Como a Varig ajudou o Partido Nazista a espionar em solo brasileiro (1)

Por Alexandre Fortes* (Artigo autorizado, originalmente publicado no FrontDesk)


Novembro de 1939, Porto Alegre. Dois meses depois da Alemanha ter invadido a Polônia e dado início à Segunda Guerra Mundial, o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) do Rio Grande do Sul fez uma descoberta curiosa no Aeroporto São João. Um amontoado de caixas com peças para montagem de um equipamento rádiotransmissor de destino misterioso. Rastreando as peças em segredo, a polícia descobriu que foram levadas por um avião da Varig, para Rio Grande, no sul do estado. Foram apreendidas pela polícia antes de chegar ao navio a vapor alemão que estava detido no Porto desde o início da Guerra, quando o Brasil declarou neutralidade.

Um relatório escrito pelo delegado responsável pelo caso, Theobaldo Neumann, um ano depois, afirmava que o rádio ajudaria a informar os corsários e submarinos alemães sobre as movimentações de embarcações inimigas na costa sul do Atlântico. Nessa época, navios da Marinha Inglesa já estavam posicionados na região. No mês seguinte, eles seriam responsáveis por afundar o maior navio de guerra alemão, o Admiral Graf Spee, em uma batalha em pleno Rio da Prata, em Punta Del Este, no Uruguai. A primeira da Segunda Guerra.

O episódio do rádio levou a polícia diretamente a Otto Ernest Meyer, fundador e presidente da Varig, então a maior companhia de viação aérea comercial do Brasil. Durante dois dias ele ficou detido prestando depoimentos sobre seu envolvimento na instalação de um equipamento de espionagem alemã em solo brasileiro.

A Origem

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Descobri o episódio quase por acaso, no final dos anos 1990. Pesquisada a evolução e a decadência da industrialização da capital gaúcha e achamos no Rio de Janeiro, documentos que continham vários episódios das décadas de 20, 30 e 40 do século passado, envolvendo a segunda guerra mundial. Entre eles, o episódio esquecido da Varig.

Num dos documentos, estava o relatório do DOPS que acusava Meyer de ser filiado ao Partido Nazista. No seu depoimento no inquérito, ele dá uma resposta que é uma cortina de fumaça. Dizia que não era filiado ao Partido Nazista, mas era filiado ao Deutsch Arbeitsfront, o braço sindical do partido. Inclusive, a instalação do rádio foi uma determinação que veio diretamente da Alemanha e envolveu a Varig como apoio operacional para uma ação de espionagem, em território brasileiro, onde Meyer participou pessoalmente.

Piloto veterano da Primeira Guerra Mundial, como boa parte dos filiados ao Partido, filho de um oficial alemão que foi adido militar no Pacífico, Otto Meyer não parou no Brasil por uma coincidência. A criação de uma companhia de aviação civil também não era um mero sonho de um imigrante europeu na América do Sul, como a lenda de fundação da Varig contou durante anos.

A Missão

Nos anos 1920, as potências do mundo começaram seus projetos de aviação comercial. Os primeiros foram os franceses, com a criação da Aéropostale. Como viria a ser em todos os países, o envolvimento do Estado e das Forças Armadas vinha junto com a participação civil. Em todos os lugares, a aviação era vista como alvo de interesse militar em potencial e como algo importante para as relações internacionais, para expandir a influência do país no exterior.

No mesmo ano que a República de Weimar funda a sua estatal de aviação, a Deutsche Luft Hansa Aktiengesellschaft (mais tarde apenas Lufthansa), Otto Meyer e um grupo de veteranos da Primeira Guerra são enviados para a América do Sul. Cada um deles, com a missão de apresentar propostas de criação de companhias aéreas nacionais, com participação de empresários locais, que teriam a possibilidade de conseguir aviões alemães para começar o negócio. Além da Varig, a Pluna, no Uruguai e uma série de outras empresas, como na Argentina, Chile, Equador e Colômbia, foram surgindo com o mesmo modelo de origem e formando uma rede própria, o Condor Syndikat.

