Estudo-denúncia aponta qualidade de vida e trabalho das camareiras em hotel de SP

Gabriela Ferreira Camargo é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Turismo na Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e enviou ao DIÁRIO o resumo de seu trabalho acadêmico denominado: “Tem vez que a gente não consegue nem andar”: o trabalho das camareiras de hotel em São Paulo”.

REDAÇÃO DO DIÁRIO


Sua tese de mestrado aponta as características negativas no trabalho dessas profissionais como também traça o panorama da hotelaria em São Paulo no ano de 2019.

“A pesquisa buscou escutar as camareiras de hotéis de luxo na cidade de São Paulo, seus problemas e suas necessidades. Por meio de entrevistas semiestruturadas, as estas trabalhadoras falaram sobre suas rotinas, relações de trabalho, equipamentos e condições de trabalho, considerados críticos em sua maioria”, escreve Gabriela em seu resumo da pesquisa, solicitado pelo DIÁRIO DO TURISMO. Abaixo o texto da autora:

“Tem vez que a gente não consegue nem andar”: o trabalho das camareiras de hotel em São Paulo

Gabriela Ferreira Camargo

O trabalho das camareiras de hotel, imprescindível para o sucesso dos empreendimentos, muitas vezes recebe pouca atenção e reconhecimento por parte dos gestores. Pensando nisso, minha pesquisa analisou a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) das Camareiras em hotéis de luxo em São Paulo, e seus resultados apresentam série de pontos críticos a serem observados e desenvolvidos em busca de um melhor bem-estar dessas trabalhadoras e, simultaneamente, sem oferecer prejuízos aos hotéis.

Foram analisados como características negativas no trabalho dessas profissionais:  a organização do trabalho, o custo cognitivo e físico do trabalho, o esgotamento profissional, a falta de reconhecimento e os danos físicos do trabalho. Além disso, ficam em evidência a hostilidade dos hóspedes, os volume de trabalho, as rotinas imprevisíveis que as impossibilitam de fazer planos fora da rotina laboral e o desconhecimento dos seus direitos trabalhistas, que são frequentemente desrespeitados.

Na pesquisa, também foi possível traçar o panorama da hotelaria em São Paulo. Em 2019, o setor de encontrava em um momento de recuperação e investimento por parte de seus gestores, com grandes expectativas para 2020. No entanto, essas expectativas foram frustradas pela pandemia da Covid-19, que afetou principalmente a área do turismo no mundo todo.

A pandemia, como visto, trouxe recessão para o setor hoteleiro e gerou uma série de questões desfavoráveis a seus trabalhadores, como demissões, afastamentos e trabalho em contexto de risco, aprovados pela MP nº936.  Nesse sentido, um ponto a ser frisado é a resposta dos hoteleiros à crise. Embora os grandes empresários do setor de turismo se coloquem no papel de provedores de empregos e bem-estar, na verdade, os trabalhadores da área é que são os grandes responsáveis pelo sucesso do setor, mesmo com condições de trabalho desfavoráveis.

Além disso, verificou-se como os lucros dos hotéis – uma média de 30% por UH excetuando-se em momentos de crise – não é repassado aos trabalhadores, beneficiando apenas os donos das grandes corporações. Em contra partida, os trabalhadores são os mais prejudicados nestes momentos de crise.

Sendo assim, a pesquisa chega a conclusão de que o trabalho das camareiras, apesar de vital para o sucesso dos hotéis, recebe pouca atenção por parte dos gestores, assim como pouca valorização, inclusive no quesito monetário.

Ficou em destaque, ainda, a importância dos projetos de vida individuais e coletivos como um dos fatores geradores de bem-estar no trabalho. Apesar de sua importância, as camareiras não conseguem estabelecer planos e cumpri-los devido as rotinas laborais incessantes, o que gera desconforto e mal-estar para todo este coletivo. 

Por fim, a pesquisa buscou escutar as camareiras de hotéis de luxo na cidade de São Paulo, seus problemas e suas necessidades. Por meio de entrevistas semiestruturadas, as estas trabalhadoras falaram sobre suas rotinas, relações de trabalho, equipamentos e condições de trabalho, considerados críticos em sua maioria. Por fim, ainda dando ouvidos às camareiras, foi possível estabelecer ações que melhorariam sensivelmente a sua Qualidade de Vida no Trabalho, de acordo com elas mesmas, que forneceram ideias de soluções às quais os hotéis poderiam aderir. Dentre as ideias fornecidas encontram-se o aumento no número de dobradinhas, para que as mesmas pudessem dar conta dos afazeres domésticos e descansar, aumento de salário, redução das horas extras e maior reconhecimento.

Cabe ressaltar que, devido à pandemia foi possível obter mais um indício de como as relações de trabalho na hotelaria são frágeis. Quando a economia fornece um contexto favorável aos investimentos na hotelaria, as condições e QVT dos envolvidos é precária, e a situação se torna ainda pior quando o setor passa por uma crise.

Por ser um estudo-denúncia, os resultados podem igualmente ser utilizados para conscientizar os gestores e hoteleiros sobre a importância do setor de governança do hotel e da qualidade de vida atual de seus funcionários.   

Essa conscientização pode ser vista como uma oportunidade de aumentar a lucratividade dos hotéis, por meio da melhoria das condições do setor de governança, reduzindo custos com demissões, treinamentos de novos funcionários e afastamentos por saúde e aumentando a produtividade mediante a melhoria da satisfação dos trabalhadores. Além disso, o estudo pode ser utilizado para auxiliar na elaboração de leis trabalhistas justas e o cumprimento das mesmas, incentivando a denúncia e a fiscalização de condutas hoteleiras.

Ainda há um longo percurso para que se alcancem os menores níveis aceitáveis de QVT dessas trabalhadoras. Para tanto, os seguintes fatores são de extrema importância: leis trabalhistas que favoreçam as relações saudáveis de trabalho; conscientização dos hoteleiros sobre a importância e a QVT das camareiras e outros trabalhadores de seus respectivos hotéis;  informação às camareiras sobre seus direitos e sobre a importância de seu trabalho;  melhor treinamento de gestores, principalmente na área de Recursos Humanos; e  fortalecimento dos sindicatos para que haja uma fiscalização rigorosa das relações e condições de trabalho das camareiras na hotelaria. Também é importante conscientizar os hoteleiros sobre o benefício que a QVT de seus funcionários fornece também aos proprietários. Além disso, deve-se enfatizar que o hotel tem responsabilidade legal sobre seus trabalhadores.  

 

 

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Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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