Como a Varig ajudou o Partido Nazista a espionar em solo brasileiro (2)

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O Boeing 747 da Varig (Crédito: domínio público)

Apresentamos aqui a segunda parte do ensaio produzido pelo Historiador, Professor Associado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro na área de História Contemporânea, e atualmente Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRRJ. (O texto foi originalmente publicado no FrontDesk do colaborador do DIÁRIO, José Justo)

Alexandre Fortes* 


O início dos anos 1930 foi de ascensão da Varig, enquanto o Partido Nazista ganhava mais e mais simpatia dentro de uma Alemanha em crise econômica. Em 1933, Adolf Hitler, veterano da Primeira Guerra como Otto Meyer, se torna Chanceler e o partido ganha a maior bancada do país. No ano seguinte, em 1934, já não havia mais República de Weimar e Hitler era o Fuhrer.

Nessa época, era difícil enxergar a linha que separava um patriota alemão de um nazista. O partido de Hitler contava ainda com a simpatia dos conservadores do mundo ocidental, como Henry Ford, que chegou a ser condecorado pelos nazistas. O nazismo era visto, por quem estava fora da Alemanha, como o regime que reconstruiu um país arrasado pelos efeitos da Primeira Guerra Mundial, da crise aguda dos anos 1920, que restaurou o pleno emprego, o crescimento econômico, o orgulho nacional e, acima de tudo, era anticomunista. Num mundo muito polarizado pela Revolução Russa, pelo avanço da esquerda ao longo dos anos 1920, há entre os conservadores, uma simpatia declarada pelo novo regime que surgia para combater as ideias que vinham da nova potência chamada União Soviética.

Na colônia alemã de Porto Alegre não era diferente. Fotos antigas da sede da SOGIPA (Sociedade de Ginástica de Porto Alegre), de um desfile de 1º de maio organizado no campo esportivo de AJ Renner e do aeroclube da Varig, mostram bandeiras com suásticas penduradas por toda parte. A bandeira do partido que havia substituído a bandeira
nacional. O evento de Renner, aliás, realizado em 1936, contou até com a participação do cônsul dos Estados Unidos no Rio Grande do Sul. Virada O quadro começa a mudar quando o Partido envia uma diretriz pedindo para intensificar a nazificação em entidades e órgãos compostos por alemães no mundo todo. A colônia de Porto Alegre racha. Muitos dos empresários não queriam se envolver com partido, nem romper com outros parceiros comerciais. Por exemplo, um vendedor de carros da capital que foi procurar o cônsul norte-americano para explicar porque não poderia mais vender marcas dos EUA. Segundo o homem, mesmo sabendo que seus clientes preferiam os carros americanos, a pressão do
consulado alemão para que ele vendesse apenas marcas nacionais era mais forte.

Em 1934, o próprio governo brasileiro – Getúlio Vargas como presidente e já de briga com Borges de Medeiros – assinou os Acordos de Compensação, concordando em exportar carne, tabaco, café, couro, algodão para a Alemanha, em troca de importar uma grande quantidade de manufaturados alemães. Um ano depois, Getúlio também assinou um acordo com os Estados Unidos, oferecendo concessões tarifárias aos produtos importados, em troca de liberação de tributos de exportações brasileiras.

Voltando às origens

De 1939 a 1943, Mayer dividiu-se entre o Brasil e a Alemanha, em vários vôos bate-volta a bordo dos aviões da Lufthansa. Como oficial do exército Alemão, Mayer voltou à Alemanha em 1939 e participou na campanha dos Balcãs e na operação Barbarossa para invadir a UNIÃO SOVIÉTICA. Em Abril de 1942, foi colocado no regimento de infantaria Großdeutschland. Esta duplicidade de atividades ele exercia sob segredo do governo
brasileiro que, mesmo sabendo de tudo, escondia o fato da população.

A situação muda em 1942. Durante cinco dias, seis navios mercantes brasileiros foram afundados na própria costa, deixando mais de 600 mortos. Todos atacados pelo mesmo submarino alemão, o U-507 (esses ataques foram realizados sob ordens e com a coordenação de Oto Ernest Mayer, com o uso dos rádios das estações costeiras da Varig).

Sob pressão popular, Getúlio declara guerra à Alemanha e à Itália. No Brasil, estava proibido falar em alemão e qualquer tipo de atuação política internacional ou vinculada a países estrangeiros. Mesmo assim, Meyer não obedeceu. Uma lista apreendida pela polícia política na sede do Partido Nazista, em Porto Alegre, mostra que ele continuou fazendo seu trabalho, alem de doações regulares, mesmo depois da proibição. E mais: aviões da Varig ajudavam a distribuir propaganda nazista pelo interior do estado, enquanto pilotos seguiam trabalhando para o partido. Um deles, Xavier Greiss, foi o responsável por ligar os nazistas
gaúchos aos do Uruguai.

Retaliação

Como resposta, o governo brasileiro faz uma intervenção federal na Varig, afastando Meyer do cargo de presidente. Em seu lugar, o mesmo Getúlio Vargas que ajudou a construir a empresa anos antes, colocou o ex-piloto Érico Assis Brasil. O novo presidente, porém, fica pouco tempo no cargo, porque acaba morrendo em um acidente aéreo na região metropolitana de Porto Alegre. A presidência fica então com um indicado do próprio Meyer, que seguiu no Conselho da empresa até sua morte em 1965, um funcionário (o primeiro a ser contratado após a fundação da empresa) chamado Rubem Martin Berta.


 

*Alexandre Fortes é Historiador, foi Professor Associado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro na área de História Contemporânea, atualmente é Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRRJ.


Nota da edição: A terceira e última parte do artigo será publicada na semana que vem no DIÁRIO DO TURISMO

 

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