José Ernesto Marino Neto: "O Ministério do Turismo foi criado para distribuir poderes. Criou-se um monstro, sem necessidade"

O advogado, administrador e professor de Investimentos Hoteleiros da FGV José Ernesto Marino Neto é o entrevistado da semana do DIÁRIO DO TURISMO. Marino fundou há 30 anos a BSH International, empresa pioneira na área de investimentos do setor, também fundador e atual presidente da Associação Brasileira de Investidores de Condo-Hotel. O experiente executivo, nesta entrevista ao jornalista Paulo Atzingen, explica o círculo vicioso que se criou no país da dependência dos governos para ações no âmbito privado: “Porque há um sentimento popular de que o Estado pode tudo. Então mais atribuições foram dadas ao Estado e nossa economia ficou cada vez menos produtiva”, diz. Ernesto, no entanto complementa que isto está sendo rompido pela equipe econômica do ministro Paulo Guedes.  José Marino responde também sobre o empobrecimento da política laboral (queda de salários e fuga de talentos), que absorve os reflexos da economia recessiva, e fala também da estrutura do Ministério do Turismo, erigido pelo ministro Walfrido Mares Guia (no governo Lula). “Criou-se uma estrutura de poder, departamentos de normas para regular e ter poder… Criou um monstro sem a menor necessidade“, pondera. Abaixo, a entrevista completa:

REDAÇÃO DO DIÁRIO

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DIÁRIO – Marino, é possível e admissível que a economia do turismo ande com as próprias pernas no Brasil. Por que, no entanto, o empresário e os organizadores de evento vivem com pires na mão na porta de governos?

O Turismo, como qualquer outra atividade econômica, segue as diretrizes do país e costume de seu povo. Desde 1964 observa-se um avanço do Estado sobre a atividade econômica. Foi a partir do governo militar que as estatais se multiplicaram. Mas como a história prova, governos são ineficientes, improdutivos e perdulários. Por consequência, para sustentar a máquina estatal, mais tributos foram criados. No início da década de oitenta a arrecadação tributária equivalia a cerca de 20% do PIB. Hoje já é o dobro! Por que? Porque há um sentimento popular de que o Estado pode tudo. Então mais atribuições foram dadas ao Estado e nossa economia ficou cada vez menos produtiva. Ou seja, o Estado atraindo para si quase todas as atribuições fez com que todos fossem buscar no Estado recursos para viver.

Esse ciclo vicioso está sendo rompido pela equipe econômica liderada pelo ministro Paulo Guedes. Mas como a sociedade está viciada no “todo Poderoso Estado”, ainda apresenta rejeição. Caso típico é a MP que libera as empresas de publicação de balanços em jornais de grande circulação. O governo tenta liberar as empresas desse ônus, mas os Congressistas (que no final são os representantes do povo) reagem para manutenção do status quo.

Nesse cenário, com o Estado com cofres cheios e cidadãos com bolsos vazios, muitos vão até o governo buscar uma parte dos recursos, como se ainda vivêssemos no Império com a Coroa com tesouro sob sua guarda e os membros da Corte se beneficiando do sistema.

A estrutura atual do Ministério do Turismo foi erigida pelo ministro Walfrido que, como político, queria poder. Então criou departamentos de normas para regular e ter poder. Criou departamento de infraestrutura turística para ter verbas e barganhar com outros políticos. Criou um monstro sem a menor necessidade. Nós estamos na mesma sintonia da equipe econômica e acreditamos na capacidade empreendedora do brasileiro.

Para o Turismo andar com suas próprias pernas basta reduzir as atribuições do Estado. O mercado saberá selecionar o que tem valor e o que não tem. E, dessa forma, o Turismo brasileiro tende a criar raízes sólidas e futuro sustentável.

DIÁRIO- Como o senhor analisa a paisagem laboral brasileira no turismo com a queda da receita, faturamento e desvalorização da mão de obra especializada?

Toda atividade econômica tem suas regras. Remuneração sempre está relacionada à responsabilidade da função. Ao mesmo tempo, remuneração guarda proporção à geração de valor de cada negócio.

O Brasil empobreceu nos últimos anos. Obviamente as remunerações diminuíram porque os resultados dos negócios recrudesceram.

Além disso, há outras atividades que geralmente pagam melhor. Cheguei a ver várias vezes bons funcionários de hotéis serem “roubados” por empresas do setor de óleo e gás no Espirito Santo durante o boom da década passada.

Turismo estará sempre vinculado ao crescimento econômico do país, e a política laboral subirá ou descerá de acordo com a atividade econômica.

DIÁRIO- Qual o entrave para se implantar as Contas Satélites no Brasil?

Recordo-me de quando o ministro Walfrido assumiu o Ministério do Turismo e pediu para a FGV um estudo sobre a hotelaria brasileira. Como membro da equipe da FGV,  participei de uma reunião no Ministério para indicar a necessidade de diagnóstico como marco inicial dos estudos solicitados. Após a reunião fomos instados a preparar um cronograma e metodologia para elaboração do diagnóstico. Quase um mês depois, voltamos ao Ministério mostrando a metodologia que utilizaria estudantes de várias universidades como entrevistadores. Ao final de onze meses teríamos o levantamento realizado, dados analisados e o diagnóstico pronto. Houve revolta no Ministério. “Onze meses! Muito tempo!” bradaram alguns funcionários do Ministério. Pois bem, passaram-se mais de dez anos desse encontro e até hoje não se fez o diagnóstico.

Com esse exemplo mostro que os entraves estão na grande burocracia imediatista que há no governo brasileiro. Há temas que são rápidos e há outros que são menos rápidos. É apenas uma decisão governamental.

Acredito que o melhor caminho para crescimento do Turismo é menor intervenção estatal. Se o Estado cuidar de segurança, defesa, justiça, saúde e educação, permitindo aos indivíduos competirem e gerarem riqueza, todos se beneficiam

DIÁRIO- Quais os caminhos para destravarmos o turismo receptivo e emissivo no país, política e economicamente falando?

O crescimento do movimento turístico receptivo ou emissivo depende de vários fatores. O principal deles é o econômico. Crescimento econômico pode colocar mais dinheiro no bolso dos brasileiros e permitir-lhes viajar mais. É de público conhecimento que o brasileiro gosta de viajar mundo afora. O câmbio, componente relevante da economia, é outro fator decisivo. Quando o real fica valorizado o brasileiro vai ao exterior e cria impeditivo ao estrangeiro nos visitar porque o Brasil fica caro. Mas há outras condições relevantes como criminalidade, lixo nas ruas, greves de controladores de voos, manchas de óleo nas praias…

Acredito que o melhor caminho para crescimento do Turismo é menor intervenção estatal. Se o Estado cuidar de segurança, defesa, justiça, saúde e educação, permitindo aos indivíduos competirem e gerarem riqueza, todos se beneficiam. Ao Estado, no Turismo, cabem as tarefas de promover o país para trazer turistas e trazer investimentos. Infraestrutura, financiamentos e outros temas cabem a outros ministérios. Não ao Turismo.

Paulo Atzingen
Paulo Atzingenhttps://www.diariodoturismo.com.br
Paulo Atzingen é paulista e jornalista profissional (DRT-185 PA) desde o ano 2000; cursou Letras e Artes e Comunicação Social na Universidade Federal do Pará (UFPA), É poeta, contista e cronista. Estuda gaita (harmônica).

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