MINISTRO DO TURISMO: herói abatido em voo de cruzeiro?

por Fábio Steinberg*

Seja qual for o desfecho deste dramalhão de péssimo gosto patrocinada pelo governo federal em relação à troca do Ministro do Turismo, uma coisa é certa: a decisão não tem nada a ver com a visão estratégica para o setor. É puro jogo político que demonstra até que ponto o turismo anda desprestigiado no Brasil.

A mera cogitação de trocar o Ministro Vinicius Lage, um funcionário público com carreira técnica, por algum político carente de poder, enterrou a esperança de que desta vez o turismo seria tratado com seriedade.

A notícia que vier não chegará a ser uma surpresa. É uma morte anunciada. Inclusive esta pedra foi cantada com antecedência aqui em“Turismo, A Gata Borralheira do Governo”.

Ao menosprezar os fortes indicadores de satisfação do empresariado do setor com o trabalho adotado por Lage em sua curta atuação, lá se vai a oportunidade de entender de uma vez que turismo não é lazer, mas sim uma indústria que gera empregos e riquezas. E isto ocorre justamente em um momento em que a crise econômica bate à porta do país e não dá para dispensar renda. Ao contrário, exige criatividade e inteligência para ser contornada sem estragos.

Fica claro que a opção equivocada persiste. Ou seja, deixar a Política ditar as regras para a Economia, e não o contrário, explica porque o turismo no Brasil representa apenas 3,5% do PIB, enquanto a média mundial é quase três vezes maior.

Não que Vinicius Lage seja um ser excepcional, ou a salvação da pátria. Ele sequer teve chance ainda de provar algo. Mas não há dúvida que trata-se de um profissional decente, bem intencionado e ativo. Como aliás foi possível constatar publicamente em seu eventual canto do cisne, durante entrevista que deu durante o Fórum Panrotas no final de março deste ano.

Nos poucos meses de seu mandato tampão, que foi do apagar das luzes do governo anterior ao comecinho deste, ele ainda não conseguiu colocar a casa em ordem ou realizar o que almejava. Mas uma coisa é certa: depois de anos seguidos de desmandos de políticos desavisados à frente do Ministério, ele foi o primeiro mandatório a juntar o lé com cré neste setor tão carente de priorização oficial.

Lages tenta fazer o feijão com arroz em um país que sequer implanta um planejamento sério para o turismo, mas nem isto conseguiu. Por coisas como esta que o Brasil vem levando surras seguidas dos destinos internacionais, que recebem apoio de seus governos e atraem hordas de viajantes, inclusive brasileiros, para visitar seus territórios.

Fritado – ou torrado – sem dó nem piedade, morrendo e renascendo uma vez por dia entre os boatos de sua saída, Vinicius vai ser recordado, ganhe ou perca a parada, como um mártir. Sua história lembra a dramática Inês de Castro celebrada por Camões, aquela que foi sem nunca ter sido. Quem sabe um dia ele ganha um reconhecimento póstumo pelo seu papel digno, até heroico. Sem perder o prumo diante das flechadas políticas seguidas, agiu como um relógio em tempestade, que não se intimida com trovões, ventanias e enxurradas, e continua a funcionar como se nada tivesse acontecido.

Fábio Steinberg é carioca, administrador e jornalista. Tem três livros publicados: Ficções Reais, Ficciones Reales (espanhol), Viagem de Negócios e O Maestro. É fundador do blog Viagens & Negócios

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