No tempo das rezadeiras – por Thomas Bruno Oliveira*


Sou de um tempo em que as rezadeiras ocupavam um lugar social muito importante em nossas vidas, eram pessoas que tinham sua importância, muito bem vistas, sobretudo nas pequenas cidades e zona rural. Nas cidades maiores, as vezes levavam a alcunha de “changozeiras” ou “catimbozeiras”, apesar de que por uma minoria que não acreditava nos seus poderes; tinham seu cotidiano tomado por visitas constantes de desafortunados e moribundos, ansiosos para curar suas mazelas. Quem reza, tem um coração enorme e a vontade grande de ajudar, em simplesmente servir. É uma vida de doação admirável. São pessoas que Deus põe um encanto e um dom da generosidade, só pode ser assim que elas trazem o conforto para muitas famílias através de suas mãos, orações, cânticos e fé.

É bem verdade que hoje o povo não tem muita crença nesse tipo de reza, infelizmente, e essas personagens mágicas da vida real estão cada vez mais escassas. Quando tinha cinco anos, tive o primeiro contato com uma rezadeira e seus encantos. Recém-chegado à rua em que ainda moro, tive mais uma crise de cansaço, enfermidade que me acompanhou por boa parte da infância. Sabendo que na vizinhança havia uma rezadeira, Dona Zefinha, minha mãe me levou para aquele ritual, visando minha melhora. Subi a rua com dificuldade, andando devagar até chegarmos a uma calçada comprida de uma bodega, a de Seu Joaquim (um dia falo sobre ele!), justamente esposo da rezadeira, na casa vizinha.

“– Dona Zefinha? A senhora está rezando?” disse Mamãe. – Entre minha filha. Voz que veio lá de dentro. Ao passar pelo portão, era como entrar em um bosque, as plantas eram inúmeras, jardim com hortelã, arruda, pinhão roxo e toda sorte de ervas. Fecho os olhos e ainda sinto aquele perfume. Era quase noite, outro portão escondia um pequeno terraço escuro, em seguida uma porta de madeira dividida ao meio. Foi quando vi aquela simpática senhora se debruçar na metade da porta: “Ou minha filha, foi você que veio morar ali embaixo vizinho a Anália num foi?”; – Isso mesmo, respondeu Mamãe.

Baixinha, cabelos brancos sempre amarrados para trás, um pouco envergada pelos anos, roupa bem alva e um cheiro de rosas. Falava em tom de cochicho. Alisa meu rosto e sorrindo pergunta o que tenho: – É cansaço Dona Zefinha… No jardim ela apanha uns galhos de mato, faz um chumaço, enquanto de boca fechada, deixa sair de sua garganta um cântico meloso; me leva para a sala e entre suas pernas (ela sentada numa cadeira), começa a rezar. De olhos semicerrados, a boquinha sem dentes fazia um bico misterioso e terno, e a reza em cochicho alternava esfregadas com os galhos em meus ombros e testa e o sinal da cruz, rebolando-os de lado, como a retirar os males. Em poucos minutos ela abre os olhos, olha para o chumaço e mostra a minha mãe sem nada dizer; vejo Mamãe balançar a cabeça em sinal de aprovação e o principal, nenhum sinal do cansaço. Àquela altura eu nada entendia, muito tempo depois que soube que até o pinhão roxo havia murchado. Na saída, ela disse a minha mãe que vizinho ruim é danado para ter olho gordo e botar mau olhado, “a gente vê todo mundo, mas o coração só quem vê é Deus”. Me deu um beijo na testa e um abraço, eu adorei. – Obrigado Dona Zefinha; – Agradeça a Jesus, ele que me dá a força para rezar. Junto com a molecada, vez por outra, íamos “curiar” Dona Zefinha rezando o povo. Guri vê fascínio em tudo, e aquilo era de difícil explicação para nós, era mágico.

Dona Zefinha: “a gente vê todo mundo, mas o coração só quem vê é Deus” (Crédito Matheus T. Bruno)

Anos depois conheci outras rezadeiras no Mundo-Sertão. Afeiçoado por essas figuras divinas, passei a observá-las. Seus olhares não são fixos em nossos olhos, raramente os são, sempre se perde no horizonte de um lado a outro. Quando quer dar a última palavra em uma conversa, é que olham fixamente, convencendo como um encanto. Nunca rezam de mãos vazias, para que aquela enfermidade não recaia em si, rezam sempre com galhos de mato e há alguns específicos para cada enfermidade. Muito comum o enfermo chegar com mau-olhado, cobreiro, peito aberto, dor de dente, ventre caído, espinhela caída, pereba, dor na titela, dor de veado, bicheira, erisipela, dor na moleira e muitas outras mazelas, hoje tudo tem o nome diferente… E com fé em Deus a cura é certa. Na Serra do Maracajá tinha Dona Elisa, que também rezava. Havia aprendido com sua mãe, que tinha começado o mister desde menina, iniciada por sua avó paterna. Uma longa geração que se perdeu com seu encantamento, ninguém mais novo quer aprender.

As mudanças na sociedade são inúmeras e, na verdade, não sei se vivemos em tempos melhores que aqueles, a tecnologia e a ciência puseram em cheque as experiências comuns, a visão da natureza; engoliu tudo, até as crenças. É como se vivêssemos em um mundo sem alma, literalmente virtual. Como era bom no tempo das rezadeiras…


*Thomas Bruno Oliveira é Historiador e Jornalista (3372-PB), Mestre em História, Especialista em Historia do Brasil e da Paraíba, – Pesquisador do NUPEHL e colaborador externo do Lab. de Arqueologia e Paleontologia da UEPB

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