Werner Schumacher analisa outro artigo publicado na grande imprensa sobre vinho

O primeiro artigo torpedeado por quem entende de vinho, vinicultura e enologia foi  o texto  do colunista Hélio Shwartsman, publicado na Folha de São Paulo no último dia 27 de outubro intitulado A enologia é uma fraude?. O presidente da Associação Brasileira de Enologia,  Daniel Salvador e o presidente da Organização Internacional do Vinho e do Vinho, Regina Vanderlinde repudiaram a falta de tato do colunista (Leia a contestação).
Agora, nosso colunista e colaborador Werner Schumacher, que assina a coluna DIÁRIO DO ENOTURISMO, contesta, ou vamos usar um eufemismo, pondera em outro artigo publicado na grande imprensa, desta vez no Valor Econômico, edição da última sexta-feira (20), com o título: O retorno às ânforas – um bem aventurado passo atrás. O artigo é de Jorge Lucki.
Com a palavra, Werner Schumacher:
Considero Jorge Lucki um dos melhores escritores sobre vinhos do Brasil. No entanto, creio que muitos escritores de vinhos, daqui e de fora, estão sendo atraídos pelo canto das sereias, quando deveriam preferir seguir o exemplo de Homero e se aferrarem ao mastro para não sofrer tal atração por ânforas, ancestralidade, chifre de boi, entre outras.Muitos leitores, provavelmente, nunca ouviram falar sobre a flor, a azedia, a volta, a manite, o amargo, o pique láctico e as casses cúprica, férrica, proteica e oxidante em um vinho. Tudo isso está no livro de Otávio Pato, O Vinho, sua preparação e conservação, 6ª edição de 1978.

Não creio que um livro moderno traga hoje tais informações, pois a ciência enológica superou todos esses problemas ao longo dos anos, desde que os vinhos começaram a ser elaborados, portanto, o retorno ao ancestral é algo, no mínimo temerário, pois pode significar o retorno dos problemas acima apontados.

Por volta de 1950, ocorreu um grande problema com os vinhos da Austrália e ninguém conseguia resolver o problema. Os produtores apelaram para os pesquisadores, que encontraram a solução. A partir disso as vinícolas e o governo se uniram e acordaram cada um depositar um dólar australiano na conta do Instituto Australiano de Pesquisa do Vinho (AWRI), assim, com recursos para pesquisa o país é o que é hoje no mundo do vinho.

O artigo começa com o exagerado Sr. Josko Gravner declarando que 300 aditivos podem ser usados na elaboração de um vinho, o que não é verdade

O artigo começa com o exagerado Sr. Josko Gravner declarando que 300 aditivos podem ser usados na elaboração de um vinho, o que não é verdade, aditivos permitidos são muito poucos, como sulfito, vitamina C (anti-oxidante) e salvo raras exceções, (Estados Unidos) permite a adição de corantes.

Os demais produtos utilizados são coadjuvantes, auxiliares, entram no vinho e saem através da decantação e ou da filtração. A clara de ovo é um exemplo, há algum mal em usar a clara para ClaraIFICAR um vinho turvo e torna-lo mais apropriado para o consumo?

Pode haver vinhos padronizados, aliás, os mais consumidos, mas vinho Coca-Cola não

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A qualidade de um vinho deriva, por baixo, de 80% da qualidade da uva, que não é sintética, é uma fruta que depende de vários fatores e TODOS OS ANOS É DIFERENTE, portanto, cabe ao enólogo, através de uma tecnologia que vem se aperfeiçoando desde o momento que o vinho começou a ser produzido.

Se a uva é perfeita e a vinificação também o foi, o enólogo fará mínimas intervenções para engarrafar o melhor vinho possível a fim de fazer chegar à mesa do consumidor um produto no mínimo de muito boa qualidade.

Parece-me LÓGICO ou RACIONAL, logo, incontestável, que nenhum enólogo, por razões de CUSTO, fara grandes intervenções, valendo-se de 300 aditivos para produzir um vinho Coca-Cola.

Pensem comigo, se toca ao enólogo receber uma uva ruim, que teve ter recebido inúmeros tratamentos para chegar até a vindima, portanto foi custoso produzir essa uva e o agricultor no mínimo quer receber o que investiu, caberá ao enólogo realizar todas as intervenções possíveis para transformar esse vinho no mínimo potável, até mesmo para se transformar em vinagre (e vinagre é só aquele de vinho), resultará num produto final mais custoso, mais caro, que aquele a partir de uma uva boa.

Isso não faz sentido, seja em relação aos custos, como a prática enológica, que não é uma FARSA, como parece ser essa tal ancestralidade que renega o VERDADEIRO avanço da ciência.

