Entre pesadelos e sonho – por Osvaldo Alvarenga*

“Se não é aguda, é crônica”; disse Rubem Braga, um dos grandes cronistas brasileiros. Hoje, escrevi um conto, um pequeno conto, uma peça ficcional que, não sendo aguda, também é crônica.

Nasceu de uma conversa de chacha num grupo de WhatsApp. A Maria Barral, mineira de Juiz de Fora, ia receber hóspedes em casa e, pensando no conforto deles, pediu ao grupo as nossas impressões sobre colchões de ar. Eu dei a minha opinião: respondi por que gostava pouco. A Andressa Barichello, curitibana de alma, cronista das boas, seu livro “Ter a escrita” foi finalista do Prêmio Jabuti no ano passado, riu muito e achou a nossa conversa literária demais, digna de crônica. Assim nasceu o desafio, ela a mim, eu a ela, de escrevermos uma crônica com colchão de ar – veja com quem eu fui me meter. A minha é esta aqui:

Entre pesadelos e sonho

O remédio desceu amargo. Deu duas piruetas sobre a língua antes de descer. Foi má ideia tomar Prednisona com chá quente. Ainda mais com a garganta, assim, fechada. Tudo por culpa daquele pêssego fora de horas. Mas, agora, medicado, há de ficar tudo certo, e a adversidade e o amargo na boca hão de passar.
Para quem tem amigos e família espalhada, se é casa mineira, sempre com muita visita, ter colchões de sobra para alguma emergência é parte dos costumes. Esta noite foi de emergência máxima. Não porque chegasse algum parente sem aviso prévio; o que não é corriqueiro, mas também não é raro. Coisa que nunca houve é essa tal reação alérgica por ingestão alimentar. Assim diagnosticou o médico na teleconsulta e passou o anti-inflamatório e, enfático, recomendou a ida urgente para o hospital – o que mais ele poderia recomendar, lá do outro lado da linha, ao paciente que reclama coceira na língua, garganta fechada, rouquidão, palpitação e ansiedade? Hospital, lógico! Depois do remédio e do chá, teimoso, sentindo que o quadro estabilizara, seguro de que pior não havia de ficar, em consulta ao Doctor Google, o detalhe que faltava para dormir tranquilamente: deitar com as pernas para cima para o sangue circular melhor nas partes altas do corpo.
A primeira tentativa foi na própria cama. As pernas pro alto na cabeceira estavam muito desconfortáveis. Primeiro porque, sem apoio, sustentar as pernas daquele jeito, naquela posição, exige algum esforço e, depois, porque a quina da madeira machuca o tendão de aquiles, quero dizer, aquela parte detrás da canela que, se não for o dito tendão, eu não sei o nome que tem. Deitar no chão com as pernas sobre a cama também não funcionou: cama alta e chão duro; a cintura levantada sobre as costas e o pescoço – “é impossível dormir assim”. Era preciso uma base mais alta e macia. O travesseiro e a almofada, ajeitados sob o corpo, foram insuficientes. Por fim, a ideia genial, a solução definitiva: no colchão de ar, inflado ao máximo para ficar bem alto, colocado junto à cama, deitar-se de costas com as pernas sobre a cama e dormir confortavelmente.
Procura no maleiro, embaixo e atrás de bolsa, pasta e mochila com rodinhas, não está. No chão do armário, atrás do calceiro, também não. Quem sabe, na caixa de arrumação debaixo da cama? Não. Na dispensa, abre espaço, retira balde, vassoura e rodo, tábua de passar roupas, ferro, aspirador de pó e ventilador e a batedeira que nunca usou; chega a outra caixa de arrumação onde encontra sacolas de plástico e de papel, plástico-bolha, caixas de papelão dobradas – “porque a gente guarda tanta porcaria?” –; olha ao fundo, no chão, na prateleira de baixo e na do alto, nada do colchão – “será que a Barral não me devolveu?”. Pensa melhor. Roga à São Stanislavski, memória emocional, lembra-se – “no armário do banheiro, foi lá qu’eu pus”. E foi mesmo. Estava sob a pia, lá ao fundo, quase escondido, bem guardado e organizado, ao lado a caixa com a bomba de ar.
A garganta está na mesma, nem mais fechada nem mais aberta. Raspa ao engolir a saliva, mas não fecha a passagem do ar – “parece que o remédio demora pra fazer efeito”. Incomodam mais as ondas de taquicardia, quando vêm, dão um desnorteio… – “Melhor ir logo pra esse hospital”. Mas não vai.
