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Resignado, espero – Crônica de Osvaldo Alvarenga*

Passo o tempo à toa, a olhar andorinhas, céu, rio, a ouvir música, ou horas submerso na banheira. Bem em casa, alieno os dias. Em quarentena, como ser mais útil?

Ouço livespodcasts, vejo séries e leio também. Também escrevo. Muita notícia, pouca absorção. Sobre isso ouvi a respeito: tanto consumo de informação, tanto compartilhamento, tanta matéria, tanto comentário, tanto saber sobre tudo, sem tempo para a reflexão, o conhecimento escorre.

Precisava dizer algo. Falta assunto. Não. Assunto não falta. São muitas notícias, insanos acontecimentos, absurdos, chocantes. Ensaio dizer qualquer coisa. Tento enquanto o sol se põe; na Ajuda.

A noite é de lua cheia. Céu claro e sem nuvens. Não deveria bastar? Não basta. Angústia imensa. Penso em quem, penso em quê? O que me consome? Há tanto. Não vale a pena confessar. Penso. Peso. Deixo passar.

A indignação gera audiência, likes, cliques, recompensa. Escolha um lado, seja raivoso, indigne-se mais, odeie o quanto puder, e ainda mais: é fórmula de sucesso. Funciona em cadeia. Tento ficar fora, de fora. Tento mais leveza. Nem sempre é fácil. Imensa incerteza; como em toda parte. Indignado ou resignado, pouco importa, espero.

Sentado sobre o muro – alto – ouço o sino da igreja, as gaivotas guincham, as andorinhas brincam, sinto os últimos fiapos de sol, ouço a música, bebo o vinho, espero a lua. Ainda demora. Espero. Assunto. Tanto a dizer e tão inútil…
Útil: Lisboa tem céu azul, temperatura típica da época, todos bem em casa, amanhã almoço com amigos.

A noite é fria
Reflete no rio a lua
No vento, me calo.

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