O Conselheiro do Rei – por Osvaldo Alvarenga*

Há muito que Iêda e eu não assistíamos a uma série que nos prendesse tanto. Acabamos de ver a terceira temporada de Shtisel, seriado realizado para um canal israelense, ambientado em uma comunidade hassídica que vive nas proximidades de Jerusalém. A primeira temporada estreou no verão de 2013, sendo calorosamente recebida pelo público e aclamada pela crítica; angariou 11 dos 12 prêmios a que foi indicada no Israeli Television Academy Awards. No ano seguinte, a segunda temporada, foi um estrondoso sucesso.

O hassidismo é uma corrente do judaísmo ultraortodoxo pouco conhecida entre a maioria dos judeus, e ainda menos entre os israelenses seculares ou crentes de outras religiões. Os prêmios recebidos e a curiosidade em relação aos hassidim, homens e mulheres de pronunciada fé e invulgares costumes, inacessíveis para os de fora, provavelmente foram o estopim para o grande êxito do programa; mas não só. Penso que, sobretudo, o roteiro, os diálogos, cheios de metáforas, citações e poesia, o respeito no tratamento dos dramas, a sensibilidade na construção dos personagens e o humor inteligente foram determinantes para o sucesso. Com a distribuição na Netflix, o seriado estourou no mundo todo. Aqui em casa, depois da maratona de 33 episódios, estamos com saudades do Kive, de seu pai, Shulem, e de toda a família Shtisel.

Li, na década de 80, um livro do Osho, A Arte de Morrer, coletânea de palestras do guru indiano sobre o hassidismo; sempre, é claro, na interpretação bastante própria do mestre. Despertada a curiosidade, na mesma época, li um livro de um certo rebe, guia espiritual entre os hassídicos, cujo nome eu esqueci – ficaram no Brasil os meus livros e não posso, agora, consultar –, que pouco me entusiasmou e por isso esqueci o assunto. Ultimamente, mais livros, filmes e séries de denúncia à moral dos judeus ultraortodoxos têm surgido, mas são, geralmente, muito críticos ou caricatos. Shtisel, surpreende porque foge desse estereótipo e não julga. Certamente por isso, na comunidade hassidim, em Jerusalém, Nova York ou São Paulo, o seriado foi recebido com simpatia e encontrou recatada audiência.

Para os hassídicos, Deus criou tudo o que há, e tudo é de Deus, desígnio e obra Dele. Assim, tudo que existe e acontece é sagrado. O hassidismo propõe ao devoto a bem-aventurança da conexão com o Criador Infinito de forma direta em cada momento da vida, em tudo o que acontece, em tudo o que ele faz, vê e ouve, em todas as situações, ao longo de todos os dias. Para tornar a doutrina mais acessível, vários rebes ilustram seus ensinamentos com histórias. Às vezes anedotas, outras vezes recriam contos populares ou narram, de forma idealizada, passagens vivenciadas por eles ou por outros rebes. O sentido é sempre o mesmo: os enigmas e a presença de Deus em tudo. A tradição é antiga. Muitas são histórias que viajaram no tempo pela tradição oral, depois começaram a ser escritas e gravadas.

Em sintonia com os hassídicos, reconto, do meu jeito, um conto popular, centenário, contado e recontado com bastantes variações.

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O CONSELHEIRO DO REI

Era uma vez um rei gentio que gostava de conversar com um rabino que vivia algures em seu reino. A lucidez e o bom senso do religioso fascinavam o soberano e por isso, cada vez com mais frequência, o rei o convidava ao palácio e os dois conversavam livremente sobre todos os assuntos. A cada encontro crescia a admiração e amizade entre ambos.

O reino era muito extenso e o monarca empenhava-se em conhecê-lo. As viagens eram frequentes e a companhia do rabino indispensável. Com ele, o governante discorria sobre os acontecimentos diários e as impressões da viagem. Nessas conversas, o rabino, à sua maneira gentil e encantadora, empenhava-se em demonstrar como a providência divina manifesta-se em tudo o que há, insistentemente, conectando os eventos que se desdobram com a presença oculta e a benevolência de Deus.

Numa certa manhã, o rei e sua comitiva foram caçar. Como sempre acontecia, convidou o rabino para acompanhá-lo. Apesar de não ter nenhum entusiasmo especial por caça nem, como é fácil supor, traquejo com armas, o rabino aceitou o convite e mais uma vez acompanhou o rei. Chegada a hora, o rei insistiu para que o rabino também caças se. Sem jeito com a arma, o religioso atrapalhou-se e disparou um tiro acidental. O estampido, e, lá adiante, entre a vegetação, o grito amargo — Aiii!— ecoou por todo o reino. O rei estava ferido. O tiro desastrado acertou a mão direita do monarca e decepou-lhe, por inteiro, o real polegar. Sangrando muito, furioso, o déspota ordenou que prendessem o rabino imediatamente, e que o levassem para a masmorra, para o porão mais frio, fétido e escuro do palácio. E assim foi feito.

Com o passar do tempo, lentamente, a real ferida sarou. Mesmo que imprestável a mão sem polegar, o rei adaptara-se, promulgava com a canhota. Estava novamente forte e bem-disposto, pronto para retornar às viagens. Para marcar o evento, planejou uma excursão extravagante: ir ao ponto mais distante do reino, longe da civilização, na floresta mais desconhecida, onde poucos ousaram chegar.

Mal começou a viagem, o rei já sentia a falta do seu melhor conselheiro, seu amigo e mentor. Pensou nas conversas que teriam, nas descobertas que fariam juntos…

Chegado ao ponto mais ermo, o rei foi orientado a não deixar o acampamento, já que ali existiam nativos hostis, povos desconhecidos com costumes estranhos. Mas o espírito aventureiro do prócer levou-o a sair, queria ver com os próprios olhos aquelas pessoas. Embrenhou-se na mata, caminhou para o interior da floresta, queria estar só, estava só e foi capturado por canibais que o levaram para a cozinha; promessa de um grande banquete. Muito rigorosos com a alimentação, quando foram examinar a peça, ficaram frustrados ao descobrir que faltava um dedo ao exemplar. E não um dedo qualquer, fosse um mindinho do pé esquerdo, vá lá, mas o polegar direito, é muito. Descartaram a mercadoria próximo ao acampamento. O rei estava fora de perigo.

Radiante com o desfecho, o monarca lembrou-se das palavras do rabino, da mão guiadora de Deus em todas as coisas: “aquele disparo acidental salvou a minha vida!” Imediatamente mandou que se levantasse o acampamento; precisava de conversar com o amigo.

De volta ao palácio, o soberano libertou o rabino e o convidou para um jantar. Enquanto comiam e requentavam a velha amizade, depois de contar o acontecido, o rei perguntou: — Estimado amigo, agora eu consigo perceber como a providência divina me salvou, mas rabino, uma peça não se encaixa neste quebra-cabeça: injustamente, eu mandei que o prendessem, há um ano você está longe de sua mulher e de seus filhos, no frio e no escuro. Como a providência divina serviu a você? O que há de bom em tudo isso?

O rabino sorriu e respondeu: — Sua Majestade, se eu não estivesse na masmorra, nós estaríamos juntos naquela floresta, e eu teria sido o banquete dos canibais; D’us me proteja!

***

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