sábado, abril 5, 2025
HomeEconomia do turismoTecnologia inédita ajuda corais ameaçados de extinção em Pernambuco

Tecnologia inédita ajuda corais ameaçados de extinção em Pernambuco

Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) desenvolveram uma tecnologia inédita que pode ajudar a salvar espécies de corais em risco de extinção.

EDIÇíO DO DIÁRIO com agências


Os cientistas criaram um dispositivo que inova a técnica de transplante de corais a partir da recuperação de fragmentos com perda tecidual. O dispositivo funciona como uma espécie de berço, onde os fragmentos são mantidos até que se recuperem e cresçam. Com isso, podem ser reinseridos em seus habitats, ocupando papel-chave no equilíbrio recifal.

“O dispositivo permite aprimorar a técnica de transplante de corais, na medida em que torna todo o processo mais simples e acessível. Móvel e de fácil produção, inclusive por impressora 3D, permite adaptar a técnica à morfologia das diferentes espécies e pode ser transportado para qualquer local em que os pesquisadores necessitem conduzir os estudos ou manejos de recuperação”, explica o engenheiro de pesca e coordenador científico do projeto, Rudã Fernandes.

Com o dispositivo, Fernandes e sua equipe cultivaram a espécie Millepora alcicornis, coral nativo brasileiro conhecido como coral-de-fogo, conseguindo com que crescesse 40% em apenas três meses. Pela mesma tecnologia, também foi possível cultivar o coral Mussismilia harttii, que figura na lista vermelha de espécies em extinção. Com esta espécie, os pesquisadores têm conseguido multiplicar o número de pólipos obtidos a partir de um mesmo fragmento.

O projeto, que conta com o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, enxerga a conservação recifal como um processo multidisciplinar e que deve ter participação da população local, assim, também atua nas frentes de educação ambiental, engenharia e prototipagem, turismo, desenvolvimento de tecnologias de aquicultura, fisiologia e bioprospecção de moléculas bioativas para múltiplas atividades. “Queremos viabilizar cadeias econômicas integradas e sustentáveis, que respeitem a natureza”, afirma Fernandes.

Na mesma linha, o coordenador geral do projeto, Ranilson Bezerra, ressalta a multidisciplinaridade da ação, que traz resultados que impactam toda a comunidade. “O retorno para o turismo local é imenso. O trabalho que desenvolvemos com brilho nos olhos, carinho e dedicação é de extrema relevância para jangadeiros, profissionais de mergulho e proprietários de pousadas, hotéis e resorts”, diz Bezerra.

De acordo com a gerente de Soluções em Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, Marion Silva, projetos como este demonstram como a proteção da biodiversidade gera benefícios para o país, inclusive do ponto de vista econômico. “É extremamente importante cada vez mais o poder público, a iniciativa privada e a sociedade se conscientizarem da necessidade de cuidarmos dos ambientes naturais, da fauna e da flora. Temos na natureza um grande ativo que pode ser usado de forma sustentável e responsável para gerar renda e empregos”, diz.

Hotéis de Porto de Galinhas aderem à iniciativa (Crédito: arquivo DT)

Turismo sustentável

Ano após ano, Porto de Galinhas, em Pernambuco, recebe milhões de turistas de todo o mundo atraídos por seus famosos corais. De acordo com o Ministério do Turismo, o município de Ipojuca, onde fica o famoso destino turístico, foi mapeado como o nono destino mais procurado pelos viajantes brasileiros durante o último verão (dezembro de 2019 a janeiro de 2020).

Não à toa, o projeto da UFPE tem despertado o interesse dos empresários de Ipojuca, em especial do setor hoteleiro, que começa a entender que, sem os corais, o turismo na região pode minguar, comprometendo uma atividade que hoje é responsável por grande parte da geração local de emprego e renda.

Para que Porto de Galinhas continue sendo um destino turístico relevante, sustentabilidade virou palavra-chave. Com ajuda da associação de hotéis do município e o Projeto Reanimar, os pesquisadores estão desenvolvendo uma iniciativa focada no fomento à economia azul, ou seja, economia baseada nos recursos naturais e serviços fornecidos pelo oceano. A ideia é que, com apoio dos empresários, seja construída uma base permanente para a recuperação dos corais de Ipojuca, sempre em colaboração com instituições científicas.


De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, os recifes de corais se estendem por 3 mil quilômetros da costa brasileira (Crédito: Getty Images/DT)

O objetivo é que novas iniciativas com esse propósito sejam aceleradas. De acordo com os pesquisadores, mais de dez hotéis da região já manifestaram o interesse de apoiarem em suas estruturas o desenvolvimento de bases de manejo de espécies nativas, que funcionarão como startups responsáveis por desenvolver projetos e tecnologias de conservação para diversas espécies marinhas (tartarugas, peixes, estrelas-do-mar etc.). “O hotel colabora com a preservação e poderá associar sua imagem como benfeitor daquela espécie em Porto de Galinhas”, explica Fernandes.

Para ele, o turismo científico será uma tendência na região e há possibilidade de as técnicas e abordagens desenvolvidas serem escalonadas, uma vez que há parceiros internacionais envolvidos, incluindo a Universidade do Qatar. No turismo científico, os viajantes colaboram e participam de ações de conservação, promovendo a conscientização e ajudando a combater práticas predatórias, como remover os corais de seu habitat ou danificá-los.

A situação dos corais

O branqueamento é um processo de deterioração que pode levar à morte dos corais. É causado pela alteração da temperatura dos oceanos, que deixa a água mais ácida e provoca a expulsão ou perda de pigmentação das zooxantelas, algas que vivem em associação mutualística com o coral. Poluição e práticas turísticas inadequadas também contribuem para fatigar o ambiente.

De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, os recifes de corais se estendem por 3 mil quilômetros da costa brasileira, concentrando-se desde o Sul da Bahia até o Maranhão, especialmente entre Salvador e o arquipélago de Abrolhos, ambos no estado baiano.

Além disso, são os únicos recifes de coral do Atlântico Sul, visto que cerca de 92% se encontram nos oceanos Índico e Pacífico. Embora ocupem apenas 0,1% dos oceanos, os recifes são ecossistemas extremamente ricos em biodiversidade, servindo como berçários e fornecendo alimento e abrigo para milhares de espécies de peixes, crustáceos, moluscos, algas e outros seres vivos. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), um quilômetro quadrado de recife de coral saudável e bem manejado pode gerar a produção anual de 15 toneladas de peixes e outros frutos do mar. Ainda de acordo com a agência da ONU, os serviços ecossistêmicos oferecidos pelos corais beneficiam cerca de 850 milhões de pessoas no mundo que vivem a uma distância de até 100 quilômetros dos recifes, sendo que 250 milhões dependem diretamente dos corais para a sua subsistência.

Compartilhe essa matéria com quem você gosta!

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Enriqueça o Diário com o seu comentário!

Participe e leia opiniões de outros leitores.
Ao final de cada matéria, em comentários.

Matérias em destaque