Alvorada em Angkor Wat – Crônica de Osvaldo Alvarenga*

Fomos a Siem Reap para conhecer os templos de Angkor e descobrimos uma cidade encantadora, a melhor culinária do sudeste asiático e também a mais barata. Angkor você conhece de fotos, ou do cinema: a capital do império Khmer; abandonada e esquecida na floresta desde o final do séc XVI. Todo mundo conhece. Foi cenário e inspiração para vários filmes. A colonização da Indochina pelos franceses, no séc XIX, revelou-a para o ocidente. Em 1992 a UNESCO declarou Angkor patrimônio da humanidade. A imensa área coberta de vegetação, templos e ruínas é impressionante. É deslumbrante.

Chegamos num dia quente de dezembro, e quente ficou a semana toda. Siem Reap é plana e espalhada. Uma grande avenida, cheia de resorts, liga o aeroporto à região mais turística. Como em toda a Ásia, motos e tuk-tuks predominam nas ruas. Há também muita bicicleta. Nos programamos para cinco dias na cidade e portanto tínhamos tempo para ver tudo com calma. O dia da chegada seria dedicado a fazer o reconhecimento de área; estávamos na estrada há mais de uma semana, viajávamos com mochilas leves e era hora de lavar as roupas. Na pousada em que ficamos eles lavavam, mas a Iêda fez questão de achar ela mesma um local que lavasse e contratar o serviço sem intermediários.

Caminhada concluída, conhecido o mercado central, a Pub Street e o que estava próximo à pousada, já não havia outros pontos turísticos dentro da cidade para conhecer. Na verdade havia, museus e atrações outras que não nos chamaram a atenção. Cinco dias talvez fosse muito, mas nossa longa viagem pelo sudeste asiático permitia percorrer sem pressa os lugares que escolhemos passar. Na mesma manhã da chegada, visitando uma das muitas agências de turismo espalhadas por ali, ficamos sabendo que havia um circo cambojano que se apresenta em Siem Reap.
Phase, The Cambodian Circus, não é um circo qualquer. É uma organização para educação e formação artística de crianças e jovens carenciados. São vários espetáculos que se revezam ao longo da semana. Assim, quem fica em Siem Reap os três dias recomendados para percorrer os templos em Angkor, pode também assistir aos shows durante a noite. É claro que nós fomos e gostamos muito. São espetáculos alegres, bem humorados, ingênuos. Difíceis também, lógico, é um circo! E esse, felizmente, sem animais.

As pessoas chegam o mais cedo possível para garantir a vista mais espetacular, mas o sol não tem essa pressa e nasce quando quer, na hora que calha (Crédito: Osvaldo Alvarenga)

Clima de Festa e Expectativa

Os três dias seguintes foram dedicados às ruínas e templos, e fomos também ver o alvorecer em Angkor Wat. Ainda na madrugada, turistas de todo o canto do mundo vão se juntando à frente do templo. Percorrer na noite escura o caminho e encontrar, antes do lago, o melhor ponto para apreciar as luzes e sombras do nascer do sol é parte do programa. Então, a espera. As pessoas chegam o mais cedo possível para garantir a vista mais espetacular, mas o sol não tem essa pressa e nasce quando quer, na hora que calha. Enquanto espera, a maioria conversa, uns calam e observam, outros tomam o café da manhã, tem gente que paquera. O clima é de festa e expectativa. Ouve-se vozes ao longe. Línguas estranhas e conhecidas. Um americano distante resolve fazer graça, dizer alguma coisa em voz alta para a multidão. Um carioca anima-se com a brincadeira e revida, em português; parece que mais gente riu. Somos tantos lusófonos assim? Descubro que o rapaz que está ao meu lado é português, ele vê que sou brasileiro. Reconhecidos, passamos a conversar na nossa língua. O sol ainda vai longe. Fotógrafos ajeitam câmeras. Testam a iluminação. Aos poucos as pessoas se aquietam, estão todas postas nos seus lugares. Vizinhos de espera conhecidos. As câmeras apontadas: em tripés; improvisadas no chão sobre a pedra; na barriga, presa ao pescoço. Nas mãos os celulares prontos para as selfies. Agora é com o sol.
Aos poucos, o vulto do templo. Já é possível reconhecer seu desenho. Atrás das torres um céu ligeiramente anil; é o sol vem. Poucas nuvens no céu. O lago à nossa frente começa a refletir as torres do Angkor Wat. Agora, lá atrás, à direita do templo, o céu é laranja. Fotos, cliques, suspiros, murmúrio, agitação, um grande espetáculo está em curso e todos ali querem registrá-lo ao seu modo. Todo o templo está refletido na água: “veja essa foto, consegui pegar toda a imagem no lago.” O que é real e o que é reflexo? O céu passou do laranja para o amarelo e então azul, o sol surge atrás de uma das torres. Novos cliques. Mais agitação. Há quem feche os olhos para sentir a luz no rosto. É que não é só ver. É ver, mas é sentir a brisa no corpo, o friozinho da manhã, o cheiro do mato, do perfume e até do café; ouvir o sussurro da multidão que quer abafar o chilreio dos pássaros, agora acordados pelo alvorecer; sentir a agitação das pessoas e perceber tudo que está à volta… Muito rápido o sol já vai alto, longe das torres. Porque tão rápido? A luz agora é outra. Tripés e câmeras guardadas. Hora de explorar o local e conhecer o templo por dentro.
O povo kmer é bonito, simpático e atencioso. Siem Reap parece uma comunidade, um grande ashram, cheia de estrangeiros que escolheram a cidade como morada temporária. Por alguns meses. Tantos bares e badalação noturna. Tão simpática. Comida tão boa. Tão barata. Mesmo nos restaurantes mais sofisticados – e os há e não são poucos. A Pub Street ferve a noite. A cidade é jovem e convida para a festa. Pena na hora de ir embora. Ho Chi Mim é o nosso destino.
Na próxima vez, quero conhecer o litoral do Camboja. Dizem que é lindo e sem a confusão das ilhas tailandesas.


Sobre o articulista: 

Osvaldo Alvarenga, tem 54 anos, reside em Lisboa e escreve para os blogs: Flerte, sobre lugares e pessoas e Se conselho fosse bom…, sobre vida corporativa e carreira. Atuou por 25 anos no mercado de informações para marketing e risco de crédito, tendo sido presidente, diretor comercial e diretor de operações da Equifax do Brasil. Foi empresário, sócio das empresas mapaBRASIL, Braspop Corretora e Motirô e co-realizador do DMC Latam – Data Management Conference. Foi diretor da DAMA do Brasil e do Instituto Brasileiro de Database Marketing – IDBM e conselheiro da Associação Brasileira de Marketing Direto – ABEMD, dos Doutores da Alegria e, na Fecomercio SP, membro do Conselho de Criatividade e Inovação.

 

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