Estrangeiro

Por Osvaldo Alvarenga

Foi em janeiro de 2020, de São Paulo para Lisboa, num voo tranquilo e sem surpresas, minha última viagem de avião. Quase um ano depois, fiz agora o percurso de volta. Desta vez, por economia, uma passagem comprada há seis meses, de Lisboa para Madrid, São Paulo e, finalmente, Rio de Janeiro.

A passagem original foi comprada de Lisboa ao Rio, com escala de duas horas em Madrid. Tantas vezes cancelada, tantas vezes alteradas as datas e os horários que, ao final, como única alternativa, viemos alguns dias antes do programado, com escalas de cinco horas em Madrid e outras três em São Paulo, para, vinte e três horas depois de sair de casa, chegar à castigada cidade maravilhosa; cartão postal e paradigma do Brasil.

Com essa pandemia, e depois de ler que num voo de seis horas e meia para Dublin duas dezenas de passageiros foram infectados, contrariando todas as pesquisas que garantem baixíssimo risco de contágio em avião, é natural que eu estivesse apreensivo. Primeiro por mim, depois por todas as pessoas que eu quero encontrar no Brasil; afinal, viajei para estar com elas. Preciso manter-me saudável, não posso infectar ninguém.

Não pretendia tirar a máscara durante os voos. Uma hora e meia de Lisboa até Madrid seria tranquilo. Na Espanha, antes de embarcar para o Brasil, comeria qualquer coisa no aeroporto. Com o estômago forrado, esperava dormir o máximo que pudesse na longa travessia sobre o Atlântico. Comida de avião é sempre ruim e desconfortável comer. Seria fácil resistir. O café da manhã faria em Guarulhos e o almoço, já combinado, uma feijoada ao ar livre no Rio.

Vazio o aeroporto de Lisboa, ainda assim, as lojas e restaurantes abertos. Não são tantos assim, o lugar é pequeno. A surpresa ficou para o Madrid-Barajas. O aeroporto deserto, quase todas as lojas fechadas e nenhum restaurante aberto. Grande e bonito, como tínhamos tempo de sobra, corremos toda a área iluminada do terminal 4 à procura de onde comer. Nada. Um único balcão com alguns sanduíches foi tudo o que encontramos. Eu, que não estava psicologicamente preparado para o longo jejum, comi o que serviram no avião.

Na viagem entre Lisboa e Madrid, a Iêda e eu, tivemos que dividir com uma terceira pessoa a fileira de três lugares. O avião não estava totalmente cheio e, aqui e ali, havia fileiras de três com apenas um passageiro. Mesmo atrás de nós, uma moça viajava só. Mudar de lugar está expressamente proibido. Entendo perfeitamente a razão. Mais difícil é entender porque não planejam melhor a distribuição dos passageiros no check-in. Por sorte, na viagem para o Rio, sentamo-nos sós em dois assentos próximos à janela. Voo lotado. Ainda que todos estivessem de máscaras, uns poucos com o nariz de fora, havia muita conversa para o meu gosto – sobretudo durante as refeições. Despidos das máscaras, para que tanta confraternização assim?

No Brasil é diferente. Aqui só os maricas ficam doentes. Entre São Paulo e Rio, uns tantos, muitíssimos, com as máscaras sob o queixo. Outros tantos com o nariz à mostra. No avião lotado, sentamo-nos ao lado de um covarde que, como a Iêda e eu, usava a máscara como deve ser. Mas à nossa frente, atrás e na fileira ao lado, bravos patriotas nos impunham a lição. Reclamei no desembarque com a comissária de bordo e, suponho, o comandante, ambos sorridentes à saída da aeronave: a gente fala, mas eles não obedecem… respondeu, sem constrangimento, a mulher. O homem, o comandante, manteve congelado o sorriso profissional. Disse nada. Eles correm maior risco. Estão nesse vai e vem todos os dias. Devem saber o que fazem.

Minas é o nosso destino final. Do Rio para cá viemos de carro, pela BR-040. Já fez uma semana. Pasmado, observo este país de machos. Sinto-me deslocado entre os meus. Sinto-me impotente. Sinto-me estrangeiro na minha terra. Preciso processar melhor o que vejo e sinto antes de dizer mais qualquer coisa.

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