Lívia Pereira dos Reis: Mulheres e suas mudanças de rotas

Na série ‘Mulheres e suas mudanças de rotas‘ buscamos perfis de pessoas que tenham mudado radicalmente suas trajetórias profissionais ao longo da carreira e da vida, mas temos verificado que essas mulheres guardam em sua essência  duas características marcantes: são determinadas e mantém intactos suas ligações com o seu berço, sua cidade e seu país.

REDAÇÃO DO DIÁRIO (por Paulo Atzingen)*

É o caso da baiana Lívia Pereira dos Reis.  Nascida em uma família de coreógrafos e artistas, filha de músico e trazendo nas veias todo o gingado e balanço próprios de dançarinos e amantes da capoeira, Lívia apostou na arte em seu início de carreira. Essa arte a levou ao Japão e lá viveu cinco anos formando a sua base da profissional que é hoje.   Graduada em gestão de negócios com ênfase em gerenciamento de pessoas pela Unipessoa, de Salvador, Lívia tem graduação acadêmica também em Gestão de Eventos pela faculdade Unijorge, de Salvador além do curso técnico em guia de turismo regional, nacional e Mercosul pelo colégio Maria Câncio de Souza, da capital da Bahia. Lívia é a única guia credenciada com o idioma japonês na primeira capital do Brasil. O DIÁRIO a entrevistou, acompanhe:

DIÁRIO – Conte sobre esse seu empreendedorismo ainda na pós-adolescência. Você foi buscar oportunidades de trabalho em São Paulo como produtora artística?

Em dezembro de 1991 fui convidada para passar o Natal em São Paulo, nessa época eu era aluna do Sesc Nazaré em Salvador, já atuando como dançarina de afro-brasileiro. Naquela época estava buscando uma oportunidade de trabalho para ajudar meus pais que eram bem humildes. Época que a dança, a capoeira era muito famosa lá fora e muito discriminada entre os familiares; meus pais falavam: “menina vá trabalhar de qualquer coisa mas dança não é coisa decente”. Enfim, sem permissão dos meus pais fugi de casa! Foi a melhor coisa que fiz! Em São Paulo vi uma grande oportunidade de mudança de vida.  Acredite se quiser … Falei para mim que só voltaria para Salvador com bagagem profissional e carreira constituída. Nesta época eu tinha mais ou menos 22 a 23 anos sem emprego e perspectiva de vida.

As cartilhas de aula de japonês de Lívia

DIÁRIO – Como surgiu a oportunidade de ir para o Japão?

Fui convidada a participar de uma audição por meio dos amigos da capoeira de Salvador, para o Japão. Eram mais de 100 candidatos de São Paulo, Rio e Minas e somente eu de Salvador! Fui uma das 10 pessoas aprovadas naquele seleção de audição promovida por uma empresa multinacional que já atuava no mercado de entretenimento no Japão. O projeto era formar uma companhia de dança, um grupo de artistas para viajar em uma turnê ao Japão. Acabei me apaixonando pelo país e fiquei trabalhando naquele destino durante cinco anos, com visto de artista autorizado pelo DRT de São Paulo sob n° 9577.  Voltava de seis em seis meses ao Brasil para renovar meu visto e retornava. Viver e trabalhar no Japão foi uma experiência ímpar! Voltei para o Brasil em janeiro de 1996.

A guia de turismo regional, nacional e Mercosul em atividade

DIÁRIO – Como foi essa volta?

Dessas indas e vindas, bateu a saudade da Bahia, dos meus pais e de meus irmãos. Já havia guardado um pouco de dinheiro e meu contrato chegava ao fim. Decidi voltar para Salvador e tentar uma nova carreira. Sou a mais velha de sete irmãos e quando voltei após o período de adaptação tive que recomeçar do zero…Entrei no administrativo de uma empresa em 1996 e fiquei até 2001. No decorrer desses anos fui promovida algumas vezes e saí como supervisora de RH. Quando saí, por vontade própria, queria fazer algo diferente, já que sou virginiana e busco sempre novos desafios. Nessa mesma época, aquele mesmo empresário que havia organizado e levado o meu grupo para o Japão me ligou perguntando se eu poderia receber uma turista japonesa, que chegaria a Salvador por aqueles dias. Acompanhei essa japonesa por cinco dias em Salvador junto com aquele empresário, que era fluente em japonês. Eles foram embora e me deu um estalo: por que não faço um curso de guia?

Me capacitei, me sindicalizei, e já naquela época uma agência me ligou procurando por uma guia que conhecesse Salvador e falasse o idioma japonês. Nessa época ainda estava me aprimorando, mas já entendia e de lá para cá são 17 anos de parceria com essa agência e como guia de turismo falando o idioma japonês.

DIÁRIO – Como foi esse processo de se credenciar como guia em idioma japonês?

Quando fui ao Ministério do Turismo me credenciar, disse que falava o idioma japonês. Como não havia nenhuma distinção oficial do ministério para essa qualificação, me adiantaram que para todas as agências que eu trabalhasse solicitasse uma declaração que falava o japonês. E assim foi. Várias agências me credenciaram. De seis anos para cá dezenas de presidentes de companhias automotivas japonesas ao virem para o Brasil me procuram para serem atendidos. É claro, que por razão da pandemia, essas viagens estão temporariamente suspensas.

Equipe de eventos e receptivo que Lívia coordena em Salvador (BA)

DIÁRIO – Sem japoneses, como você está trabalhando?

Estamos um ano em pandemia e quando ela começou as agências e as operadoras não ligaram mais, pois o turista desapareceu. Eu já era MEI (Micro-empresário individual) e só oficializei minha microempresa Pereira e Turismo e comecei a trabalhar o turismo regional. Mesmo após a pandemia, pretendo me aprimorar ainda mais e atender o turismo regional, com pequenos grupos locais, oriundos principalmente da Bahia e do Brasil.

DIÁRIO – Qual sua mensagem mais importante?

Eu queria dizer que para chegar até aqui as coisas não foram fáceis. Passei por muitas dificuldades para entender esse idioma e ser aceita na minha cidade e no meio da minha própria família e amigos; por ser baiana, por  nada ter a ver com japonês ou o Japão. Mas eu acreditei e fui fazer a minha carreira e meu nome. Minha história é de muita superação e abracei as oportunidades que me surgiram.

Livia tem sua MEI e atende diretamente ou por meio de agências e operadoras

Pereira Turismo e Eventos – @pereiraturismo


*Paulo Atzingen é jornalista

 

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