Guillermo Alcorta, o embaixador do Turismo, fala ao DIÁRIO

A série Entrevistas Presidenciais iniciada em fevereiro deste ano mantém sua genuína característica do nascedouro: entrevistar pessoas com a profundidade de um alto-mar, com a leveza de uma crônica e com o frescor da novidade, daquilo que chegou agora. Fábio Steinberg, colaborador do DIÁRIO, nesta entrevista com o presidente do Panrotas, Guillermo Alcorta, traduz isso tudo com a habilidade do cronista e com a sensibilidade peculiar dos bons jornalistas. Acompanhe:


Adjetivos como quieto, sossegado ou acomodado definitivamente não fazem parte do dicionário de José Guillermo Condomí Alcorta. Ele é o fundador da Panrotas, publicação voltada ao mercado de Turismo, mas que se tornou carro-chefe de um rico ecossistema que hoje é referência obrigatória do setor.

Sempre um passo além das tendências, este dinâmico argentino por parte de pai e brasileiro pelo lado materno consegue com sua simpatia e competência representar o melhor das duas nações em uma só pessoa.

Em seus 83 anos, três irmãos, Guillermo tem uma trajetória de experiências altamente diversificadas. Nascido em Buenos Aires, estudou por 12 anos no Colégio Marista Champagnat. Lá deixou uma legião de amigos que até hoje se reúnem ao final de cada ano.

Não faltam aventuras em sua vida. Mal termina o colégio, faz parte de uma expedição no navio de guerra argentino ARA Murature em torno da Península de Valdez. Também, como hobby, mergulhou em Ilhabela, litoral de São Paulo, atrás do naufrágio do navio Príncipe de Asturias, que afundou em 1916.

Aos 18 estuda por um ano na Faculdade de Arquitetura. Insatisfeito, frequenta simultaneamente por dois anos Engenharia e Administração de Empresas.

A paixão por aviões faz com que, dois anos depois, durante o serviço militar obrigatório, opte pela Força Aérea Argentina porque já era piloto civil e de planadores. 

Pela origem materna, o Brasil é presença constante desde a infância. Costuma passar as férias de verão entre São Paulo, Guarujá e Rio de Janeiro, sempre ao lado da numerosa família brasileira. Tem primos à vontade. O avô, José Maria Whitaker, duas vezes Ministro da Fazenda, foi pai de 14 filhos – 3 homens e 11 mulheres. Por sua vez Guillermo teve três filhos, Maria Camilla, Marianna e José Guilherme, que lhe deram três netos.

Amigos de infância

É na presença no Brasil que Alcorta estabelece fortes vínculos de amizade que em 1971 irão aproximá-lo do setor de Turismo. Isto acontece graças a um reencontro nove anos antes em New York com dois amigos de infância que estudam no país. Um deles é herdeiro do Banco Andrade Arnaud, que o convida a comandar uma agência de turismo da empresa. A experiência dura quatro anos, até que o Banco Halles, que havia incorporado o Andrade Arnaud, sofre intervenção do governo federal.

Em 1974, contando com a vivência de mercado e suas necessidades e o relacionamento adquirido com as companhias aéreas, Alcorta identifica uma oportunidade de negócios. Observa que falta às agências de turismo um catálogo com horários e tarifas aéreas para os voos no Brasil. Nasce assim o Guia Panrotas. São tempos heroicos, em uma época em que tudo é feito à mão. Ainda não existem PCs, internet, e muito menos reservas online.

“Com base no sistema inglês ABC (“from-to”) de Pronta Referência, e minha familiaridade com matemática, engenharia e administração, passamos a publicar mensalmente a malha aérea dos voos com as tarifas, trecho por trecho”, recorda.

“No começo, as tarifas eram calculadas em uma máquina Olivetti com manivela. Os dados coletados nas companhias aéreas eram gravados em cartões magnéticos por duas máquinas de escrever MC82 da IBM. Duas operadoras para cada equipamento se revezavam nas inclusões, exclusões e modificações de trechos, horários e tarifas. Eu tinha extrema preocupação com a precisão, qualidade e atualidade das informações. Qualquer erro seria fatal”, continua.

