Crônicas juninas – por Thomas Bruno Oliveira

“OLHA P’RO CÉU meu amor, vê como ele está lindo…”, me arrepio todo. Começou a tocar o clássico de Luiz Gonzaga, a máxima expressão de nosso forró e festa de São João. Vejo o carro de som, uma Kombi montada com vários fones em cima e luzes fluorescentes davam o destaque, iluminando o final do arraial que também era alumiado com uma gambiarra de bicos de luz amarelas e o céu enfeitado de bandeirolas, um colorido que emocionava. Cada passo dado, o arrepio se acentuava. O medo de errar a coreografia e a ansiedade de ver a família causava um friozão na barriga. Para um garoto de 13 ou 14 anos, esse espetáculo é marcante. Naquele instante vamos entrar no arraial e exibir o que foi ensaiado desde finalzinho de março.

“Olha pr’aquele balão multicor, que lá no céu vai subindo…” e entro no arraial, com o braço direito dado ao meu par (cada ano era uma diferente), por um portal feito de palhas de coqueiro, tudo muito enfeitado, a sensação era de adentrar a um lugar sagrado, e por que não? Era sim, para todos nós, da puxadora da quadrilha aos meninos e meninas envolvidos, momento de desarnar, de perder o medo de se exibir em público, mesmo que coletivamente. Uma pequena multidão arrodeava o canteiro da festa, o arraial, eram mães e pais orgulhosos, amigos, amigas, um cipoal de gente, e nós nos apresentando para a nossa comunidade, sendo reconhecido: “olha, o filho de Roberto tá dançando com Elaine, ano passado foi com Pretinha”. Os pares, um atrás do outro, com suas roupas multicoloridas, seguiam em roda, no ‘passeio na roça’.

“Foi n’uma noite, igual a esta, que tu me deste teu coração”, e a quadrilha se desenvolvia em seus passos mais conhecidos. Íamos até o fim do percurso e cada casal ia para um lado. No meio do arraial, um vulcão de fogos exibia seu brilho. Naquele momento, enquanto a ansiedade batia ainda forte no coração, procurava a família e conhecidos nos limites do arraial. Palmas e gritos anunciavam nossos mais queridos: “Vira pra tirar um retrato!” e não era de nenhum equipamento digital, máquina com filme Kodak de 24 ou 36 poses, não podia falhar, mas de jeito nenhum!

“O céu estava, assim em festa, pois era noite de São João, havia balões no ar, xote e baião no salão…”, momento muito especial, os passos na quadrilha se desenvolviam. O primeiro alavantu e anarriê dava um desafogo, nos olhávamos e dava-nos um a um a força e o encorajamento.

“O céu estava, assim em festa, pois era noite de São João, havia balões no ar, xote e baião no salão…”, momento muito especial, os passos na quadrilha se desenvolviam. O primeiro alavantu e anarriê dava um desafogo, nos olhávamos e dava-nos um a um a força e o encorajamento. O ímpeto era amenizado, depois de um anarriê, vi onde estava Mamãe e minha torcida, parentes e amigos que quando sempre passava gritavam, batiam palmas e mostravam presença, encorajando e motivando aquele momento.

“No lume da fogueira de uma noite de forró, pé e chão, chão e pó, se amam como estrelas no azul no arrebol, paixão acesa como a luz do sol…” esse som do forró galope de Chiclete com Banana, bem acelerado, marcava nosso sentimento, dávamos os maiores pinotes, parecia que éramos energizados com aquela trilha sonora. Olha a chuva… passou! Alavantu, anarriê. Tá na hora da viuvinha… balancê. Ah que saudade… Na quadrilha éramos reconhecidos pela comunidade, o filho de fulana e de cicrano, a filha do padeiro, e todos ali irmanados vendo aquele espetáculo popular, um divertimento para muita gente que já não saía muito de casa, algo doméstico, bem regional e cintilando as nossas raízes, nossos costumes. Barraquinhas vendiam canjica, pamonha, milho assado e cozido, n’um clima junino que mais parecia a maior festa do ano, e era, e é. Aqui o São João é tudo.

Depois dos passos apresentados, a coreografia toda feitinha, para o orgulho de todos, estava na hora de se despedir. O passeio na roça era o adeus, o tchau, os meninos levantavam os chapéus de palha e saudavam os presentes, as meninas sorriam e balançavam os vestidos, missão cumprida. Sair do arraial era o momento de assédio, de euforia e alegria, vinha gente nos abraçar que sequer conhecíamos, alguns a elogiar, as paquerinhas passavam a me olhar e sorrir, outras vinham querer me conhecer, aquilo para mim era fabuloso e o assédio foi mais forte em dois anos que na quadrilha fui noivo, eitaaaaa, não quero nem lembrar…

“Eu quero ver pega-pega no salão é forró a noite inteira, é noite de São João…” e ali estávamos felizes, ainda em êxtase. O abraço de meus pais, as conversas com os amigos, ir para a frente de casa, curtir a fogueirinha, soltar fogos, comer milho e a vontade que aquela noite nunca acabasse… Noites juninas, viva São João!

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Publicado origalmente na coluna ‘Crônica em destaque’ no Jornal A União de 18 de junho de 2022.


*Thomas Bruno Oliveira é Historiador, Jornalista e Escritor. Mestre em História, Cronista do Jornal A União, Colunista da Revista de Turismo; integra vários Institutos Históricos, a Academia de Letras de Campina Grande.

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