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Como a hospitalidade se faz com um “avuado”, em Joanes, no Marajó

REDAÇíO DO DIÁRIO (De Salvaterra, Marajó)

A solidariedade do povo marajoara é fora da curva. Por viverem em um ambiente farto em água, sol e vento transferem às pessoas que lhes visitam essa generosidade. Em nosso primeiro dia no Marajó, fomos conhecer Joanes, o vilarejo mais antigo da ilha. Lá, paramos primeiro na praia do Cururu e conhecemos o pescador Bidi, que acabara de chegar do trabalho. “Já almuçaram”?, perguntou assim, na lata. “Não”, respondemos. Ele voltou ao barco e trouxe uma renca de mais ou menos umas cinco pescadas recém-capturadas.

“Vamos fazer um avuado”, disse assim, naquela linguagem caiçara como se tivéssemos um tradutor do lado. Mas ele, gentil, explicou: era o  peixe feito ali, na brasa, na hora, com limão e sal.

Como ventava muito, fomos convidados para a casa dele. Seu Bidi mora com a esposa no alto de uma encosta que dá na praia, a pouco menos de cem metros do mar, onde ele e seus amigos pescadores ancoram os barcos.

É nessas naus que Bidi pesca seu sustento dia e noite, dependendo da maré marajoara. Além de alimento para consumo próprio e servir convidados como nós, os pescados são levados por ele ao Mercado Ver o Peso, em Belém. Lá, Bídi vende para comerciantes do lugar e revendedores, ou aos conhecidos atravessadores.

Mas dentro de sua casa a história é outra! Convidados só sentam ao redor da mesa e junto aos gatos, as galinhas e o galo, assistem  Bídi lavar e limpar o peixe. O avuado do dia será das cinco pescadas. Com dois cortes precisos, retira a cabeça e abre a barriga do peixe tirando a barrigada. Depois, retira alguns espinhos, lava e prepara um filé à moda da sua casa. Tempera a carne apenas com limão e sal. Aí coloca na brasa que já estava pronta para o uso. Segundo o cozinheiro pescador, não se deve retirar a escama do peixe porque ela tem um papel importante no cozimento. “Mantém a carne boa!”, justifica com sua simplicidade genial.

A mulher sai à janela e participa da prosa. A hospitalidade está completa quando ela prepara o café e nos serve. Pergunto sobre os filhos e Bidi, com orgulho responde: “Meu filho tá na faculdade. Estuda oceanografia na Universidade da Bahia”. O ciclo da vida está completo, pai influenciando o filho com o seu trabalho do mar.

É esse perfil de pessoas que encontramos no nosso primeiro dia no Marajó. Aptas para o diálogo e prontas para servir sem o hábito insepulto de querer sempre alguma coisa em troca.

*A equipe do DIÁRIO, composta por Paulo Atzingen, Ana Elisa Teixeira e Guilherme Ataíde, teve o apoio logístico no Marajó da Secretaria de Turismo do Estado do Pará

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