O publicador de releases e o jornalismo de turismo

 

O meu desejo para 2021 é que os jornais e revistas que cobrem o mercado de turismo invistam em jornalismo profissional

 

POR ZAQUEU RODRIGUES – Especial para o DIÁRIO 

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As revistas e os jornais que cobrem o mercado de turismo e hotelaria no país mantém em suas redações uma figura folclórica: ‘o publicador de releases’. Trata-se de um profissional que passa o dia todo republicando as matérias escritas pelas assessorias de imprensa. Na cultura dos ‘publicadores de releases’, as matérias são chamadas de notas. Por dia, um bom ‘publicador de releases’ republica mais de oito notas.

O desafio desse profissional é mudar o título das matérias, embaralhar os parágrafos, cortar uma ou duas palavras aqui, acrescentar outras duas ali. No lugar de incremento, por exemplo, ele coloca desenvolvimento. E pronto, agora é só publicar. O intuito dessa prática é passar a ideia de que o conteúdo foi escrito pela redação. Em síntese, é um desrespeito ao leitor e aos profissionais do turismo. O remanejo simplório das palavras não consegue, porém, alterar a perspectiva da matéria escrita pela assessoria. Ou seja, o veículo funciona como braço da assessoria de imprensa.

Quando eu comecei a escrever sobre turismo e hotelaria, há três anos, eu fiquei estarrecido ao perceber que as redações dos jornais e revistas do setor eram reféns dos releases. Eu então comecei a fazer uma pesquisa informal sobre esse comportamento. Diariamente eu acessava os sites das principais publicações especializadas no trade de turismo para analisar o conteúdo. As matérias eram as mesmas em todos, com as mesmas palavras. Muitas vezes não mudavam nem o título escrito pela assessoria. Ao conversar com jornalistas veteranos, vi que se tratava de um vício histórico e enraizado na imprensa do setor.

O ‘publicador de releases’ é apenas a ponta do iceberg de um problema que acomete a imprensa em geral e, de modo mais preocupante, a imprensa especializada no trade de turismo.

O ‘publicador de releases’ é apenas a ponta do iceberg de um problema que acomete a imprensa em geral e, de modo mais preocupante, a imprensa especializada no trade de turismo. Para quem pratica o jornalismo profissional, comprometido com a realidade e a pluralidade e, sobretudo com o leitor, essa prática tem nome: precarização do jornalismo. A lógica que sustenta esse padrão é simples: contratar um jornalista recém-formado, inexperiente, pagar pouco e colocá-lo para ficar requentando releases de assessoria de imprensa.

Na prática, esse profissional fica compartilhando o conteúdo repassado pelo marketing dos hotéis, dos destinos, das entidades representativas do setor… As matérias publicadas apresentam uma única visão sobre o assunto, não há contrapontos, não há questionamentos, não há dados, não há apuração… Em síntese, não há jornalismo profissional. Agora, indo um pouco mais além e jogando a luz sobre o profissional que exerce essa função, imagine qual será o efeito dessa dinâmica em sua formação?

Os editores, os diretores de redação e os proprietários de publicações especializadas na cobertura de turismo e hotelaria precisam urgentemente ter a consciência dos impactos dessa prática e investir em jornalismo de qualidade, ensinando os jovens repórteres a pesquisar, a investigar, a estudar o assunto e, principalmente, a questionar. A dinâmica de ficar subindo no site ‘cinquenta mil notas’ diariamente os impedem de fazer isso hoje, pois as publicações estão pensando apenas quantidade e se esquecendo da qualidade.

No ano retrasado, durante uma presstrip com outros jornalistas, notei outra faceta do ‘publicador de releases’: os jovens repórteres estavam ansiosos para escrever e publicar rapidamente a matéria sobre o passeio. Segundo eles, a ordem recebida de seus editores era a mesma: “publique a matéria o mais rápido possível para que o nosso veículo apareça em primeiro lugar no campo de busca do Google”. Os que não conseguiram publicar primeiro estavam tensos, pois tomariam uma bronca dos “editores”.

Naquele mesmo dia eu entrei nos sites dos veículos para ler os conteúdos publicados às pressas pelos repórteres, como ordenaram os seus editores. O resultado já era o imaginado: textos carregados de erros ortográficos, de concordância, com imprecisões e recheados de frases desconexas da realidade. Em síntese, tratava-se de uma propaganda barata e mal escrita que prejudica o repórter, o editor, o veículo e os objetos da matéria.

O ‘publicador de releases’ aprende a aceitar e tem medo de se expressar. Quando eu participo de alguma coletiva de imprensa com alguma autoridade política do turismo, eu vejo esse profissional fazer de tudo um pouco: tirar selfie com o político, aplaudir, elogiar… Só não vejo o que eu quero ver mais em 2021: jornalismo profissional.

A cultura do ‘publicador de releases’ expõe a ausência de voz das publicações e de um projeto editorial. Silenciado, o veículo apenas repassa a voz da assessoria de imprensa.

A cultura do ‘publicador de releases’ expõe a ausência de voz das publicações e de um projeto editorial. Silenciado, o veículo apenas repassa a voz da assessoria de imprensa. Não há filtro tampouco checagem. Essa prática reflete no setor financeiro, uma vez que as publicações penam para conseguir anúncios de hotéis, destinos, entidades… Oras!, se o jornal e a revista publicam todo o conteúdo enviado pelas assessorias, por qual motivo o hotel vai querer anunciar? Não vai, pois já tem um canal de anuncio gratuito.

Para o hotel isso é ótimo, certo? Errado! Se analisarmos o resultado final, essa dinâmica também representa um barco furado para os hotéis, destinos, entidades…Vamos pensar um pouco: se todos os veículos republicam o mesmo conteúdo repassado pela assessoria, a comunicação fica limitada e não expressa diversidade. Agora, quando vários jornalistas escrevem textos originais, eles revelam particularidades que falam com diferentes públicos, capturam diferentes aspectos do hotel, do destino… ampliando o alcance da comunicação. E eles podem, na maioria das vezes, melhorar (e muito!) os textos das assessorias.

Em 2021 eu desejo que a imprensa especializada em turismo e hotelaria se liberte dessa cultura cômoda do ‘publicador de releases’ e amplie o conteúdo original e produza cada vez mais reportagens especiais. Isso só será possível investindo em jornalismo de qualidade. A pandemia trouxe à luz tudo e mais um pouco. Assim como os demais setores, o jornalismo de turismo precisa se renovar. Os veículos e os jornalistas precisam estar mais próximos, conversar mais sobre a profissão. Do contrário, todos pagamos o preço mais alto: não ter voz.

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Zaqueu Rodrigues
Zaqueu Rodrigues
Zaqueu Rodrigues é jornalista há mais de uma década e escreve sobre cultura, hotelaria e destinos CONTATO: zaqueufogaca@gmail.com

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