No centro do deserto

“É inexplicável que estejamos vivos. Com a lanterna elétrica na mão subo pelo terreno para ver os traços do avião no solo(…). Encontramos as ferragens torcidas e as chapas de metal que se espalhou pela areia ao longo do percurso. Quando nascer o dia ficaremos sabendo que caímos quase tangencialmente numa escarpa suave, no alto de um platô deserto.”

por José Augusto Cavalcanti Wanderley*


Esse é o relato poderoso de um quase acidente fatal entre Saint-Exupéry e seu amigo e mecânico André Prévot, relatado no livro “Terra dos Homens” também escrito por Saint-Exupéry, autor de “O Pequeno Príncipe”. Sempre imaginamos as diversas dificuldades que os pioneiros da aviação se deparavam em seus primórdios, mas é difícil realmente entender uma situação de quase morte. “No centro do deserto”, é o capítulo que conta esse episódio, que faz referência ao termo que usamos para explicar uma situação difícil: “no olho do furacão”. Imagine-se tendo uma profissão fisicamente desafiadora, com um aparelho aéreo que ainda deixa muito a desejar, até mesmo para sua época, isso em 1936.

Mesmo diante de tantas dificuldades, Saint-Exupéry não tinha medo de sua missão, entendia muito bem seu lugar no mundo, talvez até não enxergasse que era pago para fazer como emprego, já que era apaixonado por voar, daí ter recebido seu eterno apelido de poeta aviador, visto que em todos os livros que escreveu, tinha como tema o “avião”, seus pilotos, seus perigos, suas alegrias, enfim, toda e qualquer sensação ao pilotar, até mesmo filosóficas.

Essa missão, iria rumo a Benghasi, segunda maior cidade da Líbia, situada na margem do Mar Mediterrâneo. Porém, acabam caindo no deserto que já era um lugar familiar para Saint-Exupéry, pois no final de 1920, havia servido a empresa Latécoère por 18 meses em Tarfaya no Marrocos, mas este acidente não se tornaria nada amigável, “presos” no meio de tanta areia, como o deserto da Líbia. O que parecia ser só mais uma missão se tornou uma espera interminável por socorro, que perdurou por vários dias com falta de alimento e tomando água imprópria do radiador de seu avião para sobreviver, e pasmem, a noite cavava um buraco na areia do tamanho de seu corpo para dormir, o que ajudava a se aquecer um pouco da temperatura extremamente baixa do deserto.

O que parecia ser só mais uma missão se tornou uma espera interminável por socorro, que perdurou por vários dias (Crédito: domínio público)

Por um momento, o piloto se conformou que sua hora tinha chegado, “joguei e perdi (…) o avião é um meio, não um fim. Não é pelo avião que se arrisca a vida.” Mas por um milagre – e não era miragem – um beduíno aparece vindo na direção dos dois pilotos perdidos. Trazendo água com ele, parecia um anjo trazendo a salvação. Ali não havia mais raças, nem línguas que os separavam, era a compaixão humana vindo os socorrer.

Esse acidente foi um dos cinco que Saint-Exupéry se envolveu, aliás o último foi fatal, ocorrido no Mar Mediterrâneo, em 1944, em missão militar pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial.

José Augusto Cavalcanti Wanderley
Colaborou: Jornalista Nicole Vieira


 

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