A crise depois da crise – por Rui Jorge Carvalho*

Vivemos tempos sombrios. A incerteza e a perplexidade têm causado mais vítimas que o Covid-19, pois minam a esperança e destroem os sonhos. O fato é que, com base nos dados de que dispomos podemos dizer que dias piores virão. Isto pode parecer pessimista, mas a crise que devemos temer não é a do Coronavírus, mas a que virá depois.

A crise na saúde pública, embora gravíssima, acabará em algumas semanas se soubermos tomar as medidas de proteção recomendadas pelas autoridades. Milhares morrerão, mas muitos mais, mesmo os infectados, irão sobreviver e superar. O que realmente devia assustar-nos são os efeitos do Coronavírus na economia dos países mundo afora. Estima-se que 25 milhões de empregos serão perdidos. Milhares de empresas desaparecerão do mercado, muitas outras terão de rever sua permanência nele e fazer ajustes dolorosos.

O mundo corporativo não está preparado para algo destas proporções. Milhões de vidas serão afetadas pela crise que virá após a cura do Covid-19 e, isso, sim, será a verdadeira calamidade que precisamos enfrentar. As medidas que precisaram ser tomadas até o momento já estão causando um desarranjo enorme no mercado. Muita gente não terá salário, porque o fluxo de caixa de milhares de empresas está comprometido. Os governos não poderão ajudar a todos, pois há limites e dificuldades de todo tipo. Por mais otimistas que queiramos ser, é preciso reconhecer que demorará muito tempo para que os mercados recuperem a normalidade, e isso é muito mais assustador do que a pandemia em si.

Os governos não poderão ajudar a todos, pois há limites e dificuldades de todo tipo

É claro que nem tudo é negativo. Podemos sair da crise mais fortes do que entramos, mas isso exigirá disciplina, criatividade, espírito coletivo, muito trabalho e esforço e uma grande dose de sorte. Percebo que ainda há pessoas que não compreenderam a gravidade do problema em escala mundial. É pena. Não podemos continuar a fingir que nada aconteceu, que tudo não passa de um enorme surto de pneumonia que afeta os outros, pois nós somos imunes. Nada mais falso. Comportamentos assim em nada ajudam a encontrar soluções. Num momento em que o mundo precisa de união, solidariedade e esperança não podemos olhar para o lado e fingir que não é conosco. Há pessoas, por exemplo, que acreditam que esta é uma pandemia que mata idosos vulneráveis, e que, sendo jovens, pouco ou nada têm a temer. Nada mais falso. Ainda que sobrevivam ao vírus, e por certo a maioria de nós o fará, a crise econômica que virá afetará a todos, mesmo aos mais jovens, pois são os que viverão mais tempo e os que dependerão de condições favoráveis para iniciar uma carreira, suas vidas, constituir famílias.

A hora é de reflexão, mas, ao mesmo tempo de luta. Não podemos baixar os braços nem deixar que a desesperança nos impeça de usar nossas melhores energias para tentar evitar que as previsões mais sombrias se concretizem. Precisamos ser altruístas. Pensar nos outros, ajudar a quem pudermos. Empresários terão que pensar mais nas pessoas e menos nos lucros, mas isso não bastará. É preciso que todos nós, um por um, sejamos capazes de dar o melhor para mitigar o sofrimento do próximo. Não tenho medo de morrer com o vírus, o que me assusta mesmo é o medo de vir a perceber que a nossa sociedade não estava preparada para lidar com as consequências dele.

Protejam-se, isolem-se, colaborem com as autoridades e tudo não passará de um grande susto, mas estejam preparados para dar o melhor de si para o que vem depois. Só assim teremos o direito de olhar nossos filhos e netos e dizer: foi difícil, mas fiz o melhor que pude e ajudei a preservar um mundo onde ainda há espaço para a esperança. Pode parecer pouco, mas será o suficiente para que as próximas gerações nos olhem com respeito e consideração, e isso é tudo que nós, os mais velhos e vulneráveis (do ponto de vista da saúde e da economia) podemos esperar do tempo que nos resta. Vamos, então, aproveitá-lo da melhor forma: mostrar do que somos capazes e ao que viemos.

Que o Deus de cada um nos ajude a ser melhores para todos.


*Rui Jorge Carvalho é gestor de Novos Negócios na MVU Portugal (Grupo M21). Jornalista/Escritor

Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

Assine nossa newsletter

E fique por dentro das notícias mais importantes do setor!


Mais recentes

Conheça alguns dos destinos mais celebrados da Jamaica pelos viajantes

A ilha oferece escapadas em ambientes projetados para promover o distanciamento físico Por DIÁRIO com Agências De acordo com os resultados de uma pesquisa da TripAdvisor,...

Artigo: O que comemorar no Dia Mundial do Turismo

"O momento é grave para o setor de turismo e hospitalidade", aponta o presidente da Abih Nacional Manoel Linhares Por Manoel Linhares Esse ano comemoramos o...

Botanique Hotel & Spa anuncia Renata Maia Luque como nova diretora de Marketing e Vendas

A primeira grande missão da executiva será estreitar o relacionamento com os principais players do mercado de viagens exclusivas, dos eventos sociais e corporativos,...

Temporada de Cruzeiros 2019/2020 injetou R$ 2,24 bilhões na economia brasileira, aponta estudo

Estudo de Perfil e Impactos Econômicos de Cruzeiros Marítimos no Brasil – Temporada 2019/2020 foi produzido em parceria entre a CLIA Brasil e a...

Protocolo para reabertura de museus, teatros e eventos na cidade de SP é assinado por Covas

REDAÇÃO DO DT com informações do G1 As atividades culturais da cidade de São Paulo aos poucos retornaml, mas evidentemente com várias restrições. O prefeito de...

Hotel Ritta Höppner, de Gramado, completa 62 anos

O Hotel Ritta Höppner completou 62 anos de atividades na última quinta-feira (25). Como já anunciado pelo DIÁRIO o hotel está entre os mais...

Relacionadas

Fique ligado - Receba nossas notícias diárias

Open chat