Artigo: “Nos confins de Pirauá”, por Thomas Bruno Oliveira

Autor continua a série que retrata suas impressões em viagens pelo Nordeste brasileiro, dessa vez na Serra do Pirauá, na Paraíba

 

Por Thomas Bruno Oliveira

 

Há pouco mais de oito anos integrei uma equipe aventureira que viajou em expedição para o município paraibano de Natuba, distante 65km de Campina Grande. Dias antes, os amigos Dennis Mota, Lúcio Farias e Elnathan Monteiro tinham visitado um sítio arqueológico com pinturas rupestres na Serra do Pirauá e contaram maravilhas do lugar. Não perdemos tempo e com a curiosidade aguçada montamos a equipe que foi composta dos pesquisadores Prof. Juvandi Santos, Prof. Vanderley de Brito, Dennis Mota, Marcus Barboza (que da França veio visitar familiares) e eu. Mesmo acostumados com o rigor de tortuosas caminhadas em anos de pesquisas, Dennis alertou: – Preparem-se. É pesado!
Essas inscrições vistas por eles ornam um paredão de pedra em um dos penhascos do imbricado relevo da Serra do Pirauá, cordilheira que é na verdade um dos esporões do majestoso Planalto da Borborema, zona limítrofe entre Paraíba e Pernambuco. Por ali surge o riacho da Pintada; seria esse nome em homenagem às inscrições?

Meados de junho, chuvas regulares na região e a comarca das pedras do amigo Hildeberto Barbosa se escondia em densos arvoredos, uma mistura agreste de caatinga com mata atlântica exuberante. Passamos pelo balde de Acauã que recolhia muita água, marcando presença e embelezando a paisagística, envolvendo grotas, serrotes e todo aquele relevo salteado de mata e rocha, se perdendo mundo a dentro. Ali próximo, n’uma vila operária esquecida pelos antigos construtores da barragem, já no sítio Melancia, passamos por uma porteira que guardava em seus pés os últimos rastros de caminho. Até ali nenhuma dificuldade. Dali em diante nenhuma vereda, nenhum caminho certo. Tínhamos que vencer a vegetação, o calor úmido as subidas, espinhos e tudo que viesse. Adiante, a imponente Cordilheira do Pirauá formava extensos vales no horizonte, ganhando a paisagem num tom verde em oposição a mescla azul e branco do céu, paisagem bela e desafiadora.

No caminho alguns serrotes dificultavam a viagem, sua ascensão era impossibilitada pela densa vegetação, o jeito que tinha era contorná-las, aumentando em mais de duas vezes o trajeto. O Agreste pulsava mais forte com as recentes chuvas, não raro víamos pequenos charcos, dificultando o caminhar e causando mais cansaço. Contornamos os benditos serrotes seguindo o curso do riacho da pintada, da mesma maneira que os curraleiros fizeram ao conquistar essas terras, os rios eram os caminhos, as entradas. No curso das águas, subíamos cada vez mais, gargantas de pedra no leito do riacho aumentava o desafio; fizemos prudentes paradas para descanso, uma após outra, cada vez mais ineficaz. Numa destas, na margem, vimos boiando as vísceras d’um sapo, com aquilo entendi que o nome pintada deve vir das onças que perambulam em seu habitat (parda, suçuarana, preta…) e não das pinturas. Na terra úmida, mais adiante, vimos algumas pegadas felinas, todos em alerta!

 

As pinturas nas rochas (Foto: Thomas Bruno Oliveira)

Pinturas ancestrais

Andamos muito, atravessamos o riacho algumas vezes até começarmos a encontrar pinturas ancestrais, elas se espalhavam por pelo menos quatro formações rochosas, todas tocadas pelas águas que desciam serra a baixo. Contornamos uma elevação até entrar em um dos grotões da cordilheira; subida difícil, cada vez mais íngreme, até chegarmos a uma grande formação rochosa formando um aprazível abrigo. Tínhamos andado até ali pelo menos uns 6 km mata a dentro, a referência da porteira se perdera no horizonte, mas estávamos ali! A pedra media pelo menos 20m de largura por igual altura e recolhia em sua face um grupo de inscrições compondo um extraordinário painel rupestre de 17m de extensão e todo composto de representações “naturalistas” de diversos animais da fauna do semiárido.

 

A riqueza de detalhes anatômicos é tamanha que foi possível identificar a maioria das pinturas deste impressionante painel, uma verdadeira selva composta de aves, roedores, felinos, macacos, etc nas cores vermelha, preta e amarela em diversos tons.

Me impressionou ver uma figura humana de pernas e mãos abertas como que a acoar um cervídeo com suas galhas bem definidas. Aquele complexo de testemunhos ancestrais me fez viajar no tempo. O que queriam dizer com essas inscrições? Seria parte de um ritual para êxito na caça ou a exemplo de um quadro negro o ensinamento aos mais moços de como deveria proceder? Questões que somem na bruma dos tempos em tintas indeléveis milenares.

 

Thomas Bruno Oliveira é professor, historiador e jornalista. Mestre em História, especialista em História do Brasil e da Paraíba. Também é colunista mensal da Revista de Turismo e colaborador dos jornais A União e Contraponto e sócio do IHCG, IHGSB, IHGC, IHGE, IHGA, da Abrajet-PB e da Sociedade Paraibana de Arqueologia – SPA. Oliveira é pesquisador do NUPEHL e colaborador externo do Laboratório de Arqueologia e Paleontologia da UEPB.

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