Escondido na gaveta

Após um ano, o Guia Panrotas –precursor do moderno GDS – já conta com mil assinaturas. Mais tarde a empresa passa a fornecer tarifas domésticas para a United e American Airlines. Com sede em São Paulo e escritório no Rio, a equipe chega a 100 pessoas. Um acordo com a VASP permite ter representantes em todos os locais atendidos pela companhia aérea.

Apesar do sucesso, Alcorta não se dá por satisfeito. O faro apurado indica que há ainda mais frentes a explorar. Em visitas a agências de viagens, percebe que a maioria dos dirigentes, apesar de assinar o Guia, não conhece a publicação.  

“Descobri que o Panrotas ficava na mesa do emissor de passagens aéreas, muitas vezes escondido na gaveta. Funcionava como uma espécie de “arma”, como uma garantia de que só ele seria capaz de realizar a função”, diverte-se Guillermo.

É preciso fazer o Panrotas circular por toda a agência. É quando resolve agregar ao Guia uma parte editorial. Inclui textos e fotos dos donos e profissionais, com notícias e eventos do setor. A estratégia dá super certo. Com a decisão, a tiragem chega a 15 mil exemplares, com edições de até 400 páginas.

“É a época de ouro da publicação!”, comenta.

Diante da ótima repercussão ao incluir jornalismo no Guia, em 1977 resolve adotar o modelo no Congresso da ABAV em Curitiba. Surge assim o Jornal Panrotas da ABAV diário, com notícias do que acontece durante o encontro. Para isto é montada uma redação, laboratório fotográfico itinerante, e pré-impressão dentro do hotel onde a equipe está hospedada. De oito, a publicação chega nos anos a atingir 64 páginas. O sucesso se repete nos eventos dos quarenta anos seguintes.

Guillermo Alcorta (Crédito: Emerson de Souza – Panrotas)

Novos produtos

Ao final dos anos 1980, Alcorta cria outra publicação. Trata-se do Brazilian Overview, editada até hoje anualmente em inglês. Apresenta o país e sua indústria do turismo ao mercado internacional. Outro campeão de sucesso.

Sempre com um olho no futuro, o empresário percebe que a dinastia absoluta do papel está se extinguindo. Por isto, trata de fazer a transição para a internet. Cria assim em junho de 2000 o Portal Panrotas. Com atualização imediata, como os novos tempos exigem, o projeto se mostra mais uma decisão acertada. Hoje são 24 mil usuários únicos por dia, chegando a picos de 50 mil a até 100 mil visitantes.

Mas não para por aí. Com a preocupação em representar cada vez mais o setor e criar oportunidade de reflexão e atualização, nasce em 2003 o Fórum Panrotas. “São dois dias de inspiração e capacitação em um evento que permite avaliar tendências, repensar, e renovar – algo inédito e sem similar no mercado”, explica.

Falando em novos tempos, o fundador e Presidente da Panrotas não só prepara o filho José Guilherme, como o promove a CEO da empresa. Isto não significa que ele pensa em pendurar as chuteiras. Longe disso. Além da cabeça que fervilha com ideias, este argentino que se tornou cidadão brasileiro em 1997 é dono de um vigor físico invejável. No dia que conversamos, acabara de fazer uma caminhada de mais de três quilômetros pelas ruas de São Paulo, fato costumeiro em sua rotina. Mas ainda menos que os 7 quilômetros que costumam ser sua média diária.

Sem aposentadoria

Além disso, o seu amor por aviões, lugares e gente faz com que sua agenda esteja sempre repleta de viagens. Hoje pode estar em São Paulo, amanhã em Buenos Aires, no dia seguinte em Orlando para o IPW, e depois quem sabe em qualquer lugar do planeta que sua energia e curiosidade infinitas demandem.