O Sr. Josko afirma que após experiências com tanques de inox, prensas pneumáticas e barricas novas, questionou o avanço da tecnologia que estava negando 5 milênios de história.

Alguém sabe dizer como era o vinho há 200 anos? Alguns dizem que eram mais doces e que os vinhos secos é fruto da era moderna, portanto o Sr. Joko está fazendo vinhos “modernos” com uma técnica antiga, não está reproduzindo vinhos antigos.

Um escritor americano disse que as ânforas do Sr. Josko são revestidas com cera de abelha no seu interior, portanto uma manipulação ou seria um aditivo.

As barricas de 225 litros foram criadas para facilitar o transporte do vinho, pois as ânforas são frágeis para essa finalidade (Crédito: Getty Images/DT)

As barricas de 225 litros foram criadas para facilitar o transporte do vinho, pois as ânforas são frágeis para essa finalidade. Com o tempo se viu que poderiam contribuir para o afinamento da qualidade do vinho, mas já não é unanimidade há muito tempo, pois várias são as empresas que estão trabalhando com volumes maiores, inclusive, o tanoeiro preferido hoje é austríaco, o Stockinger, que não usa carvalho francês.

O Sr. Josko e adeptos da ancestralidade estão se valendo de conhecimentos da ciência para produzir vinhos diferentes, através de uma técnica antiga para produzir vinhos compatíveis com o gosto moderno.

Parece-me, portanto ser mais uma ferramenta de marketing.

Hoje o D’alessandro, jogador do Internacional de Porto Alegre fez um pronunciamento informando que ficará na equipe colorada até o final deste ano. Dentro deste, fez uma reflexão interessante: para ele o jogador e o treinador de futebol, são os verdadeiros formadores de opinião, pois quem jamais entrou em campo para disputar um campeonato profissional, a exemplo dos comentaristas, podem dar um palpite. Creio que o mesmo deveria valer para o vinho.

Cada escritor deveria no mínimo respeitar a ciência enológica, os organismos que regulam a produção de vinhos, que protegem os consumidores e ter cuidado com alguns aventureiros

Cada escritor deveria no mínimo respeitar a ciência enológica, os organismos que regulam a produção de vinhos, que protegem os consumidores e ter cuidado com alguns aventureiros, principalmente, nesses tempos de pandemia, quando uma contaminação pode desencadear grandes problemas.

Aceitar o artesanal em detrimento da ciência, pode ser perigoso.


Por Werner Schumacher aos 22 dias de novembro de 2020, num ensolarado domingo no Vale dos Vinhedos.

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1 COMENTÁRIO

  1. Em se tratando de vinho, generalizar é totalmente inadequado e não se encaixa neste universo, neste infinito campo de combinações de uvas, solos, climas junto ao fator humano, onde o blend e os percentuais utilizados já bastam para um incomensurável número de combinações.
    Vamos juntar a isto ao uso de barricas (ou não) e a diversidade de madeiras de todo tipo: de primeiro, segundo, terceiro uso, etc,
    Tanques de aço, de epóxi, de concreto, em forma cilíndrica ou em forma de ovo, vinhos de fermentação aberta onde os tanques ficam sem tampas em áreas externas.
    Ânforas sim, ancestrais e modernizadas, que mal tem?
    E ao final de tudo tem o gosto pessoal, a experiência, o preconceito, e o prazer de cada um nesta interminável via que é o vinho.
    Julgar tudo isto é uma perda de tempo, é tentar restringir a liberdade de cada um de obter a experiência, seja de produzir ou de provar. Podemos fundir muito do passado com os avanços que obtivemos nas últimas décadas e que, com certeza, vamos continuar a descobrir. Aplicar o conhecimento atual aplicada a métodos ancestrais tem trazido muita coisa boa ao nosso alcance, basta provar e, gostando repetir.
    Vinho é para ser traído, buscar o próximo, a experiência contínua também é evolução.
    Tenho provado alguns de Ânfora, de Portugal, da Argentina , da Geórgia, e tenho me surpreendido,
    Abraço !

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Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
PAULO ATZINGEN é jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará. Produziu reportagens na Amazônia sobre sustentabilidade, conflitos agrários e étnicos. Lançou em 1998 sua primeira revista, a PAYSAGE – dirigindo-a e publicando-a por três anos. Em Belém, foi repórter do jornal O Liberal, O Paraense e articulista do jornal A Província do Pará e Diário do Pará. É premiado contista, com três livros de ficção em prosa publicados via editais. Trabalhou como redator no jornal de turismo Brasilturis e fundou em 2005 o DIÁRIO DO TURISMO, o primeiro jornal On-line Diário de Turismo do Brasil. Atualmente desenvolve projetos de conteúdo editoriais e digitais para empresas privadas de hotelaria, aviação, companhias marítimas, destinos turísticos e biografias.

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