Vindima no coração de Lisboa – Crônica de Osvaldo Alvarenga*

Tapada é um terreno murado com mata dentro. Usada como área de lazer e parque de caça exclusiva dos monarcas, servia também, com frequência, à criação de gado e reserva de lenha para consumo nos palácios e monastérios contíguos. As tapadas tiveram papel importante na preservação da natureza e áreas verdes em várias cidades portuguesas. Conheço duas em Lisboa, a Tapada das Necessidades e a Tapada da Ajuda, ambas aqui perto de casa. Não sei de outras na cidade. Nunca ouvi falar.

A Tapada da Ajuda, antes Tapada Real de Alcântara, criada em 1645 pelo rei D. João IV, acolhe, desde 1917, o Instituto Superior de Agronomia. São cerca de 100 hectares de área verde, no centro da cidade, destinados à preservação da flora característica da região, mais jardins, viveiros de plantas, cultura de frutas, hortas, vinhas e olivais; incluindo uma reserva botânica com floresta de zambujeiros. Lá também, dois prédios icônicos da arquitetura da segunda metade do séc. XIX: o Pavilhão de Exposições e o Observatório Astronômico de Lisboa e ainda, nos disse o Sr. António, funcionário do instituto, há cavalos selvagens. Não os vi. A tapada é aberta ao público e pode ser visitada todos os dias. 

A Iêda e eu conhecemos na terça passada. Fomos participar, como voluntários, da vindima deste ano. Eu explico. Dentro da cidade de Lisboa existem duas áreas de cultivo de uvas destinadas à produção de vinho e onde parte da colheita é feita por voluntários. A primeira e mais antiga são as vinhas do Instituto Superior de Agronomia, que desde 2011 abre a vindima para quem quiser participar. A outra fica no Parque Vitícola de Lisboa, em Marvila, do outro lado da cidade, próximo do aeroporto. Lá também é possível participar da colheita como voluntário. 

Vi a notícia no Facebook. Uma amiga compartilhou o aviso do instituto que abrira as inscrições. Preenchido o formulário no site, talvez há um mês, fomos chamados e participamos da vindima da casta Alvarinho; uva autóctone do norte de Portugal, das margens do Minho, região onde produzem vinhos verdes e espumantes de excelente qualidade. A Alvarinho é pequena, muito doce e ainda assim com relativa acidez, dá ao vinho um tom de palha, corpo, frescor, delicadeza e complexidade de aromas. É considerada a mais nobre das uvas brancas portuguesas. 

Quinta dentro da cidade

Oito e meia foi o horário marcado. Fomos a pé, a tapada fica a vinte minutos de casa. Chegamos no horário e já lá estavam alguns dos nossos companheiros de trabalho. Não parecia muita gente, talvez porque fosse amplo o espaço de encontro próximo à adega. Enquanto esperava observei os pés de maçãs bem próximos à entrada e as vinhas mais distantes. Espantoso, dali onde estava, eu podia ver as plantações, uma verdadeira quinta dentro da cidade: ao fundo o casario de Alcântara e acima, à esquerda, a Ponte 25 de Abril. Fiquei pensando em como era possível e como, somente agora, depois de três anos vivendo em Lisboa, fiquei conhecendo a tapada.

A Colheita de Alvarinho (Crédito do autor)

A culpa não é totalmente minha. Procure aí no Google Maps por “Alcântara, Lisboa” ou mesmo por “Ajuda, Lisboa”. Você vê aí alguma área verde? Vê uma série de manchas verdes, uma delas, à direita, a Tapada das Necessidades, com 10 hectares, ou seja, um décimo do tamanho da Tapada da Ajuda, e está pintada no mapa. Há praças e parques ainda menores coloridos de verde, mas cadê o verdor à volta do Instituto Superior de Agronomia? Olha bem, não está pintado. E mais, logo acima, colado à tapada, fica o Parque Florestal Monsanto, são quase mil hectares de pastagens e campos de cultivo reflorestados a partir dos anos trinta do século passado. Grandes áreas verdes coladas uma à outra. Cadê todo esse verdume no mapa? Eu sei, quer dizer, imagino, que você também não tenha a resposta. É uma pergunta retórica. O Monsanto eu conheço. Impossível não ver a floresta que cobre a serra a noroeste do centro da cidade. Qualquer um que circule um pouco para além da zona histórica vê. Mas a Tapada da Ajuda, francamente, eu não sabia. A mata que lá via, pensava, é parte do Monsanto. Quer dizer, já tinha visto aquele o muro meio rosado. Um muro sem fim que parecia cercar um grande terreno baldio coberto de mato e árvores. Nunca imaginei que fosse uma área de reserva, de cultivo e aberta ao público. Não me culpe.

