Uma volta ao Mundo da Patagônia no Via Australis – I

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A visão de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, é deslumbrante ao anoitecer. (Crédito: DT)

Mar_jo_5_15“Quando o Mar jorrou do ventre da terra, quem foi que fechou os portões para segurá-lo? Fui eu que cobri o Mar com as nuvens e o envolvi com a escuridão. Marquei os seus limites e fechei com trancas as suas portas. E eu lhe disse: ‘Você chegará até este ponto e daqui não passará. As suas altas ondas pararão aqui.’ (Jó 38. 8-11)

Texto Paulo Atzingen, fotos Wanderley Mattos Jr.

15 ANOS DIÁRIOS – publicado em abril de 2015

(Ushuaia, Argentina)- As montanhas que circundam Ushuaia são decoradas por neves praticamente o ano todo. Neste outono não é diferente. Esta cadeia de picos gelados é uma espécie de moldura forjada há séculos que serviu de obstáculo para os ventos que chegavam da Antárctica e, por isso mesmo, influenciou os primeiros colonizadores a erguerem aqui a pequena vila de Ushuaia, depois transformada em capital da Terra do Fogo. A história oficial conta que este batismo “Terra do Fogo” se deu pelas fogueiras que os yamanas – primeiros habitantes daqui – faziam quando eram avistados, ao longe, pelos navegantes.

A viagem para o Cabo Horn e depois para Punta Arenas começa daqui, de Ushuaia. Após o checkin em terra, na sede da Cruzeiros Australis e o despacho das malas, sobra tempo para perambular pela cidade, comer um bife chouriço, ou fotografar o canal de Beagle de onde partem e chegam os navios para o mundo e para a Antárctica. A cidade tem uma ótima infraestrutura e recebe no próximo mês de setembro mais de 3 mil participantes do Intersky, congresso de snowboard e esqui que acontece pela primeira vez no Hemisfério Sul.

O Via Australis é um navio construído em 2005 e possui 64 cabines, podendo levar até 120 passageiros
O Via Australis é um navio construído em 2005 e possui 64 cabines, podendo levar até 120 passageiros

O ingresso ao navio, a recepção, a entrega do passaporte, tudo é feito sob a mais estrita disciplina e cortesia pelos tripulantes trilingues. A guia de expedição Mônica Rivero nos apresenta o camarote e nos avisa do coquetel de boas vindas e do jantar mais à noite.

“Este é o Cruzeiro 281, o último da temporada”. “Por que o último?”, pergunto-lhe.  “Porque a partir de agora, os dias vão ficando cada vez mais curtos e a claridade diminui bastante. Agora só cruzeiros em pacotes fechados”, nos informa a tripulante.

Espetáculo estático

A visão é deslumbrante ao cair da tarde e minhas retinas terão que ir se acostumando com isso. Do navio vejo as luzes da pequena cidade de 70 mil habitantes refletir nas águas do canal de Beagle e, mais ao alto, os últimos feixes de luz do dia iluminam a copa das montanhas de neve formando um espetáculo estático, paralisado, mas que vai mudando de tons à medida que a noite avança sobre o dia. Este dia 6 de abril, a temperatura era agradável e oscilava entre 9 a 11 graus.

Tripulação é apresentada pelo comandante Rodrigo Navarro
A tripulação é apresentada pelo comandante Rodrigo Navarro

Às 19 horas o navio zarpa de Ushuaia. O Via Australis é um navio construído em 2005 e possui 64 cabines, podendo levar até 120 passageiros. Este cruzeiro traz – como na maioria das vezes – pessoas de várias nacionalidades, de diversas culturas, crenças e modos de ver o mundo: alemães, belgas, espanhóis, americanos, chilenos, colombianos, e claro, brasileiros. Somos em cerca de 90 pessoas, além da tripulação, de 25 profissionais, em sua maioria chilenos e argentinos.

Na noite do primeiro dia o navio navega no canal de Beagle e atravessa a fronteira imaginária entre a Argentina e o Chile. O céu, espetacularmente limpo, serve para Victor Lopes, do departamento de expedição mostrar, com o auxílio de um laser-point, as inúmeras constelações e estrelas, já que saíamos do raio de luz da cidade. Círios de Canopus, Alfa Centauro, Beta Centauro, Orion, Cruzeiro do Sul, Três Marias…

Jantar à la carte

No jantar, o casal Roseli e Wellington Figueira senta-se em nossa mesa, uma das duas mesas reservadas aos brasileiros. Ela professora, ele otorrinolaringologista. São de Botucatu (SP) e programaram esta viagem desde a adolescência. São casados há 30. “Já viajamos muito de cruzeiros, mas este é o primeiro cruzeiro de aventura, de expedição”, afirma Wellington.

Garrón de Cordero sobre Puré Rústico de papa com Ciboullete
Garrón de Cordero sobre Puré Rústico de papa com Ciboullete

O jantar da primeira noite, como os jantares das próximas noites  serão todos à la carte. Um refinado serviço oferecido pela Cruceros Australis acompanhado de uma carta de vinhos chilenos. Nesta primeira experiência gastronômica na região mais austral do planeta tivemos que optar entre Garrón de Cordero sobre Puré Rústico de papa com Ciboullete ou  Merlusa Austral a la plancha sobre giso marisqueiro com toques de aji verde al fuego. Parada dificílima. A sobremesa, Crumble de Ruibarbo com su Helado de Vainilla.

Às 21h15 o navio chega às imediações de Puerto Navarino, onde pernoitará. Ancoramos. A volta ao mundo da Patagônia sai de seu limiar…

* O jornalista Paulo Atzingen viajou à Patagônia convidado pelo Cruceros Australis

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