A Saga para Votar no Rio de Janeiro – por Andrea Nakane (ouça o podcast)*

Moro há anos em outro estado e sempre que possível me organizo para cumprir meu dever cívico nas eleições. Nunca quis transferir meu título de eleitor, pois meus laços com o Rio de Janeiro são sólidos, até porque toda a minha família está na cidade e eu tenho, no fundo do meu coração, uma vontade explícita de um dia retornar a viver por aqui.

Em 2020, me organizei para estar presente no dia da eleição, pelo menos no primeiro turno, com o intuito de colaborar com uma possível retomada da decência e desenvolvimento da cidade.

Ciente que era um horário prioritário, mas que poderia ser compartilhado com outros perfis, às 07h45min já estava no local de minha votação, o Colégio Estadual Brigadeiro Schortt, localizado em Jacarepaguá, zona oeste, na 13º zona eleitoral, uma das maiores do Brasil.

Me dirigi a minha seção, a antiga 774, e a princípio respirei aliviada pois identifiquei três pessoas na fila com distanciamento nulo, já que as marcações não chegavam a nem 40cm de um ponto ao outro.

Minha alegria durou muito pouco, pois de repente em menos de uma hora de uso, a urna eletrônica parou de funcionar, deu bug, em uma linguagem técnica. Começou então uma saga para votar…

Os voluntários que trabalhavam no local, rapidamente buscaram o responsável pelo local para registrar o ocorrido…e eu pensei… tranquilo, é só fazer a reposição da máquina. Seria… se no local existissem urnas extras. Não há. O procedimento nesses casos é acionar o responsável pela zona, que aciona outra pessoa e assim providenciaria uma nova urna. Só que isso, sem apresentar nenhuma estimativa de tempo.

O clima, já quente pela temperatura em ascensão, fica ainda mais acalorado, começam as reclamações, as palavras de baixão calão, os intempéries, as caras feias e o pior, isso tudo em cima dos coitados, sim coitados cidadãos, que estão ali de forma voluntária ou compulsória, fazendo acontecer o processo eleitoral.

Nessas horas, é perceptível e audível a falta de educação, desrespeito e apatia das pessoas com relação aos seus pares. A situação em si já tende a ser tensa, e os eleitores de pavio curtíssimo começam a transformar o momento em cenas de pura barbárie verbal.

Você que trabalha com pessoas e pratica a Comunicação não Violenta, não tem como se omitir e entra no circuito, tendo conciliações e buscando alternativas.

Indago se não podemos usar cédulas em papel, em um caso desse, e a resposta é que não… uma pena pois ganharíamos tempo e não teríamos esses conflitos, e enquanto isso, a fila já não é mais fila… e sim uma verdadeira aglomeração, com o melhor estilo telefone sem fio…com informações truncadas e incorretas.

Como RP e jornalista, busco apurar fatos e fomentar soluções, pergunto se não é possível unir as seções, sim como ocorreram inúmeras faltas de mesários, unificaram-se seções, talvez uma das explicações para a pane da urna, que são antigas e talvez não suportem tal sobrecarga. Mas os mesários dizem que não é possível.

O responsável pelo local, volta e informa que já entrou em contato, que temos que aguardar, voltar mais tarde ou quem sabe justificar a ausência. Novo estress, novo bate boca… e eu pensando… eu só queria votar…

Muitos desistiram, outros persistem na fila, ou protótipo de, e vamos papeando, afinal, conversando a gente se entende.

O treinamento de todo o processo é bem falho e os colegas voluntários nem se quer tem vantagens para votar no próprio espaço, dizem que escutam tantos desaforos e xingamentos e que no final do dia, estão exaustos e dilacerados, simplesmente por exercerem um dever, que lhes foi outorgado.

50 minutos depois, chega uma dupla salvadora com uma urna, nova, ou melhor, a substituta. Em menos de 10 minutos está ligada e pronta para dar continuidade a votação.

Claro que uma senhora, é por que sou educada, mas a dita cuja tinha menos idade que eu, já se colocou na minha frente, e eu tive que lembrá-la que sua posição era atrás de mim… e ela ironicamente, disse, “eu sei… eu já estava indo”… sei… acredito em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa.

Chega um bombeiro, e ele se dirige ao final da fila… chamo ele, e dou minha vez, afinal o mesmo fardado estava de serviço e tinha prioridade…e o grupo sem empatia, começa… “eu também tenho que trabalhar” … “tem fila”…

Nessas horas é melhor se fazer de descolada da realidade e fazer cara de paisagem… não vale a pena…

Realmente… a gente reclama do nível dos candidatos, dos políticos, mas a gente mesmo não é capaz de ter uma postura compreensiva, elegante e sobretudo humana quando algo não está coerente com suas perspectivas.

Os políticos são nossos retratos e se temos inaptos nos cargos públicos, eles são a nossa representação.

Juro que na espera e frente a esse momento caótico, não tive como pensar, o Rio de Janeiro tem os políticos que o povo merece. Infelizmente, ainda são poucos os que de forma equilibrada e sensata buscam harmonia na convivência com o outro e respeitam o viver em coletivo.

Tomara que a simbologia que encontrei na antiga seção 774, nova 196, seja um exemplo negativo que está com os dias contados…e  que os resultados que saíram das urnas nos possibilite reconstruir tudo, principalmente, o estilo carioca de viver bem com todos, de forma pacífica e alegre.

Eu estou desacreditada… mas… quem sabe???


* Andréa Nakane é profissional da área de Eventos e Hospitalidade há cerca de 28 anos. Explora com sutilezas acadêmicas e humanas  os detalhes que fazem a diferença mercadológica entre simplesmente ser algo mecânico e ser algo repleto de peculiaridades que vão muito além da razão, pois envolve emoções.

É diretora da empresa de eventos Mestres da Hospitalidade. Escreve para o DIÁRIO desde 2010.

 

 

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Andréa Nakanehttp://www.mestresdahospitalidade.com.br
Andrea Nakane é professora, educadora e sócia da empresa Mestres da Hospitalidade.

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