Um Enoturismo repensado para um Vale dos Vinhedos

O Enoturismo é um segmento da atividade turística que se baseia na viagem motivada pela apreciação de vinhos, seus sabores e aromas, mas também das tradições e a cultura das localidades que produzem esta bebida.

Por Werner Schumacher*


Este resumido conceito nos diz que essa atividade turística não se caracteriza apenas pela degustação de vinhos, mas também por inúmeros outros fatores que podem contribuir sobremaneira para aumentar a satisfação do visitante através de uma marcante experiência.

Devemos ressaltar que o Vale dos Vinhedos foi o embrião dessa atividade turística no Brasil. Através da criação de sua associação, a Aprovale em meados da década de 90 passada e, posteriormente, pela criação da 1ª Indicação Geográfica no país, a partir da qual inúmeras outras surgiram nos mais diversos setores da atividade econômica.

Graças a isso o Brasil é hoje um país com inúmeras rotas de vinhos com excelentes estruturas para atender, principalmente, o turista apreciador de vinhos.

Com a vacinação, estamos prestes a começar a sair do confinamento e as pessoas estarão mais propensas a viajar, sobretudo, no território do seu próprio país e a tendência mundial indica que a maioria dos turistas desejará estar mais em meio à natureza, que em locais que levam a aglomerações.

Eis, portanto, uma grande oportunidade para o Enoturismo. No entanto, este precisa priorizar a experiência do visitante e, para tanto, deverá também ser inovador e criativo.

Infelizmente, o rápido “progresso” do Enoturismo no Brasil levou as zonas rurais a passar por boas e más transformações.

Vinícola Miolo: fórmula que deu certo, no Vale dos Vinhedos” (Crédito: Miolo)

Da Linha Graciema ao Plano Diretor

A época da criação do Vale dos Vinhedos, seis foram as vinícolas que constituíram a Aprovale, hoje são aproximadamente 30. A estrada pela Linha Graciema era de terra, não havia hotéis, pousadas e restaurantes, hoje são vários os estabelecimentos.

Esse crescimento ou progresso (não desenvolvimento) provocou uma enorme especulação imobiliária, o hectare de terra na década de 90 custava em média R$ 7.000,00 e hoje chega a superar R$ 300.000,00, que inviabiliza o cultivo da videira e incentiva a venda da terra para outros empreendimentos, também pelo envelhecimento da população na zona rural.

Condomínios residenciais surgiram e, vez ou outra, ouve-se um diz-que-diz que outro está em tramitação. No topo de alguns morros querem construir hotéis com mais de 10 andares, que graças ao Plano Diretor do Município de Bento Gonçalves estão sendo barrados.

Mas os principais prejudicados desse abrupto crescimento foram às comunidades rurais, justo as pessoas que criaram o Vale dos Vinhedos que hoje aqui está.

Enoturismo: é preciso priorizar a experiência do visitante e, para tanto, deverá também ser inovador e criativo…

Sem orgulho

Entre 1884 e 1894 pouco mais de 80 mil italianos oriundos do Veneto, do Tirol e da Lombardia vieram para essa região.

A saga dessa gente, que a ferro e fogo forjaram esse território não pode ser esquecida, pois desbravaram essas terras com muito sangue, suor e lágrimas. Trata-se de uma grande injustiça que se está cometendo com essa gente, pois não estão inseridos em sua grande maioria no contexto do vale atual.

É importante lembrar as palavras do emérito Prof. Luciano Usseglio-Tomasset em sua manifestação durante as Jornadas Latino-Americanas acontecida na década de 80 aqui em Garibaldi. “Pela primeira vez na minha vida tenho orgulho de dizer que sou italiano, pois ver o que os meus conterrâneos em praticamente 100 anos fizeram nessa região, é motivo de muito orgulho”.

Os descendentes desses imigrantes que construíram essa maravilha de lugar, têm o mesmo orgulho? Provavelmente não, entre vários motivos, basta citar um: é difícil apontar um produtor de uva que entrega a sua colheita para uma vinícola do Vale dos Vinhedos, são excluídos até mesmo por seus conterrâneos.

A maravilhosa e encantadora paisagem do Vale dos Vinhedos, o seu maior patrimônio, criada por esses bravos italianos está sujeita a desaparecer

Especulação imobiliária

A maravilhosa e encantadora paisagem do Vale dos Vinhedos, o seu maior patrimônio, criada por esses bravos italianos está sujeita a desaparecer, pela ganância dos especuladores imobiliários e daqueles que no Vale dos Vinhedos se instalam em busca de dinheiro fácil, sem qualquer respeito às origens ou as pessoas do lugar e muito menos a natureza.

Para se investir no vale hoje é preciso ter muito dinheiro! Não é pra colono, o é para megalomaníacos, como esses que desejam construir espigões, ainda, arranha céus ao estilo da Torre de Babel.

Justo em um momento em que as pessoas passarão a viajar para estar mais em meio à natureza que em qualquer outro lugar, pouco a pouco a galinha dos ovos de ouro está sendo depenada.

Exemplos no mundo não faltam, mas não muito distante daqui, em Curitiba, o bairro Santa Felicidade já foi um vale de vinhedos, hoje se resume a uma avenida repleta de restaurantes, uma ou outra vinícola, que elabora seus produtos com uvas de qualquer lugar, sem identidade com o que outrora foi o bairro.

Gostem ou não, o Vale dos Vinhedos está no mesmo caminho.

Esquecem que as pessoas vêm ao Vale dos Vinhedos pelo Vale e não pela marca A, B ou C. O que vende é o Vale!

Repensar

Para tentar frear esse crescimento desordenado, essa invasão predatória e a exclusão dessa gente que realmente criou o Vale dos Vinhedos, é preciso repensar o distrito de Bento Gonçalves, o mais atingido dentro da região demarcada e resgatar a história e origem do lugar.

Não creio que os empresários do Vale dos Vinhedos, mesmo muitos tendo nascido aqui, estão preocupados com esse fato bastante negativo e se esses não estão que dirá os outros.

A maioria acredita que pagando seus impostos estão fazendo a sua parte, o resto é dever do município e do Estado. Sinceramente, uma visão prá lá de retrograda, pra não dizer infame.

Esquecem que as pessoas vêm ao Vale dos Vinhedos pelo Vale e não pela marca A, B ou C. O que vende é o Vale! O que vende é Gramado e não os estabelecimentos que lá estão, aliás, a maioria dos quais são encontrados em qualquer shopping de uma grande cidade.

Assim como Gramado não é mais dos gramadense, o Vale dos Vinhedos também não o é de seus moradores. É chegada a hora de se interceder e agir em prol do verdadeiro VALE DOS VINHEDOS!


Vale dos Vinhedos, 26 de janeiro de 2021

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Werner Schumacher
Werner Schumacher
*Werner Schumacher estudou Economia na PUC/RS e é um dos responsáveis pela profissionalização da vitivinicultura no Brasil.

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