Encara o desafio. Observa as instruções. Encher o colchão exige algum esforço. A cada três gomos uma válvula – neste são doze –, que devem ser enchidos com a bomba de ar – esta é de pé. A mangueira da bomba acoplada à válvula, uma a uma, bombada por bombada, para, no final, regular a pressão e deixar todo o colchão cheio por igual. Para quem mora em apartamento, e se é madrugada, essa bomba de pé adiciona mais um problema: pisar com força naquele pedal faz barulho e incomoda os vizinhos de baixo. A essa hora, seria má ideia – “vou pra cozinha”.
Esticado pelo chão o colchão, entre a pia e a geladeira, a parte de cor anil, índigo blue, de PVC, para baixo e a parte cinza, de veludo, para cima. Encaixado o bocal da mangueira na primeira das quatro válvulas, não sei quantas mil bombadas depois, cheios os primeiros três gomos, é a vez da segunda válvula – “estou vendo a hora que o vizinho vai bater aqui na porta”. Mais tantas mil bombadas há sede, e a água desce com dificuldade, mas a palpitação cessou – “já tô quase bom” –, faltam ainda duas válvulas. Milhões de bombadas depois, a taquicardia volta mais intensa – “vou pro hospital”. Resiste uma vez mais. Espera – “acho que tô melhorando”–, falta só regular a pressão para deixar todos os gomos cheios mais ou menos iguais e tomar cuidado para não perder ar na hora de tirar e pôr o bocal da mangueira nas válvulas do colchão – “e já vou poder dormir”.
Desnorteado pelo mal-estar, irrefletida ideia, a proporção do colchão inflado na porta acanhada adjacente ao cotovelo estreito que faz vez de minúsculo hall e corredor de ligação entre cozinha, sala e quarto, rijo assim, o colchão não passa. Tenta na vertical… Não passa. É bloqueado pelo batente. Na horizontal também não, o colchão é mais comprido que o cotovelo e, largo, é difícil de manobrar. Empurra com força… não dobra. Com muita força… cansa até quase não aguentar. O coração vai à garganta e, a garganta apertada sente que falta ar. Sem saber se a aflição é de alergia, cansaço ou ira, resigna-se – “melhor eu ir pro hospital”. Chama um carro pelo aplicativo.
Com o celular na mão, confere a corrida: “em três minutos, Andressa, Renault Logan, final de placa 845”. À frente do prédio, findos os cumprimentos e as confirmações de praxe, sentado no banco detrás, ela arranca.
— Você é médico?
— Não.
— Cara de enfermeiro não tem… Você é enfermeiro?
— Não…
— Se não é médico nem enfermeiro e vai pro São José a esta hora, daí, só pode ser pra emergência!
— É sim!
— Você tá passando mal?
— Só um pouco, num é nada sério. Pode ficar descansada que eu num vô vomitar no seu carro…
— Que isso, não é essa a minha preocupação. É só pra saber o melhor caminho.
— Segue o aplicativo que dá certim…
— Não é bem assim, sabe? No caso do São José é, mas tem hospital que a emergência fica numa rua e a entrada de visitas fica noutra, daí, que eu tenho de saber…
Atordoado, não disse nada. Pensava na imbecilidade de ter perdido tempo com o colchão. O minuto de silêncio deve ter durado um século para ela:
— Você tá sentido dor?
— Não é dor. Tô meio tonto, e a garganta fechada. O médico disse que é um quadro de alergia, vai passar…
— Nossa! Tem gente que morre disso daí. É muito sério, sabia?
— Eu só preciso dormir…
— Capaz! Por que não dorme em casa?
— Porque tenho que pôr as pernas pra cima…
— Põe na cama, uê! Num travesseiro, na cabeceira…
— Já tentei. Tô a noite inteira por conta de brigar cum colchão de ar pra pôr no chão…
E ela ria, ria muito…
— Cê tá rindo de quê?
— Ai, desculpa. Tô rindo de pensar na pessoa dormindo e no colchão estourando!
— Esse seu jeito de falar, esse seu erre… essa fala, assim, tudo bem silabadinho… Você é gaúcha?
— Não — ela riu simpática — Eu sou curitibana, mas moro aqui faz um tempão; daí, já perdi muito do meu sotaque — e riu novamente —; aliás, perdi não, porque o paranaense não tem sotaque…
