Mártires de Cunhaú: DIÁRIO visita local do massacre de católicos no século XVII

Quem curte turismo religioso sabe que é como andar de bugue nas dunas: tem com emoção e sem emoção. O DIÁRIO visitou o local do massacre de católicos no século XVII denominado Caminho dos Mártires Santos, no Rio Grande do Norte e constatou que se trata de um turismo religioso com emoção. Na verdade, foram dois massacres, o primeiro na Fazenda Cunhaú em 16 de julho de 1645 e o segundo  aconteceu três meses depois, no dia 3 de outubro, em Uruaçu, hoje parte do município de São Gonçalo do Amarante.

Por Paulo Atzingen, de Canguaretama (RN)*


Partimos às 8h30 do Praia Bonita Resort  na praia de Camurupim em direção à fazenda Cunhaú, onde fica a Capela de Nossa Senhora das Candeias, no antigo Engenho de Cunhaú e atual município de Canguaretama (RN ). Gasta-se em média 50 minutos de carro.

O clímax de nossa reportagem neste primeiro dia é antecedido pela visita ao Centro de Turismo Religioso, ligado à Paróquia Nossa Senhora da Conceição, um espaço construído especialmente para receber romeiros na semana que antecede o dia fatídico de 16 de julho daquele ano longínquo.

O guia de turismo Jorge Cesário de Oliveira Jr, o Júnior, explica o fato histórico

Nossa visita começou no Centro de Turismo Religioso, ligado à Paróquia Nossa Senhora da Conceição

Nossa visita foi acompanhada por vereadores da cidade e pela vice-prefeita Maria de Fátima Moreira. É necessário destacar o trabalho conjunto do município com os empresários locais para tornar o Santuário do Cunhaú um produto turístico religioso de ponta.

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Após a visita à capela, caminhamos cerca de 300 metros em direção à fazenda Cunhaú onde se ergue a capela Nossa Senhora das Candeias, local do morticínio.

“O ano era 1645, o dia 16 de julho. Aqui, cerca de 70 fiéis católicos participavam de uma missa quando soldados holandeses liderados por Jacob Rabbi (mercenário alemão era integrante da esquadra de Maurício de Nassau), junto com índios Janduis e Potiguares cercaram a capela, fecharam as portas e mataram todos os que estavam aqui, até o padre André de Soveral”, explica ao DIÁRIO o guia de turismo Caius Marcellus.

O guia de turismo, Caius Marcellus: ““O ano era 1645, o dia 16 de julho”

Contexto

Vivíamos a economia açucareira do século XVII e a capela ficava na fazenda de uma família rica, dona de engenho. Esta violência traduziu de forma clara como estava a relação de Portugal com a Holanda. Com o Tratado de Tordesilhas rolando, Portugal e Espanha concentraram o comércio e exploração do açúcar, fechando ou praticamente estrangulando os interesses econômicos da Holanda no Brasil. O guia Jorge Cesário de Oliveira Jr, explica:

“Maurício de Nassau mesmo diante do Tratado de Tordesilhas entre Portugal e Espanha,  ainda mantinha certo poder político e econômico no Rio Grande (como o Rio Grande do Norte era conhecido). Ele não foi o responsável pelos massacres, já que era um humanista e não um soldado”, contemporiza o guia de turismo.

A capela Nossa Senhora das Candeias

O interior da capela, local do morticínio

Segundo Júnior, a Companhia das Índias Ocidentais, que administrava a produção açucareira brasileira, passou a cobrar as dívidas contraídas pelos comerciantes, senhores de engenho e lavradores  originadas de empréstimos oferecidos durante o governo de Nassau (1637-44). “Ocorre que a cobrança das dívidas e o endurecimento da política holandesa no Nordeste motivaram a revolta dos luso-brasileiros. A partir de 1644 teve início o movimento para expulsão dos holandeses, tradicionalmente chamado de Insurreição Pernambucana.

Essa animosidade entre luso-brasileiros e holandeses desencadeou os dois massacres.

Vaticano aprova

Enquanto Caius Marcellus apresenta a estrutura da capela – que guarda as pedras da coluna central e a sacristia originais – é possível imaginar a cena triste e dantesca naquele 16 de julho de 1645. “Em verdade, o que é mais original aqui não são as paredes ou as pedras da coluna, mas a narrativa do que aconteceu no interior dessa capela”, dispara o guia-historiador.

E completa: “Nossa Senhora de Candeias entra na história não só do Vaticano, mas integra-se ao contexto do turismo religioso do Brasil”, prognostica.

Esse prognóstico de Caius tem como base a canonização de 30 novos santos brasileiros. Em decreto publicado no dia 23 de março de 2017, a Santa Sé incluiu os mártires de Cunhaú na lista de beatos a serem santificados. Com a decisão, os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro (morto três meses depois na matança de Uruaçu), junto a Mateus Moreira e outros 27 leigos, entraram no rol de adoração da Igreja Católica.


*O jornalista viajou a convite dos municípios de Canguaretama, Nísia Floresta, São Gonçalo do Amarante e Natal (integrantes do Roteiro Caminho dos Mártires Santos) com o apoio da Foco Turismo Receptivo.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Como é importante conhecermos mais um pouco da nossa história e sermos tambem propagadores dos novos conhecinenros adquiridos. .parabéns Paulo por nos proporcionar aqui um pouco de nossa história desconhecida por muitos

  2. Obrigado por nos proporciona assunto de grandioso interesse histórico pra nós.
    O enriquecimento destes fatos nos faz reviver nossa história, saborear de conhecimentos esquecidos, mais que por essa sua postagem, nos embriagamos no saber e na Fé.

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Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
PAULO ATZINGEN é jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará. Produziu reportagens na Amazônia sobre sustentabilidade, conflitos agrários e étnicos. Lançou em 1998 sua primeira revista, a PAYSAGE – dirigindo-a e publicando-a por três anos. Em Belém, foi repórter do jornal O Liberal, O Paraense e articulista do jornal A Província do Pará e Diário do Pará. É premiado contista, com três livros de ficção em prosa publicados via editais. Trabalhou como redator no jornal de turismo Brasilturis e fundou em 2005 o DIÁRIO DO TURISMO, o primeiro jornal On-line Diário de Turismo do Brasil. Atualmente desenvolve projetos de conteúdo editoriais e digitais para empresas privadas de hotelaria, aviação, companhias marítimas, destinos turísticos e biografias.

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