Por que as feiras de turismo 'esquecem' o mercado rodoviário?

por José Almeida, CEO do BuscaOnibus*

Ao longo dos últimos anos, tenho percorrido as principais feiras de negócio do turismo no Brasil e, em todas elas, percebo uma ausência importante: onde estão os players do mercado rodoviário? Por que as agências não oferecem também opções de pacotes com viações ou fretamentos? Será que o trade está acompanhando como deveria as novidades do setor, as startups e empresas digitais que estão desenvolvendo novos serviços aos consumidores?

Por mais que o rodoviário não tenha o “charme” do aéreo, ou movimente o mesmo volume de cifras, trata-se de um mercado importantíssimo para o desenvolvimento do turismo no país, especialmente porque nossa malha aérea é limitada às capitais e grandes cidades e há muitas atrações no interior em que a conexão com o transporte rodoviário é obrigatória.

Por mais que o rodoviário não tenha o “charme” do aéreo, ou movimente o mesmo volume de cifras, trata-se de um mercado importantíssimo

O Brasil é um fabuloso mercado no qual são transportados anualmente 80 milhões de pessoas e há quase 5,4 mil empresas operando neste setor. Mesmo com a popularização do aéreo ao longo dos últimos dez anos, o mercado rodoviário ainda responde por uma fatia importante: movimenta R$ 15 bilhões por ano e responde por dois terços do total de viagens interestaduais. Além disso, conta com uma grande capilaridade, atendendo 70% dos municípios brasileiros.

 

Nos últimos anos, notamos um movimento cada vez mais forte em direção à transformação digital no setor rodoviário. Há 10 anos surgiu o BuscaOnibus, que concentra informações de centenas de empresas de ônibus e facilita a busca por horários e preços de passagens. Em seguida vieram as agências de turismo online (OTAs) focadas no transporte terrestre, que ajudam os viajantes a comprar seus bilhetes sem precisar ir até as rodoviárias; mais recentemente, apareceram outras propostas com base no compartilhamento de serviços como o BlaBlaCar (carona), 4bus e Buser (fretamento).

 

Esse movimento tem também estimulado as viações tradicionais a entrar no ambiente digital de vendas diretamente ao consumidor; e por fim, há mudanças no ambiente legal, como a permissão às empresas para emissão de bilhete de passagem eletrônica e check-in online. Com essas ferramentas, as ofertas em compras antecipadas (descontos) estão sendo cada vez mais recorrentes, e hoje é possível adquirir um assento leito ou semi-leito pelo preço de um executivo/convencional. Além disso, há a modernização da frota e outros benefícios de serviços a usuários (como espaço interno aos passageiros, disponibilidade de wi-fi) que não era muito notado em outros tempos.

 

Ainda que uma parcela pequena do total de vendas de passagens seja feita online (cerca de 7% em 2018), a escolha e a compra digital dos bilhetes cresce 54% ao ano, somando uma movimentação em torno de R$ 1 bilhão (2017) e um total de 7,9 milhões de passagens vendidas no ano passado, segundo o estudo E-Rodoviário. Em grandes cidades, porém, este percentual é muito maior hoje: de acordo com algumas pesquisas internas entre OTAs e viações, praticamente metade das passagens com saída das capitais de São Paulo e Rio são vendidas online. Em outras capitais do Sul e do Sudeste, a média de compra pela internet supera 20% do total dos bilhetes emitidos.

 

No nosso caso, como uma plataforma de metabusca de informações rodoviárias, conversamos com todos esses players e temos acompanhado de perto, ou melhor, de dentro do mercado, toda essa evolução. Assim como os mais de 3 milhões de usuários que mensalmente utilizam nosso sistema, que integra dados de mais de 200 viações do Brasil e do Mercosul. Em resumo: o mercado rodoviário está em marcha acelerada de mudanças – mas quem passa pelas principais feiras de turismo do país pode não perceber nada disso.

Como mudar este cenário então?  

 

Acredito que seja preciso, em primeiro lugar, criar um match entre os players do mercado rodoviário e os organizadores de feiras turísticas. Promover mesas de bate-papo nos eventos, painéis com dados do setor, oportunidades de crescimento, novos modelos de negócio. Há um universo e tanto de informações e experiências a serem exploradas.

 

Por exemplo: roteiros turísticos como o caminho dos vinhos (serra gaúcha), são feitos majoritariamente por via rodoviária. De onde vêm os visitantes? Pelo aéreo, ele pode pedir uma carona, alugar um carro, ir em ônibus fretado ou ir diretamente à rodoviária. Há uma série de possibilidades multimodais de deslocamento.

 

Outra questão que interessa a todo o trade é: como atrair mais turistas/viajantes que, por uma série de fatores (medo de voar, questão financeira, longas distâncias e custos até os aeroportos), prefere o rodoviário?

 

E as agências que têm parcerias com empresas de transporte terrestre, ou integram esse transporte como parte dos seus pacotes, sabem o que está acontecendo neste mercado? Nos próximos anos prevê-se uma mudança radical na operação das empresas de viação e fretamento, mudanças também nas relações B2B e B2C. Se as agências não acompanham este movimento, em breve terão dificuldades para entregar pacotes completos aos seus clientes.

 

No caso das viações, OTAs e outras, elas também podem colocar em suas estratégias comerciais a presença nestas feiras, que recebem uma presença forte do trade público (secretarias de turismo, prefeituras etc.) e ajudar também a disseminar essas novidades que boa parte da população sequer conhece.

 

Somos uma plataforma de informações que há 10 anos acompanha esse setor e evoluiu com ele, operando com todos os modais disponíveis aos passageiros. O desafio da digitalização no mercado rodoviário – seja por parte dos players como também dos viajantes – é algo que já começou a ser vencido, e será cada vez mais um problema menor. O que falta, como um fator natural dessa evolução, é integrar este setor tão importante no ambiente de feiras de turismo e negócios.

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José Almeida, CEO do BuscaOnibus

Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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