A viagem e o viajar na obra de Guimarães Rosa

(por Sylvia Leite – autora do blog ‘lugares de memória’*)


No dia 19 de maio de 1952, o escritor Guimarães Rosa, ainda no início da carreira – mas já consagrado pelo livro “Sagarana” –, iniciou uma viagem de dez dias pelo sertão mineiro, acompanhando uma boiada do seu primo Francisco Moreira. Rosa não buscava apenas uma aventura: seu propósito era conhecer melhor a geografia, os costumes e a linguagem da região onde nasceu para escrever sobre ela com maior propriedade. O que ele talvez não soubesse é que aquela experiência seria um marco em sua obra e na Literatura brasileira. Quatro anos depois, a memória do que o escritor viveu nessa travessia foi imortalizada em seus dois livros mais conhecidos: “Corpo de baile” e “Grande Sertão: Veredas”.

Para mergulhar no universo sertanejo, o médico e diplomata fez questão de experimentar todos os aspectos da jornada de um boiadeiro. Dormiu em cama de capim e em forma de fazer rapadura; passou dez dias comendo, quase que exclusivamente, carne seca com toucinho, arroz, feijão e farinha; e perguntou o tempo todo. Cada coisa que via, ouvia ou sentia era anotada em uma caderneta que levava pendurada no pescoço.

Embora a boiada só fosse sair no dia 19, ele chegou à fazenda Sirga, em Três Marias, no dia 16, e prontamente iniciou as anotações. Ficou encantado com a paisagem, as pessoas e os animais, inclusive a besta Balalaika, em cima da qual posou para uma foto histórica. Admirou formas, cores, sons. Tentou decifrar o canto do sabiá. Dois dias depois, participou da festa que inspiraria a novela “Uma estória de amor”, do livro “Corpo de baile”.

Embora a boiada só fosse sair no dia 19, ele chegou à fazenda Sirga, em Três Marias, no dia 16, e prontamente iniciou as anotações

O grupo percorreu 240 km entre Três Marias e Araçaí. No primeiro trecho, considerado o momento mais difícil na condução dos bois, Rosa foi acompanhado por dezesseis vaqueiros. Vencida essa etapa, oito voltaram e apenas oito seguiram com ele. Nas fazendas onde fizeram pouso, Rosa conversou, dançou e até atendeu paciente. Tudo devidamente registrado na famosa caderneta, que foi sucedida por outra no meio do trajeto.

A relação mais evidente entre essa viagem e a literatura de Rosa talvez esteja no vaqueiro Manuelzão, que além de ter inspirado um personagem batizado com seu próprio nome, teve fatos de sua vida quase integralmente transpostos para “Uma Estória de amor”. Caso da capelinha que o personagem ergueu, a pedido da mãe, ao lado do cemitério, e da festa que marcou sua inauguração.

Manuelzão era o capataz que comandava a boiada e foi em sua casa que Rosa se hospedou nos dias que antecederam a jornada. Mesmo antes da viagem com Rosa, ele já era conhecido na região por sua simplicidade, sabedoria e respeito à natureza. Depois de ‘virar personagem’ de “Corpo de Baile”, tornou-se famoso nacionalmente, participou de programas de televisão, ganhou um Museu em Andrquicé – o distrito de Três Marias mais próximo à fazenda Sirga – e um festival batizado como Semana Cultural Festa de Manuelzão. Isso sem contar com inúmeras homenagens, com destaque para o projeto de revitalização do Rio das Velhas criado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que recebeu seu nome.

O exemplo de Manuelzão parece inigualável, mas a memória daquela viagem rendeu muitos outros personagens, ainda que de forma mais velada, transpostos do sertão para as páginas de Rosa por meio de engenhosas composições – seja distribuindo características reais entre vários personagens fictícios, seja reunindo em um único personagem características extraídas de diferentes figuras reais.

a memória daquela viagem rendeu muitos outros personagens, ainda que de forma mais velada (Crédito: Getty Images)

A experiência com a boiada lhe deu também inúmeras referências: geográficas, de flora e de fauna, de costumes, de lendas, de tipos psicológicos e até de negócios. A concentração mais expressiva dessa influência talvez esteja no “Grande Sertão: Veredas” que acabou se transformando em um marco na literatura brasileira, às vezes comparado – por sua inventividade em termos de linguagem – ao que representou Ulysses, de James Joyce, para a literatura de língua inglesa.

Embora se diga que, no “Grande Sertão”, Rosa mesclou informações reais com nomes, lugares e situações inventadas, há também quem acredite que essa suposta inventividade não é puramente ficcional. Mesmo não correspondendo literalmente a elementos reais, os nomes criados por ele teriam sido cuidadosamente arquitetados com base no conhecimento adquirido na viagem da boiada sobre a geografia, a cultura e o imaginário do sertão mineiro.

Tão rico foi o material colhido na viagem que, além do valor histórico – por ter respaldado uma obra tão importante -, as duas cadernetas revelaram ainda um valor literário e seu conteúdo acabou publicado em um livro** organizado pela curadora do IEB, Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos.

