InícioPolíticas de turismoA ingratidão do Rio com os Guinle - por...

A ingratidão do Rio com os Guinle – por Fabio Steinberg*

Cidades têm alma. Pessoas, e não tijolos e cimento, é que dão vida e perpetuam tanto os povoados como as metrópoles. É o amor dos cidadãos pelo local onde nascem, moram, e deixam descendentes, com seus sonhos e ideais, que alimenta e perpetua as grandes obras físicas, sejam elas prédios, infraestrutura ou monumentos.

Neste sentido o Rio de Janeiro tem uma dívida muito maior que o rombo da Petrobrás com a família Guinle. Um débito incompatível com o espírito amigável e afetuoso dos cariocas. Por três gerações, através de várias contribuições arquitetônicas, eles colaboraram para dar à Cidade Maravilhosa o seu traçado diferenciado de hoje.

O exemplo mais conhecido é o Hotel Copacabana Palace, um ícone que se confunde com a própria imagem do Rio. Construído em 1923 por Octávio Guinle, adotou a concepção clássica do mesmo arquiteto francês Jean Gire que deu vida poucos anos antes ao Hotel Glória, de triste destino (leia mais aqui). Já o Copa, como é carinhosamente conhecido, teve mais sorte que o desventurado hotel-irmão. Com a ajuda de Jorginho Guinle, o melhor relações públicas possível, hospedou personalidades ilustres que projetaram a imagem internacional do Rio e do próprio Brasil.

O estabelecimento só não sucumbiu à especulação imobiliária e foi preservado até hoje graças à obstinação dos Guinle, principalmente a mulher do fundador, dona Mariazinha, e seu filho José Eduardo Guinle, hoje consultor, e que por 20 anos dirigiu o estabelecimento até sua transformação em Patrimônio Histórico da cidade e posterior venda.

Mais que hotel, o Copacabana Palace fez surgir em seu entorno o então desabitado e longínquo bairro de Copacabana. Com isto, abriu caminho para Ipanema e Leblon, como revela a excelente obra Hotelaria e Desenvolvimento Urbano – 150 anos de História, do consultor imobiliário Caio Calfat.

 Apesar disso, o Rio de Janeiro jamais prestou a devida homenagem aos Guinle. Há apenas duas ruas de Botafogo com os nomes dos pais do fundador do Copacabana Palace. Até o ex-colunista social Ibrahim Sued, que ganhou renome por frequentar o hotel, ironicamente ganhou uma estátua na calçada à sua porta, na Avenida Atlântica. Foi preciso o governo francês condecorar Octavio Guinle com a Legião de Honra, já que nenhuma autoridade brasileira teve qualquer gesto nobre neste sentido. Nova oportunidade se perdeu recentemente com a edição do Livro de Heróis e Heroínas da Cidade do Rio de Janeiro, patrocinado pela Prefeitura como parte das comemorações dos 450 anos do Rio, e no qual nenhum membro da família foi incluído.

A cidade paga atualmente um preço alto pela violência e insegurança que nela convivem, o que ofusca não só sua beleza, mas principalmente o comportamento gentil de seus habitantes. Há muita coisa a ser feita para resgatar o Rio de Janeiro de seu cativeiro. Talvez a primeira delas seja pagar a dívida moral com a própria memória, e dar enfim o merecido valor às pessoas que fizeram a sua história.

Fábio Steinberg é carioca, administrador e jornalista. Tem três livros publicados: Ficções Reais, Ficciones Reales (espanhol), Viagem de Negócios e O Maestro. É fundador do blog Viagens & Negócios

Matérias relacionadas

Compartilhe essa matéria com quem você gosta!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Fique por dentro das notícias de turismo do DT!

Assine nossa newsletter e confira.




    Enriqueça o Diário com o seu comentário!

    Participe e leia opiniões de outros leitores.
    Ao final de cada matéria, em comentários.

    Matérias em destaque