A Varig se tornou um instrumento de poder. O Rio Grande do Sul era o quarto estado mais importante economicamente, mas estava muito atrás de São Paulo, Rio e Minas (crédito: arquivo público digital)

Células Nazistas

Meyer desembarcou primeiro em Recife. O nordeste brasileiro era visto como um ponto estratégico para voos que ligassem o Velho Mundo e o Novo Mundo. O primeiro contato dele com a proposta de criação de uma empresa aérea foi a família Lundgren, que fez fortuna na indústria têxtil, dona das Casas Pernambucanas. De origem suecoalemã, os Lundgren eram conhecidos pelo envolvimento com o nacionalismo alemão. Depois da Guerra, viria à tona a participação deles na criação de células nazistas no nordeste, algumas abrigadas dentro das próprias fábricas do grupo, como em Rio Tinto, na Paraíba.

Mas além deles, Meyer não conseguiu maior apoio para sua idéia. Sua segunda tentativa foi em Santos, junto à empresa alemã Theodoro Wille, que nasceu com um imigrante de Hamburgo e desde o século 19 fazia comércio entre Brasil e Alemanha, exportando o café brasileiro para a Europa, importando de lá bens de consumo como louça, talheres, máquinas e produtos químicos. Esta também foi outra empresa alemã que, anos mais tarde, se descobriria, ajudou com a espionagem no Brasil.

O fracasso na segunda tentativa levou Meyer direto para Porto Alegre. A capital gaúcha de então tinha uma das colônias alemãs mais fortes do sul da América. Além de liderarem algumas das empresas mais importantes do Quarto Distrito, os alemães tinham sociedades culturais, participavam institucionalmente da política, tinham dois jornais diários publicados em alemão, um católico, outro luterano, e aqui a ideia deu certo.

A Certidão de Nascimento

Otto Meyer chega em Porto Alegre em 1926 com a mesma proposta que outros pilotos alemães repetiam pelo continente, em busca de sócios para um sociedade anônima e isenção fiscal. Em uma assembleia no Clube do Comércio de Porto Alegre, reunindo boa parte dos empresários da época, a maioria deles alemães, ele consegue o apoio que faltou nos outros dois locais. O governo do Estado o Estado do Rio Grande do Sul entra com 20% das ações. O Presidente Borges de Medeiros, positivista que sucedeu Júlio de Castilhos e cacicou o RS por 25 anos, acolheu entusiasticamente a empresa e a passaria para Getúlio Vargas no ano seguinte, o mesmo homem que quinze anos depois, como presidente nacional, declararia guerra à Alemanha de Adolf Hitler.

Dois anos depois da criação, Getúlio já colheria o trunfo de ter uma empresa aérea ao seu lado. No dia em que lançou sua candidatura à Presidência da República, pela Aliança Liberal, com um discurso histórico no Rio de Janeiro, na Esplanada do Castelo, Getúlio – que havia se desincompatibilizado do papel de Ministro da Fazenda de Washington Luiz para concorrer ao Catete – saiu do Rio Grande do Sul e voltou no mesmo dia, a bordo de um avião da Varig.

Um ano depois, durante a Revolução de 1930, a empresa estava pronta para operar como Força Aérea do lado gaúcho: Osvaldo Aranha, secretário de Interior de Getúlio, voou ao Uruguai junto com Meyer, para comprar metralhadoras que foram instaladas nos aviões. No fim das contas, eles não chegaram a entrar em combate, porque não teve luta.

A Varig se tornou um instrumento de poder. O Rio Grande do Sul era o quarto estado mais importante economicamente, mas estava muito atrás de São Paulo, Rio e Minas. Como essa empresa vai surgir justamente aqui? A economia gaúcha, por si só, não tinha atrativos ou poder para sustentar uma empresa de aviação, que chegou a se tornar internacionalmente importante. Isso aconteceu por conta dessas articulações políticas, do Partido Nazista Alemão e da colônia alemã.


*Alexandre Fortes é Historiador, foi Professor Associado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro na área de História Contemporânea, atualmente é Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRRJ.


Nota do editor: Leia a segunda parte do artigo na edição de terça-feira (15) do DIÁRIO DO TURISMO.

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