Como se não bastasse tudo que a viagem com a boiada proporcionou à construção do conjunto da narrativa de Rosa, o próprio conceito da viagem foi muito explorado em sua obra. O exemplo mais evidente disso talvez esteja na novela “O Recado do Morro”, que hoje compõe o segundo volume do livro Corpo de Baile***.

Como se não bastasse tudo que a viagem com a boiada proporcionou à construção do conjunto da narrativa de Rosa, o próprio conceito da viagem foi muito explorado em sua obra.

Nela, pelo menos duas viagens ocorrem paralelamente. A mais visível é uma expedição composta por cinco homens e motivada pelo desejo do naturalista estrangeiro Seo Alquiste, de observar e recolher material para estudos científicos sobre o sertão. O grupo tem como guia o personagem principal da trama, Pedro Orósio. A outra viagem, que vai se revelando lentamente ao longo da narrativa, é a trajetória do recado, emitido pelo morro e transmitido boca a boca por diversos personagens até chegar ao seu destinatário, o mesmo Pedro Orósio.

Durante o percurso, a expedição encontra personagens que além de servirem como arautos do recado – conduzindo assim, a viagem da palavra ao longo da história, que configuraria uma terceira viagem –, refletem, ainda, a jornada simbólica empreendida pelo personagem principal, que configuraria, então, uma quarta viagem.

Mas o “Recado do Morro” é apenas o exemplo mais evidente. Já em “Sagarana”, primeiro livro do autor, o tema da viagem aparece com força. No conto O Burrinho Pedrês, a viagem ocupa uma posição central, servindo como pano de fundo para o desenrolar da história. Em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, o tema aparece apenas em um pequeno trecho da narrativa, mas assume um papel fundamental pois o deslocamento do personagem truculento até a última terra que ainda lhe resta, depois de ser espancado e jogado do barranco, é um divisor de águas em sua vida – uma espécie de jornada rumo à redenção. E mesmo no conto “Sorôco, sua mãe e sua filha”, do livro Primeiras Estórias, cujo personagem central não sai da cidade onde vive, a viagem também está presente pois é um trem que leva sua mãe e sua filha para o hospício, a alguns quilômetros de casa.  O próprio “Grande Sertão: Veredas” é composto por uma sequência de viagens que os personagens fazem, a pé ou a cavalo, entre os pontos de pouso e abastecimento, algumas vezes sem conhecer o território que estão percorrendo.

Grande Sertão: Veredas. a obra maior de Guimarães Rosa (Reprodução)

As viagens físicas não são as únicas abordadas por Rosa, como já ficou claro quando falamos sobre “O Recado do Morro”. E no livro “Primeiras Estórias”, isso fica bastante evidente, especialmente em contos como “Pirlimpsiquice”, “Partida do audaz navegante” e “Nenhum, nenhuma”, em que o significado da viagem se localiza no plano da imaginação, seja pelo ato de contar, representar ou rememorar.

O que foi contado até aqui contribui um pouco para a compreensão do valor da viagem e do viajar na vida e na obra de Guimarães Rosa, mas a maior prova dessa tese, e sua maior explicação, talvez estejam em frases do personagem Riobaldo, do “Grande Sertão: Veredas”. Para começar, podemos pegar o momento em que ele diz: “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” Da mesma natureza, existem várias outras mas, para encurtar a conversa, basta lembrar que, na conclusão do livro, ao finalizar suas elucubrações sobre a existência ou não do diabo, Riobaldo resume o pensamento central de sua narrativa –  que parece estar presente em toda a obra de Rosa – em apenas cinco* palavras:  “Existe é homem humano. Travessia”.


*Consultoria: Renata Ribeiro e Rosa Haruco/ Colaboração: Clara Leite e Jane Neto

** A Boiada – Nova Fronteira, 2011.

***No simbolismo de várias tradições, especialmente as que usam o sistema decimal, cinco é o número do homem por ocupar a posição central e intermediária que, em última instância, é também a posição da viagem.


Referências:

A viagem em O Recado do Morro, de Ana Cristina Tannús Alves (UFMG), na Revista Estação Literária.

Viagens imaginárias em Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, de Maria Carolina de Godoy,


 

1 COMENTÁRIO

  1. O texto objativo e conciso de Sylvia resume bem a relação de G. Rosa com sua fonte inesgotável de inspiração – o sertão – e seu fascínio por tudo que lhe diz respeito: morros, águas, bichos, plantas, sobretudo o homem humano e suas travessias. 10 dias de viagem que se multiplicaram em viagens infinitas de encantamento e perplexidade de seus leitores crescentes ao redor do mundo.

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Sylvia Leite
Sylvia Leite
Sylvia é jornalista, com mestrado em Letras e doutorado em Filosofia, pela USP. Fez MBA em Comunicação Corporativa pela Fecap e especialização em Mídias Digitais pelas Faculdades Senac. Atuou cerca de 25 anos na grande imprensa, em revistas especializadas e em produtoras de vídeo. Atualmente trabalha com produção de conteúdo e, desde de 2018, escreve e edita o blog de viagens ‘lugares de memória’.

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