A conversa seguiu amistosa, acho até que rolou um clima, muita troca de amabilidades e até o telefone dela conseguiu; desculpa esfarrapada, disse que era para o caso de precisar buscar alguém no aeroporto ou na rodoviária. Ela percebeu a artimanha, mas ditou o telefone assim mesmo. E, na despedida, insinuante, em tom de brincadeira:
— olha, vou ficar esperando o seu telefonema, daí, se quiser, pode passar mensagem também que, pra você, eu respondo!
No hospital, bem não estava. De pé, com a senha na mão, na sala lotada sem lugar para sentar, enquanto aguardava ser chamado, sentia náusea, a garganta quase fechada e dificuldade de concentração. Ali, o roteiro é conhecido: senha, guichê, senha; espera, espera e espera; na triagem a pressão e a temperatura; para, finalmente, passar por cinco minutos pela médica (são quase sempre médicas), receber a prescrição para tomar ali mesmo o remédio.
Na enfermaria, que teve de achar sozinho, espera e aversão: no salão comprido e apertado, há macas, poltronas e cadeiras dispostas sem ordem aparente, e há banquinho para os pés e suportes para soro espalhados entre elas; há médicos assoberbados; há servidores que limpam o chão molhado de água, de urina e de sangue; há enfermeiros e enfermeiras que transpõem obstáculos, passam entre pernas, bancos e esfregões, correm de um lado para o outro, socorrem um desmaio aqui, um ferido acolá; e há polícia na sala, vigiam quem?; e há gente de mau aspecto, gente sentada e deitada, uns resguardados atrás de divisórias de pano azul claro, deitados em macas, a maioria deixada de qualquer jeito, por todo o espaço, sem nada para esconder o próprio embaraço; uns apáticos, alguns choram, outros gemem e há quem, indiferente ao entorno, puxe conversa, fale alto e ria. O coração a pulsar com força.
A cadeira escolhida para tomar o medicamento intravenoso, a mais próxima da entrada principal, a que sobrou vazia, não oferecia conforto. No saco transparente e quase vazio, colocado ao lado, acima, na altura da cabeça, um líquido incolor, soro e remédio, pingava devagar. Os olhos na tela do celular, tentavam fugir à visão do senhor à direita, seco, coitado, que agonizava sozinho jogado numa maca. Percorria com os dedos as mentiras, o ranço e as imagem nas redes sociais, mas o pensamento ia longe, rodava a cidade num carro de aplicativo. Difícil determinar a causa da angústia que sentia: desejo, alergia ou horror. Fora de compasso, o coração batia perto da garganta que, enfim, estava desimpedida – “oh, o remédio fez efeito!”
É alvorada quando deixa o hospital. Em casa, ao ver o colchão abandonado na cozinha, avalia a encrenca que será ter de guardá-lo, tirar completamente o ar e dobrá-lo de forma a fazer caber toda aquela maçaroca no saco plástico para, então, apertar tudo dentro da caixa, e, ao fim, esconder para sempre, colchão e bomba, num fundo de armário qualquer. Vê, espalhado no chão e sobre a pia, toda a tralha que tirou da dispensa para procurar o maldito colchão – “que ideia de jerico a minha!”. Direto para o quarto, adormece ao som dos sabiás-laranjeira, periquitos-verde e pardais-comuns. Dorme profundamente. Não sei dos sonhos que terá sonhando.

 

***

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Osvaldo Alvarenga
*Osvaldo reside em Lisboa e escreve para os blogs: Flerte, sobre lugares e pessoas e Se conselho fosse bom…, sobre vida corporativa e carreira. Atuou por 25 anos no mercado de informações para marketing e risco de crédito, tendo sido presidente, diretor comercial e diretor de operações da Equifax do Brasil. Foi empresário, sócio das empresas mapaBRASIL, Braspop Corretora e Motirô e co-realizador do DMC Latam – Data Management Conference. Foi diretor da DAMA do Brasil e do Instituto Brasileiro de Database Marketing – IDBM e conselheiro da Associação Brasileira de Marketing Direto – ABEMD, dos Doutores da Alegria e, na Fecomercio SP, membro do Conselho de Criatividade e Inovação.

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