Logo recebemos as primeiras orientações, as tesouras para a poda e caminhamos em grupos até às vinhas. Passamos primeiro pelas Moscatel. Não haviam sido colhidas ainda. Provei algumas, lógico. Em seguida as linhas com Alvarinho. Não mais que cinco de, talvez, cem metros cada. Depois as uvas da casta Viosinho, essas já colhidas. Mais para cima outras castas brancas; não fui até lá ver. As, também várias, castas tintas ficam em outro ponto da tapada. Novamente, ali de frente para as uvas, recebemos mais instruções. Basicamente as mesmas de antes: especial atenção ao cuidado com as tesouras, muito afiadas, para não cortarmos os nossos dedos, e para manter as crianças, bem-vindas à vindima, longe da poda. Para elas baldes onde carregar as uvas. 

Colheita

Espalhados em pequenos grupos, fomos orientados a começar a vindima pela parte mais alta do terreno. O espaço de ação de cada um é naturalmente definido. Quando já não há uvas à volta, cada pessoa escolhe novas videiras um pouco mais abaixo e segue a colheita. A divisão do trabalho é feita de tal forma que não fica pesado para ninguém. Em pouco tempo e pequeno esforço de cada voluntário, toda a uva foi colhida. Os cachos vão para caixas plásticas, azuis ou brancas, tanto faz, espalhadas pelo chão. Um pequeno trator puxa a caçamba onde serão colocadas as caixas e logo levadas à adega. É para evitar que comece antes da hora o processo de fermentação. O sol no início da manhã não castiga. E, com tantos voluntários, em três horas o serviço já estava concluído. Achei pena, podia ter passado mais horas ali. 

Para quem gosta de vinho como eu, é prazeroso participar da vindima. Colher com cuidado os cachos, tocar as uvas, experimentar seu sabor, sentir seu doce na boca e nas mãos; logo completamente meladas…

Antes de voltar para o ponto de encontro e trocar nossas tesouras por caixas de fruta (uvas de mesa dulcíssimas, maçãs como não há em mercado algum e figos maduros), todas produzidas lá, uma pequena aula informal sobre as vinhas. Vi que havia mangueiras instaladas para irrigação, quis saber o por que do professor que nos assistia: consequência do verão ano passado – me explicou –, o calor no início de agosto foi exagerado e consumiu 40% das uvas antes que pudéssemos colhê-las. É verdade, bateu 42 graus no dia dois de agosto. Os dias primeiro e três também foram extraordinariamente quentes – isso disse eu; quis mostrar conhecimento. Desde então instalaram as mangueiras para irrigação. A terra úmida na dose certa, nos dias de muito calor, arrefece o ar e protege as uvas. Foi isso o que entendi. São adaptações que temos que ir fazendo à medida que o clima muda. É novo para todo mundo.

A adega do instituto é pequena e tudo feito quase que artesanalmente. As uvas já não são pisadas. Há variado tipo de mecanização para o esmagamento. Lá usam uma máquina cilíndrica; o mosto sai de um lado, por um duto, e o engaço fica para ser retirado à mão. Além dos vinhos brancos, um varietal e um corte, produzem o moscatel, de sobremesa, e um tinto: apesar da grande perda do ano passado, as uvas que sobraram deram vinhos excelentes – foi o Sr. António quem falou. Mas para ele o melhor mesmo é o aguardente que produzem: de primeira qualidade. O tinto já não havia. O de sobremesa tenho em casa o suficiente. O branco varietal, hum, achei arriscado; os varietais são mais difíceis. Comprei uma caixa de cinco litros – sim, caixa. Tipo Tetra Pak – do outro branco. A Iêda lembra-se de ter lido num cartaz Arinto e Alvarinho. Eu não vi. Também não está escrito na caixa. Trouxe para experimentar. Logo saberei. 

Amigos vêm nos visitar nos próximos dias. Estou tentando uma nova data para irmos todos juntos. Mas, parece, esse ano são muitos os voluntários: mais gente que uvas; disse alguém. Mas quem sabe dá certo? Não seria mal fazer agora uma colheita de Touriga Nacional ou de Tinta Roriz. É querer demais?

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Sobre o articulista:

Osvaldo Alvarenga, tem 54 anos, reside em Lisboa e escreve para os blogs: Flerte, sobre lugares e pessoas e Se conselho fosse bom…, sobre vida corporativa e carreira. Atuou por 25 anos no mercado de informações para marketing e risco de crédito, tendo sido presidente, diretor comercial e diretor de operações da Equifax do Brasil. Foi empresário, sócio das empresas mapaBRASIL, Braspop Corretora e Motirô e co-realizador do DMC Latam – Data Management Conference. Foi diretor da DAMA do Brasil e do Instituto Brasileiro de Database Marketing – IDBM e conselheiro da Associação Brasileira de Marketing Direto – ABEMD, dos Doutores da Alegria e, na Fecomercio SP, membro do Conselho de Criatividade e Inovação.

Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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