Em 1982 fiz a minha primeira viagem para a Itália

Em 1982 fiz a minha primeira viagem para a Itália para participar da Convenção Anual da AEB SPA, empresa de produtos enológicos, na época atuando apenas no país europeu.

Por Werner Schumacher*


Espumante Mosnel

A empresa – cuja filial ajudei a constituir aqui no Brasil, e a partir desta se transformou numa multinacional -, está localizada em Bréscia, na Lombardia e muito próxima à região de Franciacorta, que produz um dos melhores espumantes pelo método tradicional do mundo. Na ocasião, tive a oportunidade de visitar a e a Berlucchi.

Espumante pelo Método Charmat em autoclaves horizontais.

Anos mais tarde, em 1997, junto com o Carlos Menegotto e o Lucindo Copat, com auxilio do Klaus Hobücher, visitamos a Henkell, um grande produtor de espumantes alemão, que naquele tempo produzia 200 milhões de litros por ano.

A Henkell é hoje o maior produtor de espumantes do mundo, comprou a espanhola Freixenet

O que chamou a nossa atenção foram as enormes autoclaves, todas horizontais e varias baterias de 4, uma sobre a outra, cuja altura era similar a um edifício de 4 andares.

O enólogo que nos recebeu disse que o espumante era melhor do que aqueles em autoclaves verticais, pela superfície de contato bem maior e com isso o tempo de contato com as borras (Sur lie) era muito mais efetivo. Para o enólogo, a qualidade ficava muito próxima aquela de um espumante produzido pelo método tradicional.

Henkell é hoje o maior produtor de espumantes do mundo (Crédito: Henkell.com)

Comendo como na Idade Média.

À noite, dormimos em uma pequena vila alemã chamada Guldental, por gentileza da empresa Begerow, fabricante de sistemas de filtração e fomos jantar num restaurante especializado em comida da idade média, considerado um dos melhores da Alemanha, o prato era preparado sobre uma pedra aquecida e assim levado para a mesa, muito bom mesmo, como era época de vindima, provamos inclusive vinho doce, aquele ainda em fermentação.

O que os alemães fazem quando de uma vindima extraordinária?

A vindima de 1997 foi muito boa, de excelente qualidade e os produtores decidiram não aumentar a quantidade ofertada dos melhores vinhos, para não provocar a queda de preços pela maior oferta, segundo eles difícil de recuperar, então melhoraram a qualidade das categorias de vinhos inferiores.

A Rainha da Uva e do Vinho DE 1995 que adora comer rabanetes!

Há pouco descobri que o atual Ministro da Agricultura e Alimentação da Alemanha, é Julia Klöckner (Crédito: divulgação)

Há pouco descobri que o atual Ministro da Agricultura e Alimentação da Alemanha, é Julia Klöckner, que nasceu em Guldental, uma vilazinha que tem aproximadamente 2.500 habitantes. Ela é filha de enólogo e foi uma das mais festejadas Rainha da Uva e Vinho. Gosta muito de comer saladas e não pode faltar rabanete, que há pouco foi considerado excelente para harmonizar com espumantes.

Voltando a produção de espumantes em Autoclaves Horizontais

Há pouco encontrei um artigo de Becca, do site www.academicwino.com, por sinal muito bom, que visitou a Mosnel em 2017, justo aquela que visitei em 1982, sendo muito cru ainda sobre a produção de vinhos, não percebi tais autoclaves, ou talvez não existissem ainda, afinal, estamos falando de quase 40 anos atrás.

As autoclaves verticais da Mosnel são de 3.000 a 15.000 litros e aquelas horizontais variam de 4.400 a 5.700 litros.

Após a fermentação, quando se pode constatar a grande diferença, os espumantes da Mosnel permanecem 6 a 7 meses para envelhecer com as borras. O grau de complexidade e estrutura é muito maior naqueles envelhecidos horizontalmente.

O vinho base destinado às autoclaves horizontais é elaborado a partir do mosto de primeira prensagem, de qualidade superior, que será destinado para o Franciacorta Vintage e o em autoclaves verticais para o Franciacorta Não vintage.

O melhor resultado é obtido por uma questão de física!

O tempo de contato do espumante com as borras é mais vantajoso nos tanques horizontais é uma simples propriedade da física, ou seja, a relação área-superfície-volume. Esta é a razão pela qual os espumantes produzidos pelo método tradicional, o da elaboração na garrafa, a área de contato é maior.

O tempo de contato do espumante com as borras é mais vantajoso nos tanques horizontais (Imagem ilustrativa)

Voltando a Franciacorta neste século

Por gentileza da empresa Vason e em companhia de Gilberto Pedrucci e respectivas esposas, visitamos a Bellavista, uma empresa que produz também ótimos espumantes. Fizemos a visita junto com um grupo da ONAV, uma associação italiana de degustadores de vinhos apenas e o Professor que guiava o grupo acabou nos dando uma aula sobre a taça de espumante e nos explicou o que é o espumante Satèn, exclusividade de Franciacorta.

Franciacorta Satèn é um espumante DOCG, cuja produção é permitida na provincia de Brescia. O termo Satèn é uma marca registrada do Consorzio Franciacorta. Esse se diferencia de todos os outros Franciacorta pela menor pressão na garrafa (máximo 5 atmosfere). O Satèn tem características únicas e inconfundíveis, sápido e agradável e frescor, que se harmonizam com uma inata suavidade que recorda a sensação delicada da seda.

Mas a autoclave horizontal deve custar mais cara e ocupa mais espaço!

Realmente é mais cara a autoclave horizontal que a vertical, mas a maior área superficial de contato com as leveduras justifica o investimento e a questão do espaço é falsa, pois se pode empilhar uma cobre a outra.

Como vimos, dentro de um único produtor há uma variedade de produtos que para os amantes e consumidores de vinho é sensacional

No site de uma empresa da República Tcheca encontrei oferta de autoclaves para a produção de espumantes pelo método Charmat. Peguei como exemplo aquelas com capacidade para 5 mil litros, a vertical custa € 15.179,00 e a horizontal € 18.352,00, isto é, 21% mais cara, respectivamente: x 6,47 = R$ 98.208,13 e R$ 118.737,44.

Enfim, inúmeros são os métodos em vitivinicultura que permitem a elaboração de vinhos de maior qualidade!

Como vimos, dentro de um único produtor há uma variedade de produtos que para os amantes e consumidores de vinho é sensacional, pois mais uma razão para se provocar continuamente a experiência de produtos diferentes e assim educar e desenvolver o paladar para se poder apreciar tudo o que o mundo do vinho global tem a oferecer.

Tim-Tim!


Por Werner Schumacher na Santa Lucia do Vale dos Vinhedos aos 26 dias de setembro de 2020, Primavera


*Werner Schumacher estudou Economia na PUC/RS e é um dos responsáveis pela profissionalização da vitivinicultura no Brasil.


 

 

 

 

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