno o turismo. Como você mencionou Pipa ficou fechada 45 dias apenas, porem nosso retorno foi permeado por um turismo regional, do qual a Pipa nunca havia vivenciado. E estamos agora tentando contornar os problemas que esse novo publico nos traz diariamente.
    O motivo do meu contato, seria para que talvez vc nos ajudasse a difundir esse texto para que possamos alcançar maiores visibilidades e para que o turista nacional saiba que a Pipa não é somente um roteiro turismo a ser explorado e sim um Santuário a ser preservado. Caso me permita, aguardo teu retorno e lhe envio nosso texto para que ser analisado.

    Desde já agradeço.
    Att: Janaina Daher

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Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
PAULO ATZINGEN é jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará. Produziu reportagens na Amazônia sobre sustentabilidade, conflitos agrários e étnicos. Lançou em 1998 sua primeira revista, a PAYSAGE – dirigindo-a e publicando-a por três anos. Em Belém, foi repórter do jornal O Liberal, O Paraense e articulista do jornal A Província do Pará e Diário do Pará. É premiado contista, com três livros de ficção em prosa publicados via editais. Trabalhou como redator no jornal de turismo Brasilturis e fundou em 2005 o DIÁRIO DO TURISMO, o primeiro jornal On-line Diário de Turismo do Brasil. Atualmente desenvolve projetos de conteúdo editoriais e digitais para empresas privadas de hotelaria, aviação, companhias marítimas, destinos turísticos e biografias.

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