Uma outra margem (aos professores)

por Paulo Atzingen*


Disseram que correu uma notícia no Sul do Pará que eu havia morrido.
Tive que desfazer o mal entendido
Liguei para o professor Brandão
e disse que estava vivo.

Brandão carrega 89 anos
e tem boa memória
conversamos dos tempos antigos
lembramos de nossas histórias
ficou (fiquei) feliz ao ouvir
o amigo.

Educador-nato fez da sua vida uma busca

Historiador clássico foi na raiz do Itacaiúna.

Hoje ouço Caetano
e sua música me entra no peito
tão leve tão jovem
espraia como vento bom
daquele distante ano

Professor de literatura
entregava ao aluno
a descoberta da figura
ao recitar Veloso:
“Coberta de nuvens
não estavas nua
e sim aparecias inteira”.
Era a metáfora
que entrava como um raio
no coração do menino.

Me perguntara como a luz do sol
a folha tragava
e se o verde-novo
podia libertar o azul.

Filhos dos castanheiros
de trabalhadores da floresta
viviam entre caminhões
e serrarias
e viam no jovem
professor-estudante
uma ponte
uma fresta
um talvez horizonte.

Hoje veio a lembrança
aos que ensinei
a marca da passagem
o nadar na busca da palavra
a outro nível da linguagem

E aqui escrevo
um pouco comovido
que na mente ou
no coração
de algum menino
fiquei vivo.

São Paulo, primavera 2020


*Paulo Atzingen foi professor do Ensino Fundamental, Médio e pré-vestibular por 10 Anos. Lecionou Língua Portuguesa, Redação e Literatura.

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