Por isto, é impossível falar em aposentadoria para Guillermo. O seu afastamento da operação rotineira apenas libera mais tempo para fazer o que mais gosta: germinar novos projetos. Como por exemplo o Matcher, que surge em Fortaleza em 2019. “À parte da Panrotas, o evento pretende mostrar o Brasil, seus produtos e atrações a buyers internacionais. Eles chegam dos grandes mercados a nosso convite, para fazer negócios com fornecedores brasileiros”, ele explica.

Apesar do enorme sucesso, o Matcher teve que ser interrompido devido à pandemia e à situação internacional não propícia ao turismo. “Não perco as esperanças de que volte logo, assim que condições favoráveis permitirem”, diz ele.

Nem sempre o risco anda de mãos dadas com o êxito. Afinal só erra quem tenta fazer. A vida de Guillermo Alcorta é a melhor prova. Sabe que cada vez que uma porta se fecha, inevitavelmente outra vai se abrir. “Aprendi com os erros”, é seu lacônico comentário. É que prefere gastar seu inesgotável entusiasmo para falar sobre o que dá certo, e principalmente o que ainda virá por aí.

Com este perfil, nada mais natural que ele tenha se tornado de fato e por direito um embaixador do Turismo brasileiro. Este é o seu grande mérito. Explica-se: estamos falando de um trade que no Brasil se caracteriza por grupos fragmentados de interesse. O milagre da união só ocorre de verdade debaixo das asas de seu fundador, que até pode se confundir com a empresa que criou.

A maior prova de seu prestígio pessoal pode ser observada em qualquer feira de negócios de Turismo. Não há quem não queira dar pelo menos uma passadinha pelo estande da Panrotas. Seja para ser visto, encontrar pessoas, tomar um café, ou com um pouco de sorte ser fotografado ao lado do fundador.

Nada sozinho

Qual o segredo de tanto sucesso? “Primeiro, aprendi que não se faz nada sozinho. Sem cooperação e ser útil ao próximo, ninguém dá a mão”. Dito por qualquer outra pessoa, poderia soar como frase de efeito. Mas não quando se trata de Guillermo Alcorta.

Basta observar a equipe. São pessoas como Artur Luiz Andrade, editor-chefe das publicações, a Heloisa Prass, diretora de marketing, o Ricardo Sidaras, responsável pela parte comercial, o Ricardo Tsugawa, à frente do TI. Há ainda colaboradores de valor como o Artur Salvador Neto, que fez a parte técnica do Guia com imensa qualidade até deixar a empresa, ou o Emerson de Souza, que começou há 26 anos como office boy e hoje cuida das fotografias da Panrotas.  Em comum, todos caminham muito motivados ao lado de Alcorta por dezenas de anos.

Isto se explica por uma razão. Apesar do crescimento exponencial, a empresa se mantém familiar, mas de uma maneira sui generis. Graças ao toque humano e respeito profissional estabelecido pelo fundador, todos os participantes se sentem como parte dela. Isto ocorre seja por laços de sangue ou afinidade de objetivos, não importa.

A missão de Guillermo não é fácil, nem está concluída. Como ele próprio reconhece, as necessidades do Turismo no Brasil persistem. Falta à atividade ser efetivamente reconhecida junto ao poder público, por conta de sua força econômica, potencial de inclusão e geração de empregos.

Desafios fazem parte de sua história. É preciso não ter medo de errar ao tentar. Afinal, com muita observação, senso de oportunidade e boa dose de coragem, transformou a Panrotas de guia de horários e tarifas aéreas em empresa de soluções de comunicação, marketing e eventos para a indústria do turismo.

A inovação constante da marca nestas quatro décadas é uma das principais razões do sucesso. Como isto foi possível? Com a palavra Guillermo Alcorta:

“Nunca olhei o ineditismo como obstáculo. Pelo contrário. Isto sempre funcionou para mim como incentivador, porque é daí que surgem as grandes realizações”.

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